A CIÊNCIA COMO BANDEIRA

O cientista não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas.

Claude Lévi-Strauss

Por Margarete Hülsendeger

Num tempo não muito distante, dizer que algo era “cientificamente comprovado” encerrava o debate. Era como acionar uma espécie de cláusula de confiança: se a ciência afirmava, então era verdade. Hoje, esse selo perdeu força — e, mais grave ainda, passou a ser disputado como se fosse uma bandeira de torcida.

Vivemos a era da politização da ciência. Isso quer dizer que, em muitos casos, ela deixou de ser um instrumento de investigação para se tornar uma ferramenta de convencimento. A ciência, que deveria promover a compreensão coletiva, vem sendo moldada, distorcida ou simplesmente ignorada, conforme o interesse de quem detém ou deseja o poder. A dúvida, essencial no método científico, passou a ser usada como arma para enfraquecer consensos. Não se contesta um dado por honestidade intelectual, mas por conveniência. Cria-se, assim, um ambiente em que toda verdade vira “opinião” e toda mentira ganha o status de “versão alternativa”.

Um dos campos mais sensíveis a esse movimento é o das mudanças climáticas. Os dados são robustos, o consenso científico é sólido, e os efeitos já estão entre nós — secas extremas, enchentes fora de época, calores insuportáveis em regiões antes amenas. Ainda assim, Donald Trump, agora em seu segundo mandato, mantém sua postura cética. Seu governo continua retirando os Estados Unidos de acordos internacionais e cortando recursos destinados a pesquisas ambientais. É um tipo de negacionismo calculado: admitir a urgência climática exigiria frear interesses econômicos que financiam campanhas e sustentam ideologias.

Enquanto isso, o mundo tenta reagir. Em 2025, a Conferência das Partes (COP30) será realizada em Belém, no coração da Amazônia brasileira. O local é simbólico e estratégico. A floresta, que deveria ser nossa aliada contra o colapso climático, também tem sido palco de destruição. A escolha de Belém é uma tentativa de recolocar a pauta ambiental no centro do debate, dando protagonismo aos países do Sul Global. Espera-se que sejam firmados compromissos mais ambiciosos de descarbonização, com foco na preservação dos biomas tropicais e no financiamento de ações climáticas por parte dos países historicamente mais poluentes.

Mas a pergunta permanece: os líderes vão à Amazônia para ouvir a floresta ou apenas para fazer fotos entre as árvores? E mais: Trump comparecerá? Se sim, trará algum compromisso real com a agenda ambiental ou apenas seu ceticismo embalado para exportação?

Outro exemplo, mais próximo e doloroso: a pandemia. Durante a crise da COVID-19, vimos o conhecimento científico ser atacado por todos os lados. No Brasil, medicamentos sem eficácia comprovada foram promovidos como “cura milagrosa”, enquanto vacinas — desenvolvidas em tempo recorde, com ampla base de dados e revisões independentes — tornaram-se alvos de campanhas de desinformação.

Os efeitos dessa ofensiva são sentidos até hoje. Desde então, a cobertura vacinal infantil tem caído ano após ano. Doenças que já estavam erradicadas, como sarampo e poliomielite, ressurgiram. Em algumas regiões, hospitais enfrentam casos de coqueluche — uma doença evitável com uma simples dose de vacina. E não são apenas as crianças que estão vulneráveis. Entre os adultos, a resistência à vacinação também cresce. O Sul do Brasil, por exemplo, registra um número alarmante de hospitalizações por Influenza, e o inverno mal começou. A politização da ciência, nesse caso, não é abstração teórica. Tem custado vidas — e continuará custando, se nada for feito.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

O mais preocupante é que essa corrosão da confiança científica não se limita a crises específicas. Ela cria uma cultura de suspeita generalizada. A ciência passa a ser vista como uma construção ideológica, como se houvesse “ciência de esquerda” e “ciência de direita”. Dados são relativizados, estatísticas são ignoradas e o pesquisador passa a ser visto como um militante disfarçado. Isso é perigoso, porque coloca em xeque a única ferramenta confiável que temos para enfrentar desafios globais complexos — da fome ao aquecimento global, das pandemias à inteligência artificial.

É verdade que a ciência nunca foi neutra. É feita por pessoas, com suas histórias, crenças e limitações. Mas há diferença entre reconhecer a influência do contexto e deslegitimar completamente o processo científico. O método não garante certezas absolutas, mas oferece algo ainda mais valioso: a possibilidade de errar com critério, corrigir-se com humildade e avançar com base em evidências.

No filme Conclave, uma reflexão sobre a fé destaca que a dúvida é o que a mantém viva. A mesma lógica se aplica à ciência — sua força não está em certezas absolutas, mas na disposição constante de questionar, revisar e aprender. A dúvida não enfraquece o conhecimento; ao contrário, é o que o impulsiona.

No fim das contas, a politização da ciência não é apenas manipulação. É um reflexo da dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade. Queremos respostas rápidas, soluções simples, heróis e vilões. Mas o mundo, como a ciência, é cheio de nuances. E talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente reaprender a confiar no que é complexo, contraditório e — por isso mesmo — profundamente humano.

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