COBRAS, LAGARTOS E MORCEGOS
Uma coisa que sempre me surpreende é a capacidade que os roqueiros “pesados” têm para compor e cantar músicas tristes e românticas.
Alguns dos melhores que conheço são de grupos e cantores até bem radicais, em aparências, atitudes e repertórios.
Alice Cooper é um exemplo emblemático, assim como Led Zeppelin.
Alguns grupos parecem gostar de chocar as pessoas, com figuras diferentes, para não dizer coisas estranhas, e músicas que exageram nos decibéis e “riffs” intermináveis, quase impossíveis de você sair cantando ou associando.
O rock sempre teve um quê de transgressão, o que dava liberdade para seus astros dizerem cobras e lagartos, mas sem cair na esculhambação atual.
Quando eu era criança e adolescente, às vezes eu os ouvia no rádio, pois não tínhamos nenhum aparelho de som em casa, mesmo quando tivemos, faltava grana para comprar discos e fitas cassetes, tudo o que desapareceu e agora está voltando.
Só depois de adulto comecei a recuperar minha memória musical desses caras e grupos. E como eu gosto de ouvir suas músicas e ver seus videoclipes!
Ainda sobre gosto musical, canções que têm sons que funcionam como um “pano de fundo”, dando uma noção de continuidade quase transcendental, estão entre as minhas preferidas.
Das muitas músicas lentas de que mais gosto, uma delas vem de um grupo que eu considerei sugerido, e de um vocalista mais ainda: Black Sabbath e Ozzy Osbourne, que recentemente deixaram este plano.
A música é “Changes”!

Poucos instrumentos, basicamente um piano e o que parece ser um sintetizador; um coro ao fundo e a voz forte e marcante de Ozzy cantam o fim de um relacionamento cheio de tristeza e pesar.
Quem diria que um grupo que diziam estar relacionado ao ocultismo e um comedor de morcegos seria capaz de fazer uma música tão linda quanto triste?
Não conheço muitas músicas deles, tirando as de uma coletânea em CD. Se fosse um LP, provavelmente a faixa “Changes” já teria furado.
Ozzy chegou a regravar esta música num dueto com sua filha, mas sem o mesmo sentimento do original.
Todos mudaram por mudanças na vida, mas algumas coisas nunca mudam, principalmente porque são feitas com sentimentos verdadeiros. Alguns vêm de origens improváveis, e até por isso se eternizam! A interpretação de Ozzy é um rasgar de alma, que se derrama em poesia numa atmosfera etérea.
Assim é “Changes”, para mim! E é essa a lembrança que sempre tive de Ozzy…
Se bem que “Crazy Train” também é do caramba!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro e Pesquisador Universitário
Membro da Academia Santista de Letras






