GOVERNADOS PELO MEDO
O ideal do governo totalitário não é alcançar convicção, mas destruir a capacidade de formar qualquer convicção.
Hannah Arendt

Por Margarete Hülsendeger
Não é de hoje que o medo se tornou uma ferramenta poderosa nas mãos de quem prefere governar não pela confiança, mas pelo controle. Medo do outro, da mudança, do que pode acontecer se “eles” vencerem — seja lá quem forem “eles”. A política do medo é uma antiga conhecida, mas, ultimamente, tem se mostrado mais ativa do que nunca: vestida de fake news, empunhando megafone nas redes sociais e marchando ao lado do autoritarismo.
Funciona assim: espalha-se uma ameaça — real, exagerada ou simplesmente inventada. Pode ser um inimigo externo, um grupo social ou uma ideia nova. Em seguida, cultiva-se a sensação de que apenas uma figura forte, decidida, “que fala o que pensa” (ainda que diga absurdos), pode nos salvar. E pronto: está armado o teatro. A população, assustada, troca direitos por promessas de segurança. A democracia — essa criatura paciente e exigente — vai ficando para depois. O medo tem pressa.
Donald Trump é um exemplo claro de como essa estratégia se reinventa. No segundo mandato, voltou à Casa Branca como quem retorna a um palco: com os velhos truques de sempre, mas novas maquiagens. Reacendeu a retórica contra imigrantes, elevando o tom da desumanização. E foi além: iniciou uma nova onda de tarifaços contra diversos países — incluindo o Brasil — com alegações pouco fundamentadas, como a recente acusação de que estaríamos violando direitos humanos. Sem qualquer evidência concreta, espalha essas mentiras com ar de verdade absoluta. A mensagem não precisa ser coerente — só precisa gerar medo.
No Brasil, vimos algo semelhante com Jair Bolsonaro, que se elegeu sob o discurso de “salvar” o país da corrupção, da “ideologia de gênero” e do “politicamente correto”. Criou um ambiente de constante alerta, no qual o adversário político era tratado como traidor da pátria. Tudo isso embalado por uma avalanche de fake news disparadas por WhatsApp e redes sociais — um fenômeno que deixou de ser apenas uma tática de campanha para se tornar método de governo.
Em outras partes do mundo, o roteiro se repete. Na Hungria, Viktor Orbán sustenta seu poder atacando migrantes e apresentando a União Europeia como uma ameaça à soberania nacional. Na Rússia, Vladimir Putin justifica a repressão a opositores e o cerceamento da liberdade de imprensa como formas de manter a ordem e proteger o povo do “caos ocidental”. Na Turquia, Recep Tayyip Erdoğan acusa constantemente seus críticos de conspirarem contra o país, usando o medo para ampliar seu controle.
São muitos os lugares onde o medo se transformou em política pública.
Essa política se sustenta sobre um tripé cada vez mais sofisticado: tecnologia, mentira e medo. Por trás das falas inflamadas e dos gestos teatrais, opera uma engrenagem silenciosa, composta por trolls, robôs e algoritmos programados para fabricar o que se deseja que o povo acredite. Esses exércitos digitais atuam com precisão cirúrgica: fabricam fatos, distorcem dados, amplificam boatos — mentiras sobre crimes, fraudes eleitorais, ameaças inexistentes. Vídeos editados, manchetes forjadas, imagens retiradas de contexto. Tudo circula numa velocidade vertiginosa, como se a verdade pudesse ser decidida pela quantidade de compartilhamentos. E quanto mais medo causam, mais eficazes se tornam. Quem se assusta não investiga — apenas reage.
O maior risco disso tudo não é apenas a confusão momentânea. É a corrosão silenciosa da democracia, que deixa de ser um espaço de convivência com o diferente para se transformar em um campo de batalha entre “nós” e “eles”. O diálogo cede lugar ao ataque. A dúvida vira ameaça. O pensamento crítico é desacreditado. A polarização paralisa o debate, sabota o consenso e justifica o autoritarismo. Cidadãos viram inimigos, jornalistas são tachados de mentirosos, professores passam a ser tratados como doutrinadores. Aos poucos, o que deveria ser um governo do povo se converte em uma guerra contra o próprio povo.
É nesse ambiente já envenenado que certas lideranças prosperam. Elas se alimentam do medo como quem respira. Usam o discurso da ordem e da moralidade para justificar a intolerância, suprimir direitos e ampliar o controle. Alegam proteger os valores da família, enquanto incentivam a divisão entre as pessoas. Perseguem artistas, educadores e cientistas — como se o conhecimento fosse perigoso. E, de fato, é: o conhecimento liberta. Por isso, assusta quem prefere manter o rebanho dentro do curral. Instalam vigilância em nome da segurança, demonizam o contraditório e apresentam medidas autoritárias como se fossem soluções para proteger a população. Tudo isso enquanto o medo transforma o diferente em inimigo e o debate em ameaça.

O mais curioso é que esse medo raramente nasce de grandes catástrofes. Surge de migalhas cotidianas: uma manchete alarmista aqui, um vídeo distorcido ali, um boato sussurrado como se fosse verdade absoluta. O medo é sutil. Ele não grita — sussurra no ouvido certo.
E a gente, assustada, aceita. Engole. Às vezes, até aplaude. Afinal, quem não quer segurança?
Mas segurança… a que custo? Quando o medo começa a definir o que é certo ou errado, quando dita quem pode falar e quem deve se calar, estamos diante de um problema maior do que qualquer inimigo imaginado. Porque o medo passa — mas os estragos que ele deixa permanecem por muito tempo.
No fim das contas, a pergunta que fica é: vamos continuar sendo governados pelo medo… ou vamos começar a governar os próprios pensamentos?
Porque, se o medo é uma prisão invisível, a reflexão é a chave que abre a porta.






