RETALHOS DE ALMA OU A CARA DA FOME A GENTE ENXERGA BEM É NOS OLHOS TRISTES DE MÃE

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]

Por Zeh Gustavo

Rio de Janeiro, 1986. Criança, 7 anos, explica à mãe de pouco estudo que uma notinha de 1.000 cruzeiros novos virava, então, 1 cruzado. Moeda perdia 3 zeros, trocava de nome e – bum! – ia-se a inflação! Sarney, filhote da ditadura, patriarca da miséria maranhense, porteiro da transição democrática por cima, congelava os preços de tudo e convocava a população para fiscalizá-los, mercado a mercado. E dá pra confiar no governo? – mãe ralhava, na (des)confiança de que nada mudaria num tempo que inflação era solução pra enricado fazer graninha fácil – a sua especialidade, aliás. Mas tudo sempre pode mudar, mormente para pior, no Brasil dos rentistas e herdeiros nem aí pra hora da fome.

Se explicava o corte de zeros, uma palavra o menino não conhecia: desabastecimento, o fenômeno que se abateu com a retenção artificial dos preços (bolha que estourou feia no pós-Plano Cruzado). Uns tantos bens de consumo diário deixaram de ser produzidos porque sua feitura não mais interessava (ao grande) ou compensava (para o pequeno produtor). Filas por toda sorte de produtos – sobretudo carne – se formavam. Reforçava o desabastecimento a sanha egoísta dos que se garantiam em estoques. A certos afortunados, nunca falta nada – salvo o discernimento mais basicão!

Ao nível do detalhe: a carne. Carne que eu conheci de infância foi sempre: bife. Bife daquela chã, brilhosa e fina, esticada no martelo até se esparramar o suficiente para enganar maior quantidade, que desse para dois. Ou um e meio. Ou mesmo um ou meio: eu. Éramos apenas dois, mãe e eu. Três, quando vovó pintava na área. Pai só houve algum, bem pouquinho, depois do advento do exame de DNA, idos de 1994. Digo houve, mas traduza-se o informe por pagamento de pensão alimentícia. Volvemos à carne: a dita frequentava pouco nossa quitinete. Mesmo os bifinhos da chã. Tinha: feijão com arroz, aipim frito, farinha de mandioca. A base, a que se acrescia, rotina incerta, um ou outro legume, verdura; um franguinho se a venda de porta em porta ou a datilografia de mamãe dava boa. Ah, e tinha o ovo!

O ovo merece um aparte pois havia uma linguagem do ovo, cunhada matreira por mãe e vó. Porque às vezes faltava tudo ou quase, do que antes listei; ou o havia só para mim – pro menino. E assim era invocada uma personagem de cuja realidade nunca logrei aferir veracidade exata: Célia Mara. Célia Mara fora uma figura da vida de mãe criança e vó viradora (que, entre conhaques, vendia de calçolas a terrenos na Lua, pra sustento da prole – vovó teve cinco filhos, contado um natimorto). Suposto que Célia Mara, nesse tal tempo, ia lá, casa delas, filar ovinho frito. Daí, doravante, o código: uma falava para a outra, nas situações de calo apertar – Célia Mara vai baixar aqui, você vem? Ou mesmo: Célia Mara vai atacar com tudo!, que jamais entendi se queria dizer que tinha muito ou pouco ovo – talvez linguagem do ovo não fosse mesmo urdida pra menino entender, nem mesmo velhudo.

O cenário que ora relato não é propriamente de fome como a apreende quem a vive(u) mais no duro. Eu enjoava da farinha, do feijão tantas vezes banhado só no sal, sem o alho de que mãe gostava temperá-lo? Se enjoava! Pedia, mudo, outro prato? Mudíssimo! Cabreiro, confuso, chamo a pequena fome dessa infância minha de: espectro. Mas quiçá haja um pouco mais nesse embrulho. Alembro com aflição de falas comuns de mãe como: Hoje tô enjoada; Tô sem fome; Come, vou comer mais tarde; Tô com pressa, depois eu como; Vou esperar você terminar; Preciso adiantar algumas coisinhas aqui na cozinha; Trabalho de casa tira a fome; Depois Célia Mara frita um ovinho. Ou, irritadiça: Come logo! Não quero! Essa aflição morou tempo demais conosco. Só se mudou o menino já tornado adulto.

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Cuiabá, 2022. Promoção no açougue: carne moída de retalhos, carcaça, picadão suíno. E a grande estrela do momento: ossos – chamados carinhosamente de ossinhos. Perambulo, sob céu de mil sóis, no Centro-Oeste do agrobusiness exportador, após para cá transportado por motivo de (pouco) trabalho de companheira que acompanhei, a vivenciar capítulo estético-existencial da historieta de um Brasil que torna ao tempo do tônus inflacionário, disposto a retomar seu quinhão no mapa da fome.

No rescaldo incerto da pandemia desgerida por um negacionismo sanguinário, vamos, aos tropeções, os que pudemos não tombar, na ponta de cá dos meninos que cresceram e lograram escapar à fome, cujas histórias são pouco contadas. Volta e meia uma foto diz mais, como as que envolvem disputas por sobras – que ninguém, mas ninguém, deveria almejar. Histórias de fome doem, cerzidas num estômago próprio (de menino); ou de ente amado (mãe). A fome, mesmo se não resvala para a desnutrição, é um oco que preenche tudo. Sociedade que aceita a fome é sociedade assombrada pelo oco de si. Ressinto a fome que só vi de soslaio. Mas a gente morre de fome mesmo se não a concretizou em si, no vácuo que ela (não) preenche; e traga o luto que ela deixa, via culpa de menino, que comeu; de adulto, que come.

Ao vislumbre do anúncio nada auspicioso do açougue, o seu sentido logo se deturpa e perturba em mim. Parece que leio: alma (e não carne!), moída de retalhos. Alma da fome, do luto – da culpa! Permanecemos morrendo de fome – ô gerúndio banalizado, esse! Porque agimos pouco para exorcizar o fantasma. De 1986 para cá, idas e vindas, urgiu-se uma tentativa de reparar essa injustiça que nos corrói por dentro, mesmo se a fome jaz no entorno. E o poder instituído ultimamente via servidão de milícias e grupos de fanáticos ao deus Mercado busca, com brutalidade, estacar esse processo de reparação. A fome gosta de dejetos de gente assim para obrar não mais na sombra, mas direto do palácio central dos abusadores de plantão. Assim ela atua mais eficaz: cerca, mata, marca.

O espectro da fome que, suposto, factualmente não a senti, contudo, me acompanha, fiel, aonde e do jeito que eu me vou. Era um estado de desabrigo coberto de lona furada, de estômago que se alimentou enquanto a alma se esvaziava a cada olhar de mãe disfarçando a fome presente ou pressentida vindoura. Dá marejar de vistas se me vêm à memória os diversos olhos tristes de mãe quando os desviava de mim, como a pedir desculpas por me dar tão pouco; ou por deixar de comer; ou por comer de menos. Foram tantas, e tantas, e tantas, doídas, vezes, que vi disso. E ainda vejo. E sinto.

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P.S.: Brasília, 2025 (28 de julho). Bate o fio. (As pessoas ainda falam sobre coisas importantes por telefones. Coisas importantes, apenas. Que na internet alguns desmentirão). De um lado, o presidente da república. Do outro, o líder da FAO/ONU. O segundo comunica ao primeiro: o país saiu do mapa da fome.

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P.P.S.: Rio de Janeiro, 2026. Minha mãe se foi vai completar 13 anos. Deixou de herança um chão aberto para eu pisar sem cair. Aprendi a enganar a gravidade; e tem vez que voo. Raso, mas voo. Curto, e sempre volto. Eu moro onde mora a raiz do chão, diria Vanzola do Butantã. Mãe era, assim, sempre muito magra, na fotografia da minha infância. E seus olhos de vergonha e assombro, miro-os ainda por aí; e eles me torcem, por dentro, ao contemplar os lixos revirados da minha Pequena Havana do Centro – bairro a que os mais velhos chamavam, antigamente: Cidade (Filha, você vai na Cidade hoje?!, vó perguntava pra mãe, quando em quando).

Que nos errem os perversos. Que não errem (tanto) os incautos. Que não voltem aos avisos diários do açougue os anúncios de ossos, conquanto eles nos sirvam para fazer o caldo da moda, que dizem emagrecer, tipo canetinha cara que dá enjoo. Choro bem dentro em mim, calado, ao perscrutar nossa falta mais funda, por qualquer e todo ângulo que para ela se olhe: a fome – o triunfo-mor do nosso esvaziamento da alma, moída, em retalhos.

Zeh Gustavo
Zeh Gustavo, carioca, filósofo do cotidiano foucaltiano é sambista de rua, compositor, escritor, revisor. Publicou, entre outros, os livros Uma vírgula no findomundo, Contrarresiliente e Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes (vencedor do Prêmio Lima Barreto, da Academia Carioca de Letras) e co-organizou, com Rafael Maieiro, a coletânea poética “Jumento com Faixa: deboches e antiodes ao fascismo“, do qual Zeh é também um dos autores. Na cantoria, fez parte, como cantador, de grupos como o Terreiro de Breque, Cordão do Prata Preta, Samba da Saúde e Banda da Conceição e hoje atua solo como intérprete em Cuidado, Zehzeira!, seu primeiro álbum, de que fazem parte a autoral “Mignon com queijo magro” e a regravação de “Beto bom de bola”, de Sérgio Ricardo. Em 2021, fez a produção fonográfica e cantou em duas faixas do álbum musical “Raiz e folha: o cancioneiro de Zeh Gustavo”, gravado pela cantora baiana Kell Santos inteiramente com composições de Zeh.

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