Livros didáticos de matemática do ensino fundamental anos iniciais: análise da representação da mulher

Livros didáticos de matemática do ensino fundamental anos iniciais: análise da representação da mulher

Ana Lúcia Venancio Silva Santos[1]

Resumo: Este artigo analisa as representações femininas nos livros didáticos de Matemática do Sistema Aprende Brasil (Editora Positivo), volumes 1 e 2, utilizados no 3º ano do Ensino Fundamental em Jaru/RO, em 2025. A pesquisa concentra-se na análise de imagens presentes nesses materiais, investigando como as figuras femininas são retratadas e quais papéis sociais lhes são atribuídos. O estudo evidencia a importância de uma representação mais diversa nos materiais didáticos pedagógicos em consonância com os princípios da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para promover a equidade de gênero na educação.

Palavras-chave: Livro didático. Matemática. Representação da mulher. Equidade de gênero. Educação.

Abstract: This article analyzes the representations of women in Mathematics textbooks from the Aprende Brasil System (Editora Positivo), volumes 1 and 2, used in the 3rd year of Elementary School in Jaru/RO, in 2025. The research focuses on the analysis of images present in these materials, investigating how female figures are portrayed and what social roles are attributed to them. The study highlights the importance of a more diverse representation in teaching materials in line with the principles of the National Common Curricular Base – BNCC to promote gender equity in education.

Keywords: Textbook. Mathematics. Representation of women. Gender equity. Education.

Introdução

Parte da história humana foi registrada por meio de imagens, que desempenham papel importante na construção histórica e cultural da sociedade. No contexto escolar, as imagens presentes nos materiais didáticos não apenas ilustram conteúdos, mas também contribuem para a formação de valores, identidades e representações sociais. A partir dessas imagens, é possível abordar temas que atravessam o ensino e a convivência, tornando o livro didático um espaço relevante para a reflexão crítica.

Os livros didáticos utilizados no Ensino Fundamental apresentam símbolos, tabelas, gráficos, imagens e figuras que ajudam a construir uma cultura comum, moldando sutilmente formas de pensar e agir. Dessa forma, o livro didático torna-se não apenas um recurso pedagógico, mas também um instrumento que influencia a construção cultural e a formação de identidades dos/as estudantes.

Com a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), editoras e empresas de materiais escolares intensificaram a produção de livros didáticos para atender às demandas das redes públicas e privadas. O Sistema Aprende Brasil, pertencente à Gráfica & Editora Posigraf LTDA, com sede em Curitiba, Paraná, é um exemplo significativo desse movimento, oferecendo materiais voltados à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental, utilizados amplamente pelas redes de ensino.

O livro didático permanece como uma das ferramentas centrais em sala de aula, utilizado não apenas nos componentes curriculares de Língua Portuguesa ou História, mas também em Matemática e Ciências. Contudo, a lógica comercial que permeia sua produção pode impactar diretamente a forma como os conteúdos são organizados e apresentados, inclusive no que diz respeito à representação de gênero e diversidade.

Neste trabalho, analisamos especificamente as representações femininas no livro didático de Matemática do Sistema de Ensino Aprende Brasil que é constituído por 4 volumes disponibilizados pela editora de forma bimestral ao município de Jaru. A análise foi realizada em apenas dois volumes, 1 e 2 do 3º ano do Ensino Fundamental, em 2025, buscando identificar os papéis atribuídos às mulheres nas imagens e avaliar seu alinhamento com os princípios formativos preconizados pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A BNCC e o ensino da Matemática: imagens como linguagem e instrumento formador

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define que a Matemática no Ensino Fundamental deve contribuir para o desenvolvimento de competências que possibilitem ao estudante compreender o mundo à sua volta, resolver problemas do cotidiano e reconhecer a Matemática como uma construção humana, histórica e cultural. Nesse sentido, a BNCC também orienta que os conteúdos sejam trabalhados por meio de situações contextualizadas, que favoreçam o pensamento lógico, a argumentação, a criatividade e a resolução colaborativa de problemas.

Brizuela aponta que as crianças desde sua chegada ao mundo vivem imersas as notações matemáticas, números em diversas situações e contextos

[…] usados para outros propósitos diferentes (por exemplo, como rótulos e em números de telefone;[…]. O mesmo grau de exposição vale para outras notações matemáticas […] como gráficos e tabelas […] e notações de espaço e mensuração[…], por exemplo. (BRIZUELA, 2006, p. 17).

Além do conteúdo conceitual, a BNCC propõe que o ensino da Matemática também desenvolva valores como o respeito à diversidade e à equidade, a partir de práticas pedagógicas que envolvam linguagem verbal, escrita, corporal e visual. Nessa perspectiva, as imagens presentes nos livros didáticos não são meros recursos ilustrativos, mas elementos essenciais na construção de sentidos e significados, sendo parte ativa no processo de ensino e aprendizagem.

As competências específicas da área da Matemática reforçam essa proposta ao indicar que os(as) estudantes devem ser capazes de:

desenvolver, desde os anos iniciais, uma visão crítica e contextualizada da Matemática como parte da vida social e cultural dos estudantes. A BNCC orienta que os(as) alunos(as) sejam capazes de observar, organizar e representar informações de maneira ética e reflexiva, utilizando diferentes linguagens — como gráficos, tabelas, esquemas e imagens — para comunicar e interpretar conceitos matemáticos (BRASIL, 2018 p.269).

Além disso, destaca-se a necessidade de valorizar a diversidade e promover a cooperação, por meio de projetos que abordem questões sociais e respeitem as diferentes formas de pensar e viver (competências 4, 6 e 7).

Dessa forma, o uso de imagens nos livros de Matemática precisa estar em consonância com esses princípios. As imagens devem possibilitar que meninos e meninas se vejam como sujeitos de conhecimento, capazes de pensar, resolver problemas e participar ativamente das práticas matemáticas. Ao mesmo tempo, essas representações visuais devem comunicar uma mensagem de inclusão, diversidade e valorização dos diferentes sujeitos sociais.

No entanto, conforme observado nas análises realizadas nas imagens nos volumes 1 e 2 do 3º ano do livro do Sistema Aprende Brasil, em uso pela rede municipal de Jaru/RO em 2025, nota-se um distanciamento entre o que propõe a BNCC e o que é efetivamente apresentado nas imagens. Embora haja representações femininas, elas ainda estão fortemente associadas a papéis tradicionais e subalternos, como cuidadoras ou auxiliares. Poucas são as situações em que mulheres — sobretudo negras, indígenas ou com deficiência — aparecem em contextos que envolvam o raciocínio lógico, a resolução de problemas ou o uso de instrumentos matemáticos e tecnológicos.

Essa realidade aponta para a necessidade de um olhar mais atento por parte das editoras, autores(as) de materiais didáticos e redes de ensino quanto ao alinhamento entre os princípios formadores da BNCC e as escolhas visuais dos livros. A presença simbólica das mulheres nas imagens de Matemática precisa ser ampliada e qualificada, de modo que todas as crianças, independentemente de gênero, cor ou condição física, possam se reconhecer nas páginas do livro e se projetar como sujeitos matemáticos.

Como ressalta Pesavento, “as representações são a presentificação de uma ausência” e carregam em si uma ambiguidade constitutiva — “de ser e não ser a coisa representada”. Assim, quando as mulheres são representadas apenas em papéis tradicionais ou secundários, essa imagem atua como filtro simbólico que limita sua presença social e cognitiva no campo da Matemática, mesmo que de forma implícita. (PESAVENTO 2008, p. 12-13),

Livros didáticos de Matemática: Análise da representação da mulher

O avanço da tecnologia não inviabilizou o uso dos Livros Didáticos (LD). Eles continuam a ser uma ferramenta extremamente usada nos espaços de ensino, por vezes o único livro de cunho científico que adentra os lares dos estudantes, sobretudo, em espaços que geograficamente a tecnologia ainda não chegou com tamanha potencialidade. Para tanto, se faz necessário que as discussões que componham o LD tenham a responsabilidade de desconstruir ideais cristalizados que legitimam apenas uma vertente do discurso da sociedade.

Nesta perspectiva, compreendemos que não basta os LD terem a imagem de uma mulher, é preciso analisar de que maneira está sendo representada, quais são os ideais intrínsecos permeando cada figura. Como já discutido acima, sabemos que a construção social é de que a mulher esteja para o privado, cuidando da casa e de todos os afazeres domésticos, dos filhos/as, garantir que a vida do esposo seja ela, em casa ou no trabalho flua de forma harmônica.

Ao analisar a representação da mulher a partir das imagens também se faz importante considerar os diversos grupos de mulheres, pois, temos as especificidades e demandas de cada grupo. Isso também é promover que os estudantes tenham a oportunidade de se verem a partir das imagens, bem como tomem consciência das desigualdades existentes e lutem para haja mais equidade.

Assim, considerar a mulher negra – suas lutas e conquistas ao longo da história – para que elas não sejam representadas somente dentro dos conteúdos de História num contexto escravidão. Considerar a mulher indígena – suas culturas, histórias e resistências – para não serem lembradas somente no período da data de 19 de abril, mas considerar as inúmeras contribuições das diversas mulheres indígenas. Também considerar as mulheres com deficiências um grupo que luta por espaço e representação nos diversos ambientes e, por que não tê-las dentro dos LD e consequentemente em âmbito educacional, promovendo o ensino da inclusão,e “[…] assim, talvez se possa pensar em uma sociedade que favoreça a emancipação humana, concretizável apenas se os discursos dominantes forem revistos, assim como as práticas vivenciais e as performances de gênero” (CONDE, COELHO, 2014, p.15).

As imagens analisadas a seguir fazem parte do volume 1 e 2 do componente curricular de Matemática do Livro Didático (LD) Aprende Brasil do 3º ano do Ensino Fundamental em uso (2025) pela rede municipal de educação em Jaru, Rondônia. Em linhas gerais, a análise permite afirmar que no LD há o registro da imagem da mulher dentro deste componente curricular que historicamente é muito masculinizado e por anos desconsiderou os saberes das mulheres e ainda hoje ressoa desigualdades como a salarial.

Encontrar os registros de mulheres dentro do componente curricular de Matemática nos permite refletir sobre os avanços da presença feminina em materiais didáticos, se considerado que a figura da mulher não era para ser amplamente divulgada por se tratar de um corpo privado. No entanto, apesar de sua presença, é importante problematizar a maneira como a imagem da mulher está colocada no LD, que espaço ela está ocupando, qual sua posição no contexto da imagem, que mulher foi colocada nas imagens, que motivos levaram a escolher uma imagem a outra, são questões que necessitam ser levadas em conta, considerando a importância do LD para a construção do desenvolvimento dos estudantes, ou seja, é importante problematizar o currículo oculto que está presente nas imagens.

Na análise realizada considerando figuras e imagens foram encontradas no volume 1 a presença de oito figuras de mulheres. Na página (1) de abertura do capítulo do LD observamos uma mulher branca de cabelos castanhos  segurando uma peça de bordado sentada de frente para um rio com barquinhos trafegando. A próxima figura de mulher que o material didático possui é na página 18, novamente em abertura de capítulo. Na figura podemos observar a imagem de uma mulher que demonstra ser professora diante de uma turma de 3ª ano que estão jogando boliche usando garrafas.

Na página seguinte (19) identificamos também a presença de mulher, outra vez num contexto de ambiente escolar. A mulher é uma professora que está conversando com estudantes sobre resolução de problemas envolvendo adição até 9. É um diálogo em quadro quadrinhos intitulado “Adição na reta numérica”.

Do ponto de vista da análise didática, conforme preconiza a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), essa abordagem está alinhada ao campo da Matemática (EF01MA06), que incentiva a resolução e elaboração de problemas de adição e subtração por meio de diferentes estratégias. A cena valoriza o diálogo e reconhece que as crianças podem pensar a matemática de formas variadas, estimulando o desenvolvimento do raciocínio e da compreensão. A professora atua como mediadora, introduzindo um recurso visual — a reta numérica — que amplia as possibilidades cognitivas das crianças. Além disso, o material contribui para o fortalecimento da oralidade, o respeito às ideias dos colegas e a construção coletiva do conhecimento, competências essenciais previstas na BNCC, como o pensamento crítico e criativo.

Sob o aspecto imagético, a figura apresenta elementos relevantes relacionados à representação de gênero e diversidade. A professora aparece como uma liderança feminina, reforçando um papel positivo e ativo da mulher no espaço escolar. Quanto às crianças, há um menino e uma menina, o que favorece a inclusão de ambos os gêneros na narrativa, embora haja um maior detalhamento do menino: ele ocupa um quadro maior, com gestos expressivos, enquanto a menina aparece em um quadro menor, com expressão mais discreta. Essa diferenciação visual pode influenciar a percepção de protagonismo, sendo importante promover maior equidade nas representações. A diversidade racial também está presente na imagem, com a menina de traços e tom de pele afrodescendentes, o que é um aspecto positivo para a inclusão. Contudo, é fundamental que esse padrão seja mantido ao longo de toda a produção do material, garantindo que personagens de diferentes origens ocupem papéis de protagonismo e destaque, contribuindo para uma representatividade mais ampla.

Por outro lado, observa-se ainda uma predominância de papéis tradicionais na ilustração: a professora é uma mulher, os alunos estão em posições de ouvintes, e há pouca variação nas funções exercidas pelas personagens. Seria importante diversificar essas funções, incluindo figuras femininas em papéis de liderança, cientistas, esportistas ou outras profissões, promovendo uma visão mais plural e inclusiva de papéis sociais.

Na página 20 a figura da mulher em contexto escolar retoma para dar sequência a explicação sobre adição.

Na página 23, novamente em contexto escolar em resolução de problemas, notamos a presença de uma mulher contando as crianças que estão dentro do ônibus. Somente na página 33 que vemos outra vez a figura de mulheres, o contexto é diferente dos mencionados anteriormente, trata-se de um dia de feira. Notamos que há mulheres atendendo ao cliente à espera de seu pedido de pastel. Notamos também mulheres passando pela pela feira em busca de alimentos. Nas páginas 37 e 38 também identificamos  mulheres que estão resolvendo situações-problemas

No segundo volume do livro didático (LD) de Matemática do 3º ano, utilizado pela rede municipal de ensino de Jaru/RO em 2025, a presença feminina continua sendo retratada em contextos recorrentes de cuidado e ensino, reforçando padrões limitantes historicamente atribuídos às mulheres. Logo na página 2, observa-se uma professora conduzindo a aula enquanto os alunos manipulam o ábaco e exploram objetos geométricos. A imagem destaca a mulher como mediadora do conhecimento — um papel importante e valorizado, mas que, por sua recorrência nos materiais didáticos, limita a diversidade de representações femininas no campo da Matemática. É necessário refletir sobre o porquê de esse papel estar quase exclusivamente atribuído às mulheres, em especial nos anos iniciais, reproduzindo a ideia de que sua atuação deve restringir-se aos espaços educativos e ao cuidado.

Na página seguinte (p. 3), o livro apresenta uma professora ministrando uma videoaula sobre números, assistida por uma aluna em ambiente virtual. Embora essa cena introduza a tecnologia como elemento de mediação da aprendizagem, ainda permanece a associação da mulher ao papel de educadora, enquanto a aluna figura como receptora do saber, sem protagonismo ativo.

Na página 13 do referido material é possível verificar duas mulheres, ambas de cor branca usando touca e máscara aplicando a vacina. Quando direcionamos o nosso olhar para o texto percebemos que a análise visual feita a partir da imagem está condizente, pois o conteúdo textual descreve que é  uma enfermeira.

A imagem aborda o tema no LD “Comparação de números” em um contexto de saúde, utilizando uma ilustração que apresenta a personagem Marcela, uma enfermeira que trabalha em uma unidade de saúde. A representação de uma mulher desempenhando uma função fundamental na sociedade reforça o papel importante das mulheres no setor de saúde, ajudando a desconstruir a visão limitada de que elas estariam restritas ao espaço doméstico. Ao contrário, a imagem evidencia a presença feminina em posições profissionais de responsabilidade social, destacando sua contribuição essencial na promoção do bem-estar coletivo.

A escolha da imagem também possui um propósito educativo, pois serve como uma ferramenta para introduzir o conceito matemático da comparação de números de forma contextualizada. Ao mostrar a enfermeira aplicando uma vacina em uma paciente, o cenário aproxima o conteúdo matemático do cotidiano das crianças, ilustrando como os números são utilizados em situações reais e significativas, como o acompanhamento de campanhas de vacinação. Assim, a ilustração torna o aprendizado mais acessível e relevante, conectando a matemática às experiências diárias.

Do ponto de vista visual, a cena reforça a mensagem de prevenção e cuidado com a saúde. A enfermeira está administrando uma vacina, simbolizando a importância da imunização e do cuidado preventivo. Além disso, o símbolo da cruz vermelha ao fundo reforça a temática de saúde e assistência médica, contribuindo para que o público associe os elementos visuais ao conceito de proteção e atenção à saúde pública.

Por fim, a imagem transmite uma mensagem social de valorização dos profissionais de saúde, destacando seu papel crucial na sociedade, especialmente em momentos de campanhas de vacinação. Além de abordar o aspecto matemático, ela promove uma reflexão sobre a importância da prevenção, do cuidado coletivo e do reconhecimento do trabalho dedicado dos profissionais da saúde, incentivando o respeito e a valorização dessas figuras essenciais para o bem-estar social.

Na página 22, a imagem traz cenas de lazer em família, como pesca, passeios e visitas a espaços públicos, relacionadas a uma atividade sobre gráficos. Nessa cena, as mulheres aparecem em momentos de convivência e afeto, lado a lado com os homens, mas continuam vinculadas a papéis de cuidado e acompanhamento familiar, o que repete um padrão simbólico tradicional.

Já nas páginas 38 e 50, o contexto é o de uma feira livre. As mulheres são representadas ora como feirantes, ora como consumidoras, sempre acompanhadas de crianças. Em especial na página 50, nota-se uma sequência de atividades envolvendo mãe e filha, como ir à feira, pesar alimentos e a própria criança. Trata-se de uma tentativa de contextualizar a unidade de massa no cotidiano, mas que novamente associa a figura feminina ao âmbito doméstico e ao papel materno.

A ausência de diversidade nas funções atribuídas às personagens femininas é notável, não há multiplicidade de perfis, nem variações que mostram mulheres em posições de destaque intelectual. A imagem acaba sendo mais um reflexo da manutenção de estereótipos do que uma ferramenta pedagógica alinhada às competências da BNCC — que preveem a equidade e a representatividade como princípios formadores.

A análise das imagens reforça a ideia discutida que a presença feminina nos livros didáticos de Matemática existe, mas é superficial e baseada em estereótipos. As imagens perpetuam uma visão limitada das mulheres, que as prende a funções já historicamente atribuídas a elas — o cuidado, a docência, o ambiente doméstico. Poucas ou nenhuma imagem as coloca como profissionais da área técnica ou científica, o que possivelmente desrespeita as diretrizes da BNCC quanto à valorização da diversidade e à promoção da equidade de gênero no ambiente escolar. Além disso, a ausência de representações de mulheres negras, indígenas ou com deficiência nas imagens analisadas escancara uma lacuna significativa no compromisso com a inclusão e a representatividade.

Essa limitação simbólica atua diretamente sobre a construção da identidade dos(as) estudantes, principalmente das meninas, que deixam de se reconhecer como possíveis sujeitos do saber matemático. Embora a presença feminina nas imagens represente um avanço em relação ao apagamento total que existia em décadas anteriores, ainda é necessário caminhar rumo a uma abordagem mais ampla, crítica e comprometida com a transformação social. As imagens não devem apenas ilustrar, mas inspirar e refletir a multiplicidade de sujeitos que compõem a realidade escolar e social brasileira.

Conclusão

Diante da análise realizada, fica evidente que as imagens e figuras presentes nos livros didáticos não são apenas ilustrações: elas carregam sentidos, ideias e representações que ajudam a moldar a visão de mundo das crianças. Por isso, é tão importante que esses materiais sejam pensados com cuidado, responsabilidade e sensibilidade.

O livro didático, especialmente nas redes públicas de ensino, continua sendo uma das principais ferramentas pedagógicas — e, em muitos casos, a única com a qual o estudante terá contato diário. Ele influencia diretamente na construção da identidade, dos valores e do olhar dos(as) alunos(as) sobre si mesmos e sobre o outro. Por isso, não podemos naturalizar representações limitadas ou estereotipadas.

Ao analisar os materiais utilizados nas escolas de Jaru-RO, como o Sistema Aprende Brasil, vimos que há espaço para avanços no que diz respeito à representatividade e à pluralidade das figuras humanas mostradas. É necessário que o conteúdo visual esteja alinhado com os princípios da BNCC, valorizando a diversidade, promovendo a equidade e abrindo possibilidades para que todos se vejam e se sintam pertencentes.

Mais do que ilustrar, as imagens nos livros precisam inspirar. Esperamos que este estudo ajude a ampliar o olhar de quem produz, escolhe e usa esses materiais, para que o livro didático seja, de fato, uma ferramenta de transformação social e de construção de um futuro mais justo e igualitário para todos.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/.

BRASIL. Lei nº 11.340 de 7 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Presidência da República. Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres Brasília-DF: SPM, 2006.

BRIZUELA, Bárbara M. Desenvolvimento Matemática nas Crianças: explorando Notações. Porto Alegre: Artmed, 2006.

CONDE, Evelyn I. M. L.; COELHO, Lilian R. Telejornalismo, Discurso e Gênero: Desafios na Análise da Representação das Mulheres Rondonienses. BOCC. 143. UNIR. 2014. Disponível em:http://bocc.ufp.pt/pag/conde-coelho-2014-telejornalismo-discurso-genero.pdf.

PERROT, Michelle. Os excluídos da história. 3. ed. ed. Paz e Terra, São Paulo, 2001.

PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Maria. Nova História das mulheres no Brasil / org. – 1. ed., 1a reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2013.

Como Citar:

SILVA SANTOS, Ana Lucia Venâncio. Livros didáticos de matemática do ensino fundamental: análise da reapresentação da mulher. Rev. Virtual P@rtes, 2025, vol. 1, n. 1, p. 1-10.


[1]* Ana Lucia Venâncio Silva Santos*. Supervisora da rede municipal de educação em Jaru-RO.  Graduada em Pedagogia e Gestão Pública. Especialista em Supervisão, Orientação e Gestão Escolar com ênfase em Psicologia Educacional. Metodologia do Ensino Superior e EAD. Psicopedagogia Clínica e institucional com ênfase no Atendimento Educacional Especializado. E-mail: analvss84@gmail.com

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