ESPELHO

Toda manhã há quem se deite para dormir, em vez de acordar.
Não é por ter trabalhado em turno, por ter estudado a noite toda para uma prova, por haver participado de uma ação emergencial, de salvamento, ou velado por um ente querido em um leito hospitalar.
Para alguns, como na música de Caetano, é difícil amanhecer, ou, como na canção de Vange Leonel, preferem a noite preta.
Mas falo dos que levam uma vida vã, meio hedonista, meio alienante e, não raro, muito autodestrutiva, espécie de fuga de problemas que não conseguem resolver, daqueles que os mais fracos de espírito usam drogas e vertigem como rota de fuga de si mesmos.
Esse modo de vida, ou não-vida, é uma forma de esquecerem o todo, para serem o que sobrar. Considerando seu comportamento zumbi, parece que sobra muito pouco, pois eles têm dificuldade de recordar seus atos, mesmo que sempre façam a mesma coisa.
Como alternativa à noite preta, buscam o fascínio das luzes a piscar, que, muito longe de serem faróis que indicam caminhos seguros ou alertas sobre riscos iminentes e conhecidos, mal deixam enxergar pelo seu falso brilho. E se deixam entorpecer por sons que sequer deixam pensar.
Deixar-se cegar, ensurdecer e entorpecer como meio de fuga da realidade. Que grande projeto de vida!
Quem sabe, antes de saírem para nova imersão nesse vazio existencial, talvez o espelho lhes pergunte quem de fato são, como seres humanos.
A resposta pode ser um “não sei juramentado”, confirmando o desconhecimento ou abandono da própria identidade, ou uma negação do espelho real, acreditando que seu espelho é quem lhe aceita em seus desatinos e devaneios deletérios. Preferem se espelhar em outrem.
Isso inclui o desejo de pertencer a “tribos” da moda, ser “popular” entre rebeldes sem causa, desafiar limites e convenções para ser notado, tentar fantasiar a si próprio, ser quem não é ou seguir ídolos que destruíram suas vidas da mesma forma.
Há quem se dane, se mutile e até negue a própria natureza de forma irreversível nesse insano intento, muitas vezes cooptado ou seduzido por quem se diz amigo, ou por um “influenciador” oportunista, tornando-se um seguidor/consumidor de tudo o que lhe é apresentado, sem ter a mínima noção das consequências, perdidos, ignorando o mal que se autoimpõem e aos que estão ao seu redor.
A juventude sempre foi o alvo preferencial de quem vive de explorar a ingenuidade e fragilidade de quem ainda procura se encontrar. Tudo isso em nome de ideais revolucionários, modismos importados, busca de adeptos ou disseminação de vícios.
Sempre é possível “sair dessa”, mas é melhor sequer entrar.
Nesse sentido, a família diligente continuará a ser a principal força, embora tantos, inclusive ignóbeis portadores de PhD em imbecilidade, tentem destruí-la, para impor suas ideologias retrógradas.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






