TERTÚLIA LITERÁRIA DIALÓGICA: O QUE É E COMO FAZER?
TERTÚLIA LITERÁRIA DIALÓGICA: O QUE É E COMO FAZER?
Mario Marcos Lopes
Doutorando no Programa de Pós-graduação em Educação pela UFSCar; Docente do Centro Universitário Barão de Mauá, Faculdade de Educação São Luís; Professor da Rede Municipal de Ensino de Ribeirão Preto (SP).
Resumo
Este estudo apresenta os fundamentos teóricos e metodológicos da Tertúlia Literária Dialógica, explicando o que caracteriza essa prática e como implementá-la em diferentes contextos educacionais. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, desenvolvida por meio de revisão narrativa da literatura e análise documental. Os resultados evidenciam que a metodologia, fundamentada na Aprendizagem Dialógica, promove a formação leitora, a oralidade, a argumentação e a participação democrática por meio da leitura compartilhada de obras literárias e do diálogo igualitário. Conclui-se que a Tertúlia Literária Dialógica constitui uma prática pedagógica acessível, consistente e aplicável em diferentes etapas e modalidades de ensino.
Palavras-chave: Tertúlia Literária Dialógica; Aprendizagem Dialógica; Formação leitora.
Abstract
This study presents the theoretical and methodological foundations of the Dialogic Literary Gathering, explaining its defining characteristics and how it can be implemented in different educational contexts. It is a qualitative, exploratory, and descriptive study based on a narrative literature review and documentary analysis. The findings show that the methodology, grounded in Dialogic Learning, promotes reading development, oral communication, argumentation, and democratic participation through the shared reading of literary works and egalitarian dialogue. It is concluded that the Dialogic Literary Gathering is an accessible, well-founded pedagogical practice that can be successfully applied across different educational levels and teaching modalities.
Keywords: Dialogic Literary Gathering. Dialogic Learning. Reading Education.
1 Introdução
A formação de leitores(as) constitui um dos principais desafios da educação contemporânea. Embora o acesso à escolarização e aos livros tenha se ampliado nas últimas décadas, persistem dificuldades relacionadas à compreensão leitora, à interpretação crítica e à constituição do hábito da leitura, evidenciando a necessidade de práticas pedagógicas que aproximem os(as) estudantes da literatura de forma significativa e participativa. Nesse contexto, diferentes pesquisas têm destacado que a formação do(a) leitor(a) depende da criação de espaços de diálogo, compartilhamento de interpretações e valorização das experiências dos(as) participantes, superando práticas centradas na leitura mecânica e na reprodução de respostas previamente estabelecidas (Flecha, 1997; Mello, 2003; CONFAPEA, 2024).
Entre as metodologias que vêm ganhando destaque destaca-se a Tertúlia Literária Dialógica (TLD), prática fundamentada na Aprendizagem Dialógica e desenvolvida inicialmente pelo Centro Especial de Investigação em Teorias e Práticas Superadoras de Desigualdades (CREA), da Universidade de Barcelona. Baseada na leitura compartilhada de obras clássicas da literatura e no diálogo igualitário entre os(as) participantes, a metodologia compreende que o conhecimento é construído coletivamente por meio da argumentação, da escuta e da valorização da inteligência cultural de todos os envolvidos (Flecha; Gómez; Puigvert, 2001).
Nas últimas duas décadas, a TLD passou a integrar diferentes contextos educacionais brasileiros, sendo objeto de dissertações, teses, artigos científicos e relatos de experiências desenvolvidos na Educação Básica, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), na formação de professores(as), em bibliotecas, instituições prisionais e outros espaços educativos. Os resultados dessas investigações evidenciam contribuições para a formação leitora, o desenvolvimento da oralidade, da argumentação, da convivência democrática e da ampliação do repertório cultural dos(as) participantes (Girotto, 2011; Reis; Girotto, 2020; Gontijo, 2020; Almeida; Lima; Fernandes, 2025).
Apesar da crescente produção científica sobre a temática, observa-se que grande parte dos(as) estudos privilegia os fundamentos teóricos ou a apresentação de experiências específicas, havendo menor número de publicações voltadas à explicação objetiva da metodologia e de sua implementação. Tal lacuna dificulta a apropriação da TLD por professores(as), mediadores(as) de leitura e demais profissionais interessados(as) em desenvolver essa prática em seus contextos de atuação.
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo apresentar os fundamentos da TLD, explicando de forma objetiva o que caracteriza essa metodologia, seus princípios orientadores e como organizá-la em diferentes contextos educacionais. Espera-se oferecer um referencial teórico-metodológico que auxilie professores(as), pesquisadores(as) e mediadores(as) na implementação de práticas de leitura dialógicas fundamentadas nas evidências produzidas pela literatura científica nacional e internacional.
2 Procedimentos metodológicos
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, desenvolvida por meio de revisão narrativa da literatura e análise documental (Minayo, 2014; Gil, 2019). O corpus foi constituído por livros, artigos científicos, dissertações, teses, manuais metodológicos e documentos institucionais publicados entre 1997 e 2025, que abordam os fundamentos da Aprendizagem Dialógica, a TLD e sua implementação em diferentes contextos educacionais. A seleção das obras considerou sua relevância para a compreensão dos aspectos conceituais e metodológicos da TLD. A análise foi realizada de forma interpretativa, organizando os estudos em categorias relacionadas ao conceito, aos princípios e às etapas de implementação da metodologia, buscando sistematizar evidências capazes de subsidiar sua aplicação na prática pedagógica.
3 Resultados e Discussão
3.1 O que é a Tertúlia Literária Dialógica?
A TLD é uma metodologia de leitura compartilhada fundamentada na Aprendizagem Dialógica, cujo objetivo é promover a construção coletiva de conhecimentos por meio do diálogo em torno de obras clássicas da literatura. Desenvolvida na década de 1980 pelo Centro Especial de Investigação em Teorias e Práticas Superadoras de Desigualdades (CREA), da Universidade de Barcelona, a metodologia integrou posteriormente o projeto Comunidades de Aprendizagem e difundiu-se internacionalmente como uma prática de democratização do acesso à literatura e de promoção da aprendizagem inclusiva (Flecha, 1997; Flecha; Gómez; Puigvert, 2001; CONFAPEA, 2024).
Seu princípio central é o diálogo igualitário, segundo o qual todas as pessoas possuem conhecimentos e experiências capazes de contribuir para a construção coletiva dos sentidos do texto. Assim, a validade das interpretações não depende da posição ocupada pelos(as) participantes, mas da consistência dos argumentos apresentados durante a discussão (Flecha, 1997). Essa concepção aproxima-se da pedagogia de Paulo Freire, que compreende a educação como prática dialógica e emancipatória, e da teoria do agir comunicativo de Habermas, que defende a construção dos consensos pela força dos argumentos (Freire, 2005; Habermas, 2012).
Na prática, a TLD organiza-se a partir da leitura prévia de um trecho de uma obra literária. Cada participante escolhe uma passagem que considere significativa e apresenta sua interpretação ao grupo, sempre fundamentando seus argumentos no texto. O(A) mediador(a) organiza a participação e assegura o respeito ao diálogo, sem estabelecer interpretações corretas ou privilegiadas. O objetivo não é avaliar a leitura, mas construir coletivamente diferentes significados a partir das experiências e perspectivas dos(as) participantes (Mello, 2003; Pereira; Andrade, 2014; Cardoso, 2022).
A literatura científica demonstra que a TLD pode ser desenvolvida na Educação Básica, na EJA, no Ensino Superior, na formação docente, em bibliotecas, instituições prisionais, grupos de pessoas idosas e outros espaços educativos. Em todos esses contextos, a metodologia favorece a formação leitora, a oralidade, a argumentação, a escuta ativa e a participação democrática, consolidando-se como uma das principais práticas de mediação literária fundamentadas em evidências científicas (Gontijo, 2020; Nery et al., 2021; Batisteti, 2022; Albuquerque, 2023).
3.2 Quais são os princípios da Tertúlia Literária Dialógica?
A TLD fundamenta-se na Aprendizagem Dialógica, que organiza-se em sete princípios: diálogo igualitário, inteligência cultural, transformação, dimensão instrumental, criação de sentido, solidariedade e igualdade de diferenças, os quais orientam toda a dinâmica da metodologia (Flecha, 1997; Flecha; Gómez; Puigvert, 2001; CONFAPEA, 2024).
O diálogo igualitário constitui o eixo central da TLD, assegurando que todas as interpretações sejam valorizadas pela consistência dos argumentos, e não pela posição social ou acadêmica dos(as) participantes. A inteligência cultural reconhece que cada pessoa constrói conhecimentos ao longo da vida, tornando suas experiências importantes para a compreensão coletiva da obra.
O princípio da transformação compreende a leitura como oportunidade de desenvolvimento pessoal e social, favorecendo o pensamento crítico e a participação cidadã (Freire, 2005). A dimensão instrumental evidencia que o diálogo potencializa aprendizagens relacionadas à leitura, à oralidade, à argumentação e à ampliação do repertório cultural, demonstrando que a interação favorece o desenvolvimento das competências linguísticas (Mello, 2003).
A criação de sentido ocorre quando os(as) leitores relacionam os acontecimentos da obra às próprias experiências, atribuindo significado à leitura. A solidariedade manifesta-se na escuta respeitosa e na construção colaborativa do conhecimento, enquanto a igualdade de diferenças assegura que a diversidade de experiências e perspectivas seja compreendida como elemento enriquecedor das discussões.
Esses princípios permanecem presentes independentemente do contexto de realização da TLD, seja na Educação Básica, na EJA, na formação docente ou em outros espaços educativos. São eles que conferem identidade à metodologia e explicam sua capacidade de promover formação leitora, aprendizagem colaborativa e participação democrática (Cardoso, 2022; Gontijo, 2020).
3.3 Como fazer uma Tertúlia Literária Dialógica?
A implementação da TLD caracteriza-se pela simplicidade organizacional e pelo rigor em relação aos princípios da Aprendizagem Dialógica. Embora possa ser adaptada a diferentes públicos e contextos, sua organização segue procedimentos comuns que asseguram o diálogo igualitário, a participação dos(as) leitores e a construção coletiva de sentidos. As pesquisas realizadas no Brasil e no exterior demonstram que o sucesso da metodologia depende menos da complexidade da organização e mais da fidelidade aos seus fundamentos teóricos (Flecha, 1997; Pereira; Andrade, 2014; Cardoso, 2022; CONFAPEA, 2024).
A primeira etapa consiste na escolha da obra literária. Tradicionalmente, a metodologia privilegia clássicos da literatura universal, nacional ou regional, por compreender que essas obras abordam questões humanas permanentes e possuem reconhecido valor cultural e estético. Entretanto, a seleção deve considerar a faixa etária, o repertório dos(as) participantes e os objetivos da atividade. Obras integrais, adaptações de clássicos e textos literários de qualidade podem ser utilizados, desde que preservem seu potencial para suscitar diferentes interpretações e promover o diálogo entre os leitores (Flecha, 1997; Cardoso, 2022).
Após a definição da obra, organiza-se um cronograma de leitura, estabelecendo previamente os capítulos ou trechos que serão discutidos em cada encontro. A quantidade de páginas deve ser compatível com a idade dos(as) participantes e com a periodicidade das tertúlias, que podem ocorrer semanal ou quinzenalmente. Antes de cada reunião, todos realizam a leitura do trecho definido e escolhem uma passagem que tenha despertado interesse, emoção, curiosidade ou reflexão. Além de marcar o fragmento, cada participante deve preparar uma breve justificativa para explicar os motivos de sua escolha, pois esse será o ponto de partida da discussão coletiva (Mello, 2003; Pereira; Andrade, 2014).
No dia da tertúlia, recomenda-se organizar os(as) participantes em círculo, favorecendo o contato visual e a igualdade nas interações. O(A) mediador(a) inicia o encontro recordando os princípios da atividade e organiza a ordem das falas. Cada participante lê o trecho selecionado, apresenta sua interpretação e explica por que aquela passagem lhe chamou a atenção. Em seguida, os(as) demais podem comentar, concordar, discordar ou ampliar a discussão, sempre fundamentando suas contribuições na leitura da obra e em suas próprias experiências. Não há respostas corretas nem interpretações previamente definidas; a riqueza da tertúlia reside justamente na diversidade de perspectivas produzidas pelo grupo (Teixeira; Ferreira, 2017; CONFAPEA, 2024).
Durante a discussão, o papel do(a) mediador(a) é garantir que todos(as) tenham oportunidade de participar, estimular o diálogo e assegurar o respeito às diferentes opiniões. Sua função não consiste em explicar o texto, corrigir interpretações ou conduzir a discussão para uma resposta esperada. Intervenções excessivamente diretivas comprometem um dos princípios fundamentais da metodologia, que é o diálogo igualitário. Quando necessário, o(a) mediador(a) pode formular perguntas que aprofundem a reflexão ou incentivar participantes menos ativos a compartilharem suas percepções, sem interferir no conteúdo das interpretações apresentadas (Cardoso, 2022; Elias, 2022).
Ao final do encontro, o grupo define o trecho que será lido para a próxima tertúlia, garantindo a continuidade da leitura da obra. Embora a metodologia não exija atividades complementares, o(a) professor(a) pode propor produções textuais, registros reflexivos, ilustrações ou relações interdisciplinares, desde que essas atividades não substituam o diálogo nem descaracterizem a natureza da tertúlia. O foco permanece na leitura compartilhada e na construção coletiva de sentidos, e não na avaliação formal da compreensão textual (Pereira; Andrade, 2014; Gontijo, 2020).
A literatura especializada demonstra que esses procedimentos podem ser adaptados às diferentes etapas e modalidades de ensino. Na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, o(a) professor(a) pode realizar a leitura em voz alta e utilizar obras ilustradas ou adaptações de clássicos, favorecendo a participação das crianças por meio da oralidade. Nos Anos Finais do Ensino Fundamental, no Ensino Médio e na EJA, amplia-se a autonomia dos(as) leitores, que passam a realizar integralmente a leitura prévia, selecionar os trechos e conduzir discussões mais aprofundadas. Em programas de formação docente, bibliotecas, grupos de pessoas idosas e outros espaços educativos, a metodologia mantém a mesma organização, ajustando apenas a complexidade das obras e o tempo destinado aos encontros (Gontijo, 2020; Batisteti, 2022; Cardoso, 2022).
As evidências produzidas pelas pesquisas brasileiras indicam que a qualidade da TLD depende menos dos recursos disponíveis e mais da fidelidade aos seus princípios. A escolha de boas obras literárias, a organização sistemática dos encontros, a preparação prévia da leitura e uma mediação comprometida com o diálogo igualitário constituem os elementos essenciais para que a metodologia alcance seus objetivos. Quando desenvolvida de acordo com esses pressupostos, a TLD transforma a leitura em uma experiência coletiva de aprendizagem, fortalecendo a formação leitora, a oralidade, a argumentação e a participação democrática dos sujeitos em diferentes contextos educacionais.
4 Considerações finais
A TLD consolidou-se como uma metodologia de leitura fundamentada na Aprendizagem Dialógica, cuja principal característica consiste na construção coletiva de sentidos por meio do diálogo igualitário em torno de obras literárias. Ao longo deste estudo, verificou-se que seus fundamentos teóricos e metodológicos conferem consistência a uma prática capaz de democratizar o acesso à literatura e promover aprendizagens significativas em diferentes contextos educacionais.
A revisão da literatura evidenciou que a implementação da TLD depende da observância de princípios como diálogo igualitário, inteligência cultural, solidariedade e igualdade de diferenças, bem como de uma organização metodológica simples, porém rigorosa. A escolha de obras literárias de qualidade, a leitura prévia, a seleção de trechos pelos(as) participantes e a mediação comprometida com a participação de todos(as) constituem elementos essenciais para o êxito da metodologia.
Conclui-se que a TLD ultrapassa a condição de estratégia de incentivo à leitura, configurando-se como uma prática pedagógica que favorece o desenvolvimento da compreensão leitora, da oralidade, da argumentação, da escuta ativa e da convivência democrática. Por sua flexibilidade, pode ser desenvolvida em diferentes etapas e modalidades de ensino, preservando seus princípios e ampliando as possibilidades de formação humana. Espera-se que este artigo contribua para orientar professores(as) e mediadores(as) interessados em implementar a TLD, fortalecendo práticas de leitura fundamentadas no diálogo, na participação e na valorização da literatura como direito de todos.
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