Nos anos de 1970, nas tardes de sábados, eu, então adolescente, costumava ficar no quartinho dos fundos da casa de meus pais, “inventando moda”.

Meu pai, eletrotécnico, ali mantinha uma espécie de oficina, onde consertava coisas da casa. Aprendi a fazer isso com ele, mas também fazia meus brinquedos e invenções. Minhas peripécias quase provocaram um incêndio, quando tentei fazer um foguete movido a álcool; fizeram a casa ficar sem energia, quando tentei acelerar a rotação de um motorzinho que havia montado; e tive um corte razoável, ao tentar transformar uma lata de óleo de cozinha na fuselagem de um aeromodelo, que pretendia fazer voar com um motor de carrinho de Autorama que me deram. A Engenharia já estava no sangue, que escorria de vez em quando.

Estas tardes tinham como pano de fundo um rádio que só tinha AM e ondas curtas. FM ainda era “coisa de rico”, e não havia nenhuma em Santos.

Assim como a “Hora do Brasil” era de transmissão obrigatória durante a semana: “Em Brasília, 19:00”, ao som da abertura da ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes; aos sábados à tarde eram transmitidos programas do “Projeto Minerva”.

A “Hora do Brasil” continua até hoje como um informativo institucional dos Três Poderes. O “Projeto Minerva”, no entanto, foi descontinuado. Posso até entender o motivo, embora não concorde. Programas desse tipo talvez evitassem o atual domínio de modismos importados de péssima qualidade, em todos os sentidos. Ainda existem, mas são poucos e em mídias que pequeno alcance social.

Esse programa abordava folclore, cultura e histórias do Brasil.

Estamos em meio às comemorações dos oitenta anos da tomada do Monte Castello, após meses de tentativas mal-sucedidas, sob frio intenso.

“Você sabe de onde eu venho?”, é a primeira frase da linda “Canção do Expedicionário”, composta por Spartaco Rossi. Para mim, ela tem a mesma força melódica e emotiva da “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso.

Essa pergunta também deve ter sido feita pelos alemães, ao verem brasileiros lutando na Europa.

Apesar do treinamento prévio, nossos “Pracinhas” e mesmo seus oficiais não estavam suficientemente preparados para enfrentar aquele conflito. Tiveram que superar descrenças, anacronismos doutrinários, defasagem de armamentos, preconceitos, o clima e as saudades para se tornarem respeitados por aliados e inimigos.

Sempre tive interesse pela história de conflitos, civilizações, ficção científica e biografias, e meu pai incentivava meu gosto pela leitura. Uma vez por ano, quando havia “Feira de Livros” numa livraria local, ele me dava dez cruzeiros. Eu, entre 11 e 14 anos, “fazia a festa”!

Certa vez, comprei “A verdade sobre a FEB”, um livro tão espesso que, se caísse no pé, talvez demandasse amputação. Junto com ele, vieram “Vientiane”, que contava os primórdios da Guerra do Vietnã, e “Limite de Segurança”, que inspirou filme de mesmo nome, estrelado por Henry Fonda e Larry Hagman e, é bem possível, “Dr. Fantástico”, uma das obras-primas de Stanley Kubrick. Eu os estava lendo quando, certo dia, ao chegar em casa, eles haviam desaparecido!

Sem me avisar, meu irmão “do meio”, que então prestava serviço militar, os havia “presenteado” ao seu comandante.

Imaginem como eu devo ter ficado, mas sendo irmão caçula, bem mais novo, e o “fato consumado” me fizeram ter que engolir a raiva… mais ou menos.

No entanto, folhear o “livrão” já havia permitido entender a grandeza de nossos “Pracinhas”, que alguns insistem em desmerecer, associando-os a questões ideológicas, que poucos deles sequer tinham noção.

O tema de um dos programas do “Projeto Minerva”, lembro bem, foi a FEB. Ele não abordou aspectos militares do conflito, mas como nossos “Pracinhas” suportaram esse período, usando a música como elemento de distensão.

Em meio a tantas baixas e sofrimentos, eles encontraram tempo para compor e cantar músicas como “Sinhá Lurdinha”, de Natalino Cândido da Silva, então cabo da FEB, que repetia a frase: “Mas onde eu vi muito tedesdo, foi lá no Monte Castelo”.

Pela intensidade e duração dessa batalha, com certeza eles viram muitos tedescos, denominação adotada para os alemães, semelhante ao “tedeschi” utilizado pelos italianos.

Os soldados alemães resistiam, armados até os dentes, em posições defensivas muito bem planejadas e dispostas. Eram combatentes tão experientes quanto desesperados pela derrota iminente.

Essa foi a batalha mais importante da FEB, uma vitória em múltiplos sentidos, junta com outras até hoje honrada por descendentes de italianos que tiveram contato com os brasileiros.

Guerras não foram feitas para serem comemoradas, mas não se pode transferir a culpa dos que as fomentam, criam ou tiram proveito para os que nelas lutam e arriscam suas vidas, a maioria apenas pensando em voltar para casa.

Que nossos “Pracinhas” sempre sejam lembrados com o respeito e a dignidade que merecem!

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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