MUDANÇAS NO CAMPO E RETRAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR: TENDÊNCIAS FUNDIÁRIAS EM IMBITUVA/PR

CAMBIOS EN EL CAMPO Y RETROCESO DE LA AGRICULTURA FAMILIAR: TENDENCIAS AGRARIAS EN IMBITUVA/PR

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Zaqueu Luiz Bobato[1]

Resumo: O presente artigo analisa os efeitos das transformações fundiárias no município de Imbituva/PR entre 1996 e 2017, com base nos dados dos Censos Agropecuários do IBGE. O foco recai sobre o recuo das propriedades familiares, sobretudo nas faixas abaixo de 2 hectares, e sobre a consolidação de um padrão fundiário concentrador. A abordagem é quantitativa e descritiva, com respaldo na literatura crítica da Geografia Agrária. Observa-se que a modernização agrícola operou seletivamente, favorecendo segmentos capitalizados em detrimento das formas tradicionais de organização camponesa. Conclui-se que as políticas públicas contribuíram para esse processo, ao não reconhecerem a diversidade territorial e a vulnerabilidade da agricultura familiar.

Palavras-chave: Estrutura fundiária; Modernização agrícola; Agricultura familiar.

Resumen: Este artículo analiza los efectos de las transformaciones agrarias en el municipio de Imbituva/PR entre 1996 y 2017, basándose en los datos de los Censos Agropecuarios del IBGE. El análisis se centra en la reducción de las propiedades familiares, especialmente aquellas por debajo de 2 hectáreas, y en la consolidación de un patrón concentrador de tierras. La investigación utiliza un enfoque cuantitativo y descriptivo, con respaldo en la literatura crítica de la Geografía Agraria. Se observa que la modernización agrícola operó de forma selectiva, beneficiando a los segmentos capitalizados en detrimento de las formas tradicionales de producción campesina. Se concluye que las políticas públicas contribuyeron a este proceso al no considerar la diversidad territorial ni la vulnerabilidad de la agricultura familiar.

Palabras clave: Estructura agraria; Modernización agrícola; Agricultura familiar.

1. Introdução

A estrutura fundiária no Brasil tem sido historicamente marcada por desigualdades profundas, agravadas ao longo das últimas décadas por políticas públicas que favoreceram a modernização seletiva da agricultura. Esse processo ampliou a concentração da terra, excluiu grande parte dos pequenos produtores e promoveu a expansão de formas empresariais de uso do território, com forte articulação ao agronegócio (Silva et al., 1983; Delgado, 2005).

No Estado do Paraná, as transformações agrárias revelam fortes contrastes regionais, nos quais coexistem municípios com grande capitalização e outros com base familiar vulnerável. Como destaca Cunha (2003), políticas de desenvolvimento rural aplicadas de forma homogênea desconsideram essas especificidades, aprofundando as desigualdades e contribuindo para o enfraquecimento de formas tradicionais de organização camponesa.

O município de Imbituva/PR, localizado na mesorregião Sudeste do Paraná, insere-se nesse contexto como um caso emblemático de transição fundiária. Com forte presença de agricultores familiares, o território tem experimentado mudanças importantes, como o desaparecimento de micropropriedades e a consolidação de um padrão concentrador de terras.

Este artigo tem por objetivo analisar essas tendências fundiárias com base nos dados dos Censos Agropecuários de 1996, 2006 e 2017, buscando compreender de que forma os processos de transformação agrária têm afetado a estrutura produtiva local e as condições de permanência da agricultura familiar.

2. Metodologia

Este estudo adota uma abordagem quantitativa-descritiva, baseada na análise de dados secundários dos Censos Agropecuários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes aos anos de 1996, 2006 e 2017. O foco empírico é o município de Imbituva/PR, situado na mesorregião Sudeste do Paraná, reconhecido por sua trajetória histórica vinculada à agricultura familiar.

Os dados foram organizados por faixas de área dos estabelecimentos agropecuários, permitindo identificar tendências de redução, estabilidade ou crescimento em diferentes segmentos fundiários. Devido às diferenças metodológicas entre os censos, os dados de 1996 foram utilizados apenas como referência geral, enquanto os de 2006 e 2017 permitiram comparações mais refinadas.

A interpretação dos dados foi orientada por categorias analíticas presentes na literatura crítica da Geografia Agrária, especialmente no que se refere à modernização excludente, à concentração da terra e à vulnerabilidade da agricultura familiar. Embora o estudo se restrinja à dimensão quantitativa, os resultados indicam padrões relevantes que podem ser aprofundados em pesquisas futuras com métodos qualitativos.

 3. Imbituva/PR e a base agrícola local

O município de Imbituva está situado na região centro-sudeste do Estado do Paraná, a aproximadamente 160 km de Curitiba. Sua localização estratégica, próximo ao polo regional de Ponta Grossa, o insere em uma área de transição entre dinâmicas produtivas tradicionais e a expansão recente do agronegócio.

Conforme ilustra a Figura 1, o território de Imbituva está integrado à malha municipal paranaense e possui limites geográficos bem definidos. A figura apresenta a posição do município em relação à capital Curitiba e ao centro regional próximo Ponta Grossa), destacando sua inserção em uma região de expressiva atividade agropecuária.

Figura 1 – Localização do município de Imbituva no Paraná

Fonte: Instituto de Terras e Cartografia do Paraná (ITCG, 2011). Elaboração: Fernando Fernandes (2012).

Com população de 29.924 habitantes, sendo expressiva a presença de moradores na zona rural (IBGE, 2025), Imbituva apresenta práticas agrícolas fortemente marcadas pela lógica da agricultura familiar. Essa configuração tem raízes históricas que remontam à chegada de imigrantes europeus entre o final do século XIX e início do século XX, responsáveis por estabelecer pequenas propriedades voltadas à produção diversificada e à reprodução social no campo. Destaca-se que o município se caracteriza por práticas agrícolas com base familiar, herdadas de uma ocupação territorial que se intensificou entre o final do século XIX e início do século XX (Bobato, 2017).

4. Modernização e concentração fundiária: uma leitura geral

As transformações na estrutura agrária brasileira foram impulsionadas, nas últimas décadas, por políticas públicas que privilegiaram a mecanização, o crédito subsidiado e a integração produtiva aos grandes mercados. Esse modelo de modernização agrícola, segundo Silva et al. (1983), operou de forma seletiva e excludente, reforçando a diferenciação interna do setor rural e inviabilizando economicamente os estabelecimentos de menor porte.

No contexto paranaense, Cunha (2003) demonstrou que programas de desenvolvimento rural aplicados de maneira homogênea acentuaram as desigualdades estruturais, ao ignorar a diversidade regional e as especificidades das formas camponesas de produção. Como resultado, municípios com base fundiária tradicionalmente fragmentada passaram a registrar o desaparecimento progressivo das micropropriedades.

Delgado (2005) interpreta esse processo como parte de uma lógica de acumulação que atribui à terra um valor estratégico, não apenas como meio de produção, mas também como ativo financeiro. A concentração fundiária, nesse sentido, não é uma distorção, mas uma funcionalidade sistêmica da modernização conservadora, que favorece os segmentos capitalizados e subordina os pequenos produtores a cadeias agroindustriais que limitam sua autonomia.

Em Imbituva, tais processos se manifestam por meio da redução expressiva no número de estabelecimentos de até 2 hectares e pela permanência relativa de unidades familiares entre 5 e 10 hectares, que ainda encontram estratégias de resistência ou adaptação. Esse cenário evidencia uma transição estrutural que compromete a diversidade produtiva e reconfigura o uso e o acesso à terra.

5. Resultados e Discussão

Os dados dos Censos Agropecuários revelam que o município de Imbituva/PR passou por uma importante redução no número de estabelecimentos rurais entre 1996 e 2017.

Tabela 1 – Evolução do número de estabelecimentos agropecuários em Imbituva/PR

AnoTotal de EstabelecimentosMenos de  10 haMais de  500 ha
19962.4691.3699
20062.1009066
20171.59958013

Fonte: IBGE – Censos Agropecuários 1996, 2006 e 2017.

Entre 1996 e 2017, o total de unidades produtivas caiu de 2.469 para 1.599, o que corresponde a uma retração de mais de 35%. A queda mais acentuada ocorreu nas faixas inferiores a 10 hectares, especialmente entre os estabelecimentos com menos de 2 hectares, cujas reduções superaram 60%. Tais perdas indicam uma dificuldade crescente de permanência para os pequenos produtores, pressionados pelas exigências de escala, mecanização e inserção em mercados competitivos.

Em contrapartida, as propriedades com mais de 500 hectares apresentaram crescimento absoluto, ainda que modesto. Essa tendência sinaliza a concentração fundiária em curso, na qual os estabelecimentos menores são, muitas vezes, incorporados por unidades maiores ou simplesmente desaparecem.

De acordo com Silva et al. (1983), esse tipo de transformação decorre da forma seletiva com que a modernização agrícola foi implementada no Brasil, privilegiando segmentos capitalizados e inviabilizando tecnicamente as unidades de base familiar. Delgado (2005) reforça que a terra passou a ser tratada como ativo valorizável, o que intensificou a expulsão de produtores que não atendem aos critérios de competitividade exigidos pelo agronegócio.

No caso de Imbituva, destaca-se a estabilidade relativa das propriedades entre 5 e 10 hectares, que apresentaram a menor taxa de redução no período. Essa resiliência pode estar associada a estratégias de diversificação produtiva e à adoção da pluriatividade, conforme observado por Schneider (2003) em seus estudos sobre reprodução social da agricultura familiar.

Cunha (2003), por sua vez, já alertava que políticas públicas descoladas das realidades regionais aprofundam desigualdades e desestruturam os territórios camponeses. O caso de Imbituva ilustra essa crítica ao revelar um processo de transformação estrutural fundado na seletividade institucional e econômica.

6. Considerações Finais

A trajetória recente da estrutura fundiária no município de Imbituva/PR reflete tendências mais amplas do campo brasileiro. A redução expressiva no número de estabelecimentos agropecuários entre 1996 e 2017, especialmente entre as unidades com menos de 2 hectares, evidencia o avanço de um modelo de modernização que favorece a concentração da terra e marginaliza as formas tradicionais de organização camponesa.

A modernização agrícola, tal como analisada por Silva et al. (1983), operou de modo seletivo, reforçando desigualdades internas ao setor rural e inviabilizando tecnicamente os pequenos estabelecimentos. Como demonstrado por Delgado (2005), a terra passou a ser tratada como ativo econômico, subordinando sua função social à lógica da valorização patrimonial. Essa racionalidade produtivista, combinada a políticas públicas indiferentes à diversidade regional, aprofundou os efeitos excludentes sobre os territórios de base familiar.

Cunha (2003) destacou que o desenvolvimento rural deve considerar as especificidades locais para ser efetivo. Imbituva mostra que a ausência de políticas territorializadas contribuiu para a perda da base fundiária tradicional, ainda que parcelas resilientes, como as propriedades entre 5 e 10 hectares, revelem alguma capacidade de resistência.

A pluriatividade e outras estratégias de reprodução social, como aponta Schneider (2003), são alternativas que vêm sustentando a permanência de famílias no campo, mesmo diante de pressões estruturais. No entanto, sem políticas consistentes de apoio à agricultura familiar, essas estratégias tendem a ser insuficientes.

Conclui-se que o caso de Imbituva é revelador de uma transição fundiária com fortes impactos sociais e produtivos. A manutenção da diversidade rural e da soberania alimentar exige a reformulação das políticas públicas, com reconhecimento da importância econômica, social e territorial da agricultura familiar.

Referências

BOBATO, Zaqueu Luiz. A fumicultura como parte integrante da formação socioespacial sul-brasileira: (des)caminhos e perspectivas futuras para os produtores e a região. 2017. 251 f. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências da Terra, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Curitiba, 2017. Disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/56248. Acesso em: 17 jun. 2025.

CUNHA, Luiz Alexandre Gonçalves. Desenvolvimento rural e desenvolvimento territorial: o caso do Paraná Tradicional. 2003. 398 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2003.

DELGADO, Guilherme C. A questão agrária no Brasil, 1950–2003. In: JACCOUD, Luciana (org.). Questão social e políticas sociais no Brasil contemporâneo. Brasília, DF: Ipea, 2005. p. 51–90. Disponível em: https://portalantigo.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/livros/Cap_2-10.pdf. Acesso em: 17 jun. 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censos Agropecuários 1996, 2006 e 2017. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/pms/brasil. Acesso em: 19 maio 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Imbituva – Panorama. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pr/imbituva/panorama. Acesso em: 17 jun. 2025.

SCHNEIDER, Sérgio. A pluriatividade na agricultura familiar. Revista Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, n. 1, p. 61–84, 2003. Disponível em: https://revistaesa.com/ojs/index.php/esa/article/view/119. Acesso em: 18 jun. 2025.

SILVA, José Graziano da et al. Tecnologia e campesinato: o caso brasileiro. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 3, n. 4, p. 428–463, 1983. DOI: https://doi.org/10.1590/0101-31571983-4020.

Como citar este artigo:

BOBATO, Zaqueu Luiz. MUDANÇAS NO CAMPO E RETRAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR: TENDÊNCIAS FUNDIÁRIAS EM IMBITUVA/PR. Revista Partes [online], São Paulo, DATA MÊS. ANO. Disponível em:<LINK DA PUBLICAÇÃO>. Acesso em: DATA MÊS. ANO.


[1] Professor Formador no curso de Geografia Licenciatura UAB da Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG. Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Paraná-UFPR. Mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG. Graduado em Geografia Licenciatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) campus Irati-PR. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-0961-3137  E-mail: zaqueudegeo@gmail.com

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