QUANDO O CAMINHO NÃO ESPERA

O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…

João Guimarães Rosa

Por Margarete Hülsendeger

No Brasil, a fé nunca foi uniforme. Aqui, religião é mistura, herança, resistência e também reinvenção. Por isso, não é raro que a devoção a um santo católico conviva com o toque do atabaque e a reverência a um orixá africano. Somos um país em que São Jorge é Ogum; onde a cruz e a espada, às vezes, dividem o mesmo altar. E mesmo quem nunca entrou num terreiro talvez já tenha repetido, sem saber, um pedido ao orixá guerreiro, ao clamar por coragem, por justiça rápida, por um caminho que se abrisse diante do medo.

Ogum, na tradição das religiões afro-brasileiras como o Candomblé e a Umbanda, não é um deus à moda ocidental, com trono e sentença. É uma força ancestral, viva, que rege os caminhos, as ferramentas, a tecnologia e a guerra. Não qualquer guerra, mas aquelas que valem a pena. É o orixá do ferro, do movimento, da decisão que não se adia. Atua quando já se rezou demais, quando o tempo da espera terminou e só resta o ato. Diferente de Xangô, orixá que pondera antes de agir, Ogum simplesmente age. Corta o que impede, rasga o mato da indecisão, passa mesmo quando o caminho não está pronto.

Começar 2026 sob sua regência é aceitar que o tempo da hesitação ficou para trás. Não se trata de pressa — Ogum não se apressa —, mas de urgência: essa qualidade rara que separa o necessário do supérfluo. Ele exige movimento com propósito, postura diante do medo, escolha diante da confusão. E, num país que tantas vezes se contenta com o improviso, com a promessa, com o famoso “depois a gente vê”, Ogum chega como uma espécie de ruptura: ele não quer ver, ele quer fazer. E espera o mesmo de nós.

É comum associá-lo à guerra no sentido mais literal — com armadura, espada e confronto direto. Mas, para além dos campos de batalha visíveis, Ogum também atua nas lutas íntimas, silenciosas e, muitas vezes, mais difíceis. Nas guerras que travamos dentro de nós: contra o medo de falhar, contra a paralisia das decisões não tomadas, contra as versões antigas de nós mesmos que insistem em permanecer. Ele é o impulso que nos faz dizer o que evitávamos, romper com o que já não serve, seguir mesmo sem garantias. E isso, convenhamos, exige mais coragem do que muitas guerras externas.

Vivemos, ainda, num país onde muita coisa é deixada para depois. Esperamos o salário cair, a chuva passar, o político melhorar, o Pix entrar. Nessa rotina de adiamentos, Ogum se impõe como uma figura desconcertante. Sua presença é um olhar direto, uma pergunta sem rodeios: vai continuar esperando ou vai abrir caminho?

É desconfortável, sim, porque nos obriga a abandonar a zona de conforto das intenções não cumpridas, dos planos eternamente adiados. Não há simpatia de Ano-Novo que funcione se não vier acompanhada de ação. E é por isso que, em 2026, acender vela para Ogum pode ser um gesto bonito, desde que venha junto da disposição de calçar os sapatos e começar a andar.

Ogum também é o orixá da tecnologia, das invenções, do uso inteligente das ferramentas. Se o ferro virou máquina, satélite, algoritmo, foi com o consentimento dele. Mas, ao contrário do que se imagina, ele não abençoa a distração, abençoa o uso. Suas ferramentas não são muletas, mas instrumentos para seguir adiante. Ele não favorece a inércia disfarçada de conexão, não alimenta o tempo perdido em rolagens infinitas. Seu axé é movimento real.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

E, para quem ainda vê Ogum como uma figura distante, basta lembrar de São Jorge — montado no cavalo branco, espada em punho, enfrentando o dragão. Ambos representam a coragem em ação, a luta justa, a superação de obstáculos, internos ou externos. No fundo, anunciam o mesmo princípio: ninguém vence sem atravessar o medo, sem enfrentar seus monstros, sem sair do lugar.

Por isso, em 2026, não basta pedir— é preciso agir. Se o caminho estiver fechado, talvez seja necessário bater em outra porta. Ou largar o excesso que se carrega. Ogum ajuda, sim, mas depois do primeiro passo. Ele caminha com quem se levanta, não com quem se deita esperando que o mundo mude sozinho.

Antes de postar frases de superação ou repetir mantras em voz alta, talvez seja o caso de se perguntar, com sinceridade: será que Ogum vai mesmo abrir esse caminho ou será que ele já passou, e fui eu que fiquei para trás, distraído com o feed?

O ano começou. E Ogum, como sempre, não espera.

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