O ÍNTIMO COMO CAMPO DE BATALHA

A paz era não existir na consciência de outras pessoas.
Tove Ditlevsen
Por Margarete Hülsendeger
Há livros que parecem escritos para incomodar — não no sentido de chocar gratuitamente, mas de cutucar aquilo que preferimos esconder. Os rostos[1], da dinamarquesa Tove Ditlevsen (1917-1976), é exatamente assim: uma obra que mergulha fundo nas dores de uma mulher à beira do colapso, sem disfarces nem filtros.
Ditlevsen escreveu poesia, ficção e memórias com uma franqueza brutal. Sua vida pessoal — marcada por casamentos conturbados, dependência química e crises mentais — está na base de quase tudo o que produziu. Nos últimos anos, ela tem sido redescoberta por leitores do mundo todo, especialmente por sua trilogia autobiográfica Infância, Juventude e Dependência, que deu novo fôlego à sua obra fora da Dinamarca.
Em Os rostos, publicado em 1968, a autora nos apresenta Lise, uma escritora de livros infantis, casada, mãe de três filhos, que começa a perder o controle da própria realidade. Ela ouve vozes, vê rostos que se desfazem diante de seus olhos — “Durante o dia, os rostos estavam sempre a alterar-se, como se ela os visse refletido em águas agitadas. Olhos, nariz, boca, um triângulo tão simples que, no entanto, continha um número infinito de variações. Como era possível?” — e vive sob a constante impressão de que está prestes a ser abandonada pelo marido, um homem frio, distante e infiel.
A grande força do romance está em como Ditlevsen transforma o caos emocional em literatura, num estilo que lembra o trabalho de Annie Ernaux. Assim como Ernaux, ela transforma experiências pessoais dolorosas — maternidade, relações falidas, perda de identidade — em uma escrita que não busca piedade nem se esconde atrás de metáforas. Ambas mostram que o íntimo pode ser um campo de batalha político e literário.
Os rostos gira em torno de três grandes temas: traição, maternidade e loucura.
A traição aqui não é apenas conjugal. Lise sente-se traída pela própria vida: pelo marido, que não a ama mais (se é que um dia amou), pela escrita, que parece tê-la abandonado, e até pelo corpo, que não responde como antes: “Olhava para o seu corpo com repulsa. Tinha um corpo por usar, com uma barriga relaxada e côncava e peitos vazios com mamilos escuros e duros. O corpo que já ninguém desejava.” O desprezo que ela sente por si mesma é consequência direta de um mundo que cobra tudo das mulheres — juventude, beleza, cuidado, silêncio — e oferece muito pouco em troca.

A maternidade, outro ponto central, é retratada de forma bastante crua. Lise ama seus filhos, mas sente o peso esmagador da responsabilidade. Ser mãe, nesse contexto, é uma tarefa solitária e, muitas vezes, violenta para quem tenta preservar algum traço de si mesma. A sensação de sufocamento é constante — e ainda mais difícil de suportar quando não se tem o apoio de um companheiro ou o reconhecimento de sua dor.
E há, é claro, a loucura. Mas não a loucura “romântica”, vista como inspiração ou fuga. A loucura aqui é ambígua. Pode ser prisão, mas também uma forma de resposta ao absurdo do mundo. Lise passa por internações, tratamentos, remédios e, mesmo assim, continua se perguntando: “Mas o que era real naquele mundo, e o que não era? O fato de as pessoas poderem circular pelo mundo sempre fixas ao seu próprio ego não era uma espécie de doença?” É uma provocação difícil de ignorar: será que é a protagonista que está fora da realidade — ou é a realidade que se tornou insuportável para ser vivida com sanidade?
Apesar do peso dos temas, a escrita de Ditlevsen é enxuta, precisa, por vezes até poética. Não há espaço para exageros. Ela vai direto ao ponto, e, talvez por isso, o impacto seja tão grande.
Os rostos é um romance curto, mas intenso. Um mergulho na mente de uma mulher que sente o mundo ruir ao seu redor — e dentro de si. Quem já leu Annie Ernaux reconhecerá a coragem de transformar a experiência pessoal em arte. Quem ainda não leu talvez descubra aqui uma nova maneira de compreender o que a literatura pode fazer: tornar visível o que costuma ser silenciado.
[1] DITLEVSEN, Tove. Os rostos. Tradução João Reis. Editora Dom Quixote, 2024 (E-book).






