A GEOMETRIA DO SAGRADO E O SINTOMA DA FORMA: ARTE, ESPIRITUALIDADE E FETICHISMO EM AVALOVARA SOB A ÓTICA FREUDIANA

A GEOMETRIA DO SAGRADO E O SINTOMA DA FORMA: ARTE, ESPIRITUALIDADE E FETICHISMO EM AVALOVARA SOB A ÓTICA FREUDIANA

João Gomes Moreira[1]

RESUMO

O presente artigo propõe uma leitura metapsicológica do romance Avalovara (1973), de Osman Lins, investigando como sua rigorosa arquitetura formal — estruturada sobre o quadrado mágico latino e a espiral de um caracol — encena as dinâmicas do aparelho psíquico mapeadas por Sigmund Freud. Analisa-se a correlação entre a criação artística, compreendida como o ápice do processo de sublimação pulsional, e a busca espiritual do protagonista, interpretada à luz dos conceitos de sentimento oceânico e pulsão de morte (Tânatos). Ademais, investiga-se o simbolismo do palíndromo SATOR e do relógio de quartzo enquanto formações substitutivas que oscilam entre o recalque da finitude e o fetiche da precisão. Conclui-se que a dissolução final do protagonista no silêncio do texto opera a transmutação do sintoma clínico em monumento estético imortal.

Palavras-chave: Osman Lins. Avalovara. Sigmund Freud. Sublimação. Fetichismo.

1. INTRODUÇÃO

Publicado em um dos períodos mais densos da experimentação estética no Brasil, Avalovara (1973), de Osman Lins, desafia as convenções da narrativa linear ao submeter o fluxo ficcional a um rigor geométrico inflexível. A sobreposição de um caracol logarítmico sobre o quadrado mágico SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS funciona como a matriz que dita não apenas os passos do protagonista Abel, mas a própria distribuição das letras e dos temas no espaço do livro.

Para além do manifesto virtuosismo técnico, a arquitetura linsiana oferece um terreno fecundo para as investigações da subjetividade sob o viés da metapsicologia de Sigmund Freud. A tese central deste trabalho defende que a forma obsessiva e a busca temática de Avalovara operam em uma zona de fronteira onde a arte e a espiritualidade funcionam como mecanismos de defesa e de transcendência contra a angústia da falta constitutiva e da morte.

A fim de adensar essa leitura, o artigo investigará num primeiro momento como a arte (enquanto sublimação) e a espiritualidade (enquanto sentimento oceânico) articulam-se no texto para domar o caos pulsional. Em seguida, avançará para o exame de dois eixos simbólicos fundamentais da obra — o palíndromo regulador e o relógio de quartzo —, desvelando-os sob a ótica clínica do recalque e do fetichismo.

2. A ALQUIMIA DA FORMA: A ARTE COMO SUBLIMAÇÃO SOBERANA

Na teoria freudiana, a sublimação representa o destino pulsional biologicamente mais bem-sucedido. Diante das interdições impostas pela civilização, o sujeito é concluído a desviar a energia das pulsões sexuais e agressivas de seus alvos originais, canalizando-as para atividades dessexualizadas e socialmente elevadas, das quais a criação artística é o exemplo primordial. Em Avalovara, a arte assume essa função de domesticação e transmutação do magma do inconsciente (Id).

O quadrado mágico latino atua, topologicamente, como um poderoso arranjo defensivo do Ego. A rigidez milimétrica com que Osman Lins cruza os eixos da narrativa funciona como uma tentativa obsessiva de conferir contorno, limite e amarração a uma subjetividade ameaçada pela fragmentação. O sofrimento de Abel, gerado por suas perdas e pela errância existencial, é sequestrado pela forma literária: a dor bruta deixa de ser um sintoma puramente neurótico para se tornar matéria estética.

Essa dinâmica atinge seu ápice na materialização do pássaro Avalovara. A ave mitológica não possui natureza orgânica; ela é uma escultura heráldica e polifônica construída a partir do arranjo simétrico de milhares de pássaros menores. O Avalovara nasce diretamente da consumação erótica e espiritual entre Abel e a mulher sem nome (⊙). Freud explicaria que a energia libidinal desse encontro — que na realidade comum estaria fadada à descarga efêmera — é retida e transmutada na fundação de um símbolo imortal. O pássaro surge como a projeção viva do Ideal do Ego do artista: a carne se desmaterializa para que o sujeito possa, finalmente, habitar a eternidade da forma.

3. A ESTÊTICA DO SAGRADO: A ESPIRITUALIDADE, O SENTIMENTO OCEÂNICO E TÂNATOS

Freud dedicou parte significativa de sua obra tardia — notadamente em O Futuro de uma Ilusão (1927) e O Mal-Estar na Civilização (1930) — a investigar as raízes psíquicas da experiência religiosa e mística. Longe de validar a espiritualidade por um viés transcendental teológico, o pai da psicanálise a localizou nas profundezas da economia pulsional do próprio sujeito, dividindo-a em dois fenômenos que se manifestam de forma pungente na jornada de Abel: o sentimento oceânico e o repouso da pulsão de morte.

O anseio espiritual de Abel não se direciona a uma divindade institucionalizada, mas sim à busca pelo absoluto, encarnado na mulher representada pelo ideograma ⊙ (um círculo com um ponto central, símbolo milenar do Sol e da totalidade). Ao alcançar o centro da espiral do caracol e unir-se a ela, o protagonista experimenta o que Freud, em diálogo com Romain Rolland, chamou de “sentimento oceânico”: a sensação de dissolução das fronteiras do Ego e de comunhão indissolúvel com a totalidade do universo.

Sob o olhar clínico freudiano, essa busca espiritual pela fusão mística nada mais é do que uma regressão ao narcisismo primário. Trata-se do desejo inconsciente e primevo de retornar ao estado uterino, período anterior à diferenciação entre o “eu” e o “mundo”, no qual o sujeito estava plenamente protegido da dor da individuação e da falta.

Contudo, a espiritualidade em Avalovara é indissociável de um fechamento trágico. À medida que o pássaro se completa e a união mística atinge a plenitude, a linguagem articulada do romance cessa, dando lugar a uma mudez absoluta. Freud postulou que a pulsão de morte (Tânatos) opera silenciosamente, buscando reduzir toda a tensão do aparelho psíquico a zero, em um eterno retorno ao estado inorgânico. A transcendência espiritual de Abel é, metapsicologicamente, o triunfo pacificado de Tânatos. O herói abdica de sua existência biológica e de sua individualidade neurótica para se fundir, em um ato de êxtase místico e espiritual, ao silêncio eterno do mito literário.

4. O PALÍNDROMO E O RELÓGIO: ENTRE O RECALQUE DA FINITUDE E O FETICHE DA PRECISÃO

Para além da grande dinâmica entre arte e espiritualidade, a tessitura de Avalovara abriga elementos específicos que funcionam como sintomas textuais da neurose obsessiva. Dois eixos merecem atenção especial sob a lente freudiana: a estrutura do palíndromo latino (SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS) e o simbolismo do relógio de quartzo. Ambos operam na delicada fronteira entre o recalque e o fetichismo.

4.1. O Palíndromo como Mecanismo de Recalque e Defesa Contra a Morte

O quadrado mágico latino é um palíndromo perfeito que pode ser lido em qualquer direção (horizontal, vertical, da esquerda para a direita ou vice-versa). No romance, ele funciona como a lei que determina as voltas da espiral de Abel. Do ponto de vista freudiano, o palíndromo atua como um poderoso operador do recalque (Verdrängung) contra o horror da finitude e do caos do tempo cronológico.

O tempo da realidade (o tempo do envelhecimento, da perda das amantes e da morte iminente) é uma ameaça constante para o Ego de Abel. O palíndromo, ao permitir que a leitura flua e retorne infinitamente sobre si mesma sem nunca perder a forma, cria uma ilusão de atemporalidade. O tempo linear é recalcado e substituído por uma eternidade espacializada. Freud apontaria que essa simetria absoluta funciona como uma defesa obsessiva: o sujeito apega-se à rigidez gramatical e à repetição das letras para anular magicamente o Real da morte. Se o texto pode ser lido de trás para frente sem se destruir, a vida de Abel — fragmentada entre Recife, Paris e Roma — ganha uma ilusão de indestrutibilidade. O palíndromo é a palavra de ordem que manteve o trauma sob controle, recalcado sob o manto da perfeição geométrica.

4.2. O Relógio de Julius Heckethorn e a Sonata de Scarlatti:

O Fetiche do Improvável e a Fratura do Tempo

Se o palíndromo organiza a macroestrutura geométrica do romance, a inserção da narrativa de Julius Heckethorn (fio narrativo P) introduz de forma visceral a dinâmica do fetichismo e do recalque em sua dimensão material e artística. Freud, em seu clássico ensaio Fetichismo (1927), define o fetiche como uma formação substitutiva: um monumento ou artefato erigido pelo sujeito para, simultaneamente, reconhecer e negar uma perda ou castração intolerável. Na arqueologia ficcional de Lins, o complexo relógio mecânico antigo construído por Heckethorn opera sob essa exata clivagem psíquica.

O artesão consagra sua vida à montagem de um relógio mecânico projetado para tocar uma frase da Sonata em Fá Menor K 462 de Domenico Scarlatti. No entanto, a genialidade trágica do mecanismo reside em uma “falha calculada”: o relógio trabalha com o imponderável e o imprevisível. Ele é calibrado para que, a qualquer momento, as engrenagens saltem e a melodia de Scarlatti seja interrompida, tornando o tempo de execução completo da peça musical matematicamente superior à duração de uma vida humana.

Sob a ótica freudiana, esse relógio carrilhão funciona como o fetiche da transcendência artística, no qual a obsessão pelas minúcias analógicas das engrenagens esconde o horror do sujeito frente à inevitabilidade da morte. O relógio de Julius Heckethorn materializa a ambivalência do fetiche: ao mesmo tempo em que tenta “enclausurar” o tempo dentro de uma ordem artística e maquínica perfeita, ele incorpora a própria castração em seu núcleo através do salto imprevisto e da interrupção melódica. A música interrompida de Scarlatti é o sintoma acústico da finitude humana: o sujeito reconhece que a totalidade existencial é inalcançável no plano biológico e, por isso, desloca esse vazio para o mecanismo. O relógio não esconde a falta; ele a monumentaliza através da beleza de suas engrenagens falhas.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A avaliação metapsicológica de Avalovara revela que a obra-prima de Osman Lins não se encerra no mero virtuosismo de seu projeto formal. O caracol, o quadrado mágico e os objetos que povoam a narrativa são as próprias vísceras do aparelho psíquico expostas na página.

Ao costurar arte e espiritualidade, o romance demonstra que o sujeito humano deita mão de suas faculdades mais elevadas para edificar defesas contra a dor da falta originária. A arte sublima a carne; a espiritualidade tateia o sentimento oceânico do útero perdido. Sob o rigor dessas buscas, o palíndromo e o relógio de Heckethorn expõem as fraturas do Ego obsessivo, que recalca a morte através da simetria e busca no fetiche da mecânica exata um anteparo contra a castração do tempo.

No fechamento da espiral, o veredito freudiano sobre o destino de Abel é categórico: o herói desintegrou-se porque esgotou sua economia pulsional no ato da criação. Todavia, esse esvanecimento não configura um fracasso clínico, mas o triunfo definitivo da literatura. Ao converter o sintoma em estrutura e o trauma em um pássaro monumental, Abel dissolve seu Ego perecível para que a beleza imperecível do texto possa, eternamente, voar.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas, volume 14: Psicologia das massas e análise do eu, Além do princípio do prazer e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Fetichismo (1927). In: Obras completas, volume 17: Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão (1927). In: Obras completas, volume 17: Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FREUD, Sigmund. O inquietante (1919). In: Obras completas, volume 14: Psicologia das massas e análise do eu, Além do princípio do prazer e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, volume 18: O mal-estar na civilização, Novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LINS, Osman. Avalovara. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


[1] João Gomes Moreira é Doutor em Data Processing (2004), Especialista em Neuropsicologia, Psicanalista Clínico, Supervisor e Doutorando em Neuropsicanálise (2023-2026).

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