O VERÃO DOS OUTROS

Não foi só a maldade e a intriga que fez as pessoas infelizes, foi também a confusão e o mal-entendido. Acima de tudo, foi a falha em entender a verdade simples de que outras pessoas são tão reais quanto você.

Ian McEwan

Por Margarete Hülsendeger

Há algo curioso no verão: ele parece sempre pertencer aos outros. Enquanto alguns tentam lidar com o calor, a rotina e os pequenos desconfortos da estação, as redes sociais anunciam uma temporada paralela, feita de águas cristalinas, corpos bronzeados, legendas otimistas e promessas de uma felicidade constante, sempre em alta definição.

A cada deslizar de dedo, surgem destinos paradisíacos, refeições equilibradas ao ar livre, sorrisos espontâneos diante do pôr do sol. O verão digital é organizado, fotogênico, cheio de gente iluminada por filtros e endorfinas. Viver, nesse cenário, parece ser sinônimo de exibir. E se não se mostra, existe?

Curiosamente, muitas vezes o que se publica vem antes do que se vive ou substitui o que deveria ter sido vivido. A foto acontece antes do mergulho; o vídeo, antes do afeto; a legenda, antes da escuta. A necessidade de registrar é tanta que a própria experiência se transforma em ensaio. E, nessa busca por mostrar-se bem, muitos acabam esquecendo de estar, de fato, bem.

A estação mais quente do ano, que por natureza convida à leveza, ao descanso e ao descompromisso, tornou-se também um período de disputa simbólica: quem parece mais feliz? Quem tem o verão mais digno de ser visto? E, no silêncio que fica entre um post e outro, muita gente começa a se perguntar — nem sempre em voz alta — se está vivendo o suficiente, se está aproveitando como deveria, se está sendo “menos” do que os outros.

Mas menos em quê, exatamente?

Talvez no que não se pode medir. No que não vira imagem. No que acontece sem plateia. No suor de quem continua trabalhando enquanto os feeds esbanjam férias; no tédio dos dias em que nada acontece; no incômodo da comparação involuntária com quem parece ter vencido na vida apenas por estar sob o sol certo. O verão real também é feito dessas frestas — mas elas não costumam render curtidas.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

E fora das telas, fora da moldura das fotos perfeitamente compostas, a realidade segue em estado de vigília. Campanhas eleitorais se acirram com uma intensidade que aquece não só as redes, mas também os ânimos e as ruas. Manchetes falam de tensões internacionais, de conflitos armados que se aproximam — geográfica e moralmente — de nós. O humor instável de líderes como Trump, os receios de novas guerras, os desequilíbrios do planeta: tudo isso continua existindo enquanto se digita uma legenda de praia ou se escolhe o melhor ângulo para um story.

É como se estivéssemos todos equilibrando duas realidades: uma que se constrói para os outros verem, e outra que simplesmente acontece, com ou sem a nossa permissão. Talvez o desafio esteja justamente em não se deixar engolir por nenhuma delas. Em viver o verão que se tem, sem culpa, mas com consciência. Em saber que há beleza no que é simples, e verdade no que não se mostra.

Há uma dignidade discreta em não participar da exibição. Em tomar um café sem foto, guardar para si uma conversa boa, permitir que o dia seja vivido sem legenda. Há uma liberdade em não ter nada a mostrar. Talvez aí esteja o verão mais verdadeiro: aquele que não precisa ser provado.

Porque, no fim das contas, o que fica mesmo não é a imagem que circula, mas a lembrança que permanece. E ela, quase sempre, é feita do que ninguém viu.

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