O BRASIL PODE MAIS?

Em 1980, o Brasil era a sexta economia do mundo, enquanto a China era a décima.

Esse ano marcou o início de uma crise socioeconômica no Brasil e uma mudança estratégica na economia da China, que talvez tenha como principal marco a criação de sua primeira Zona Econômica Especial (ZEE), em Shenzhen, parte de um cuidadoso processo de abertura para o mundo.

Nos anos seguintes, várias crises econômicas assolaram o Brasil, até que, em 1994, com o advento do Plano Real, o país passou a viver um relativo clima de estabilidade, com a inflação controlada, mas com o PIB variando irregularmente de um crescimento de 7,5% em 2010 para uma queda de 3,5% em 2015, 3,3% em 2016 e 4,1% em 2020, época da pandemia da Covid-19. Em 2024, o PIB brasileiro evoluiu 3,4%, com o Brasil retrocedendo à décima posição na economia mundial.

A China, em 2000, vinte anos após a adoção da nova estratégia de desenvolvimento econômico, ocupava a segunda posição na economia mundial. O Brasil era a nona. Em 2010, a China manteve sua posição, mas bem mais próxima da liderança dos EUA. O Brasil flutuou para a sétima posição.

Em 2022, a China evoluiu ainda mais, mantendo taxas de crescimento do PIB na faixa de dois dígitos. O Brasil ocupava a nona posição, com uma economia baseada fundamentalmente no agronegócio, criticado externamente pela competitividade de sua produção e, internamente, por ambientalistas e radicais ideológicos.

Resultado das mudanças econômicas implantadas a partir de 1980, a China já se posicionava como principal exportador de produtos industrializados e de alta tecnologia, além de maior produtor de patentes. Parte dessa estratégia envolveu a proposta de criação da “Nova Rota da Seda”, em 2013, que envolve projetos de infraestrutura e cooperação econômica na Ásia, Europa, África e América do Sul, ampliando a influência da China na geopolítica mundial, competindo de forma desigual com outras potências ocidentais de países democráticos.

As informações a seguir podem ser interpretadas de múltiplas formas, mas refletem o resultado de uma estratégia de desenvolvimento bem-sucedida, mas com sequelas que precisam ser equacionadas e solucionadas.

As emissões de CO₂ da China estão entre as mais altas do mundo. O uso de bicicletas, imagem tradicional das ruas chinesas até a década de 1970, foi substituído pelo de carros, com o país se transformando num dos maiores produtores de veículos. Além disso, é comum ver concessionárias de veículos de alto luxo nas principais cidades chinesas.

A China se tornou um dos principais consumidores de energia elétrica do mundo. Um detalhe interessante é o aproveitamento de resíduos para a produção de energia. Algumas fontes citam que a China importa resíduos para abastecer suas usinas geradoras, com reflexos positivos para a redução da demanda por aterros sanitários.

No Brasil, esse tipo de produção ainda encontra resistência por parte de alguns setores, o mesmo valendo para a implantação de novas usinas hidrelétricas.

A taxa de pobreza da China era próxima de 90% da população, em 1978. Em 2020, o governo chinês alegou que havia erradicado a pobreza extrema do país, com cerca de 900 milhões de pessoas saindo dessa condição.

O direito à propriedade voltou a existir, sendo que os jovens chineses teriam duas vezes mais chances de adquirir um imóvel do que os dos EUA.

Quem diria…

Os dados informados pelo regime de governo chinês são rigidamente controlados, o que gera dúvidas sobre sua fidedignidade. No entanto, o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico da China é inegável.

Outra parte importante desse processo foi o abandono da “Revolução Cultural” maoista em nome da aquisição de conhecimento universal. Foi assim que a China passou a enviar estudantes universitários para as principais instituições acadêmicas do mundo na área tecnológica.

Em outros tempos e ainda em alguns países governados por ditaduras, essa liberdade autorizada seria motivo de deserções, evitadas pelo patrulhamento ou ameaças às famílias dos bolsistas. Porém, na China atual, mesmo que nem todos retornem, os que voltarem terão condições físicas e financeiras para desenvolverem seus potenciais.

A evolução científica e tecnológica da China é notória! Enquanto movimentos ocidentais questionam os valores de sua civilização, os chineses os assumem, com amplos benefícios para seu povo e país. Enquanto o vitimismo engajado prolifera por aqui, o pragmatismo chinês nada de braçada mundo afora, inclusive em países ocidentais que estão progressivamente perdendo suas identidades, num processo de decadência que tem aberto espaço para radicalismos de esquerda e de direita.

O status atual da China é de extrema complexidade geopolítica. Ao contrário da Rússia e dos EUA, o governo chinês não tem atuado diretamente em conflitos armados ou intervenções diretas em países considerados como dentro de sua esfera de influência. A única exceção, em tese, é quanto a Taiwan, considerada província desgarrada. Em outra escala, e por razões históricas, Japão e Coreia do Sul também estão no “radar” da China, sobretudo por conta da presença de bases militares dos EUA em seus territórios. Ao que consta, a mais recente intervenção militar da China foi a invasão do Tibete, em 1950, e sua anexação, em 1951, se bem que teve atuação decisiva nos conflitos do Sudeste Asiático, apoiando revoluções comunistas.

Ouvi um comentário de um especialista sobre a intervenção dos EUA na Venezuela, ponderando que ela, de certa forma, seria um aval para a Rússia manter suas pretensões na Ucrânia e para a China em relação a Taiwan.

Isso me fez lembrar a Conferência de Yalta, curiosamente cidade localizada na Crimeia, em fevereiro de 1945, na qual os líderes aliados dos EUA, URSS e Reino Unido definiram a divisão de suas esferas de influência no mundo.

Estaríamos diante de um novo acordo de divisão de áreas de influência entre Rússia, China e EUA?

Com o início da Guerra Fria, esses domínios neocolonialistas não foram respeitados, pois as infiltrações ideológicas e revoluções, sobretudo em colônias europeias e países subdesenvolvidos, passaram a ser mercado para interesses das potências do pós-Segunda Guerra Mundial.

Com a criação do Conselho de Segurança da ONU, incluindo a França e a China, esse cenário pouco mudou, a não ser pela ascensão meteórica dos chineses, econômica, diplomática e militarmente, desde 1980.

Em resumo, a China se resolveu internamente para se expandir externamente. Seu modelo de regime, consolidado a partir de 1949, transformou um país de tradição milenar, mas extremamente pobre e desigual, numa potência mundial baseada numa economia forte e num temível poder dissuasor, que é cada vez mais ofensivo.

Não é um modelo a ser copiado integralmente pela forma como se consolidou, fundamentado pela doutrinação e patrulhamento ideológico. Seu atual líder, Xi Jinping, foi forjado nesse modelo, tendo sido um dos milhões de jovens que foram enviados ao campo para serem “reeducados” por serem de famílias de intelectuais e de políticos do Partido Comunista que passaram a ser perseguidos durante a Revolução Cultural Chinesa promovida por Mao Tsé-Tung,

A China, durante vários séculos, foi influenciada e até ocupada por potências da vez, mas, afora Taiwan, não parece ter interesse em expandir seu território pela força. O tem feito pela diplomacia e pelo poder econômico.

A presença de chineses em todo o mundo, principalmente nas décadas mais recentes, faz crer que não se trata de uma diáspora, mas de uma forma planejada de assegurar mercados para distribuição de seus produtos.

Porém, um sinal de alerta foi aceso pelo governo chinês, em função da redução da evolução de sua economia. As medidas econômicas e estratégicas adotadas pelos EUA fazem parte dessa preocupação.

O que o governo chinês propõe para enfrentar esse risco de crise inclui medidas internas e externas que demonstram como a China mudou nessas últimas décadas, substituindo a igualdade artificial imposta pelo mérito fomentado.

O processo de industrialização será ainda mais incrementado, cada vez mais associado à produção científica e tecnológica pela academia, visando aumentar as exportações e o consumo interno.

Para tanto, aquele país que promoveu a “política do filho único” por 35 anos, além de ser acusado por realizar política de esterilização de minorias étnicas, agora cria incentivos para que famílias tenham mais filhos, sobretaxando o uso de preservativos.

A história demonstra que não há um modelo de governo ou ideologia ideal, até porque tudo depende de quem e como eles são implantados. Mesmo aqueles que pregam igualdade e liberdade na fase de cooptação e doutrinação sempre têm seus líderes insofismáveis, “mais iguais do que os outros”, que criam estruturas de poder baseadas em violência física e psicológica para mantê-lo. E sempre haverá quem tentará derrubá-los, interna ou externamente.

Aliás, muitos dos que defendem regimes autoritários como o chinês jamais aceitariam as condições de vida neles existentes. Só os citam como exemplos para reforçar seus discursos sobre o que consideram seu “mundo ideal”, a ser imposto indiscriminadamente, sem oposição.

A China seria um desses modelos?

Em muitos sentidos, não!

Porém, no âmbito da estratégia de desenvolvimento econômico proposta no final da década de 1970, implementada a partir de 1980 com a ZEE de Shenzhen – hoje são milhares! – a China provou que é possível sair do subdesenvolvimento e da dependência de terceiros para a condição de potência mundial num curto espaço de tempo.

A Índia e a Turquia, que têm histórias semelhantes, seguem um caminho similar, apesar de todos os problemas internos, religiosos e diplomáticos que enfrentam.

Enquanto isso, as potências ocidentais vivem problemas econômicos e dilemas existenciais, enquanto países emergentes, principalmente ex-colônias, ainda vivem disputas internas, financiadas ou ideologicamente influenciadas por interesses externos.

O Brasil poderia seguir o exemplo da China no âmbito do planejamento estratégico visando o desenvolvimento econômico?

Creio que sim!

Isso não implica adotar o mesmo regime de governo ou se subordinar à China, aos EUA, à Europa ou à Rússia, o que só traria ou manteria conflitos externos para o cotidiano, dividindo radicalmente em vez de agregar racionalmente.

Basta que o interesse genuíno pelo desenvolvimento do país e de seu povo supere interesses político-partidários, ideológicos e corporativos!

Temos outro bom exemplo a avaliar: a Coreia do Sul.

Invadida e anexada pelo Japão em 2010, permanecendo nessa condição até 1945, e fragmentada pelo expansionismo comunista na Ásia, na década de 1950, até a década de 1970, esse país asiático tinha economia inexpressiva, numa região de alta instabilidade. Foi nessa época que seu governo entendeu que era preciso se desenvolver economicamente e, para tanto, precisava investir em boa educação. Adotou o modelo brasileiro de então para tanto.

A partir de 1980, a Coreia do Sul, país que ocupa o 107.º lugar em extensão territorial, 28.º em população e 26.º em densidade populacional, passou a integrar a lista das 14 maiores economias do mundo, referência em desenvolvimento tecnológico, produção industrial e competitividade em exportações.

Um regime totalitário e uma democracia que tomaram decisões estratégicas semelhantes, na mesma época, e obtiveram e mantêm bons resultados.

O Brasil tem potencial para se tornar uma potência mundial, mas precisa parar de importar ideologias e modismos e passar a investir em educação, produção científica, tecnologia e mérito. Precisa de líderes que agreguem, em vez de dividir para governar. Precisa se livrar de empoderamentos que enfraquecem, de liberdades que escravizam, de vitimismos estruturais, de propósitos hegemônicos, de gente que vive de problemas e não de soluções, da apologia da ignorância, de discursos de ódio e intolerância, de justiça seletiva, de quem cria dificuldades para vender facilidades, de corruptos, de quem faz apologia ao crime, enfim, de tudo o que tolhe a liberdade de pensar, a empatia, o bom senso no agir e o congraçamento entre brasileiros de todas as origens, credos e etnias.

É preciso fomentar e reter inteligências e incentivar a produção e inovação, em vez do comodismo que resulta do assistencialismo como política de governo. É importante ter respeito ao próximo e ao país.

Para que o Brasil alcance esse status, ele e seu povo precisam querer mais, o que envolve educação de qualidade, fomento ao desenvolvimento pessoal e incremento da economia, criando empregos, reduzindo a criminalidade, incentivando o empreendedorismo e aumentando a arrecadação pela pujança das atividades desenvolvidas. Esse processo exige que disputas político-partidárias e ideológicas, que ora derivam à esquerda ou à direita, sejam abandonadas para que o Brasil possa seguir em frente.

Não será fácil, tantos são os entraves ao desenvolvimento sustentado do país, tantas são as cobranças para que o Estado compense a falta de trabalho que interesses de poucos provoca, poucos que esquecem que os recursos que exigem vêm da economia e não de discursos políticos ou ideológicos.

Enfim, é necessária uma mudança radical de forma de pensar o país e seu povo, o que exige inteligência e sabedoria para superar radicalismos e interesses pouco republicanos.

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador e membro da Academia Santista de Letras

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