O FASCÍNIO DO INEXPLICÁVEL

O FASCÍNIO DO INEXPLICÁVEL

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta.

Fernando Pessoa

Por Margarete Hülsendeger

Minha relação com Haruki Murakami sempre foi marcada por uma espécie de contradição. Seus livros me atraem e me desconcertam quase na mesma medida. Enquanto leio, faço perguntas, procuro explicações, tento compreender as regras dos universos que ele cria e descobrir onde termina a realidade e começa o sonho. Murakami, porém, raramente parece interessado em oferecer respostas claras. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, continuo voltando aos seus livros. Em A cidade e suas muralhas incertas[1], essa sensação foi particularmente intensa.

O romance acompanha um homem cuja vida permanece ligada a uma paixão da adolescência e a uma cidade cercada por muralhas, lugar que parece existir em algum ponto indefinido entre a lembrança, o sonho e a realidade. Ali, o tempo obedece a outra lógica. Unicórnios atravessam a cidade, um guardião controla a entrada e separa de sua sombra aqueles que passam por seus portões, e as normas daquele mundo são aceitas com uma naturalidade que dispensa explicações. Quem nunca leu Murakami talvez estranhe justamente isso: o extraordinário não surge como ruptura, mas como parte do funcionamento cotidiano daquele universo.

Mais tarde, já no mundo que reconhecemos como “real”, o protagonista muda-se para uma pequena cidade e começa a trabalhar em uma biblioteca. Ali, estabelece uma relação com o antigo diretor do lugar, embora esse homem já esteja morto quando o ele chega. A situação é aceita quase sem sobressaltos, como se conversar com um morto pudesse ser apenas mais uma possibilidade da experiência humana. Essa proximidade entre o cotidiano e o inexplicável aproxima Murakami do realismo mágico, tradição à qual o próprio romance faz referência ao mencionar Gabriel García Márquez. Há, porém, algo bastante particular em sua maneira de trabalhar esse encontro: seus personagens parecem aceitar com mais facilidade aquilo que desafia a lógica do que nós, leitores.

É justamente aí que começa o meu desconcerto. A cidade existe? É um sonho? O que significa perder a própria sombra? Qual é, afinal, a relação entre aquele mundo e o que chamamos de realidade? O romance não se apressa em responder, e muitas dessas perguntas permanecem abertas até o final. Talvez seja necessário aceitar que, em Murakami, nem todo mistério é criado para ser solucionado. Há acontecimentos que funcionam mais como imagens oníricas: podemos relacioná-los entre si, atribuir-lhes sentidos, mas dificilmente reduzi-los a uma única explicação.

A cidade murada é provavelmente a imagem mais poderosa do livro. Silenciosa e parcialmente desabitada, ela parece existir fora do tempo. Os invernos são rigorosos e trazem consigo a morte; a própria vida parece obedecer a um ciclo que se repete. Tudo ali transmite uma sensação de suspensão, como se o tempo tivesse deixado de avançar. É difícil não enxergar nesse lugar uma tentativa de preservar algo que o protagonista não consegue abandonar.

Essa ideia se torna ainda mais significativa quando pensamos na relação dele com a jovem por quem se apaixona na adolescência. Anos depois, ele a reencontra dentro da cidade murada exatamente como a conheceu, com a mesma idade, agora responsável por uma biblioteca para à ele se dirige todas as noites a fim de ler antigos sonhos. O reencontro possui algo de profundamente sedutor e inquietante: aquilo que o tempo deveria ter transformado permanece intacto. Ele não se prende apenas à lembrança de uma pessoa, mas à imagem de quem ela foi em determinado momento da vida.

Nesse sentido, a cidade pode ser entendida como um espaço em que aquilo que foi perdido continua existindo, mas essa permanência cobra um preço: nada se transforma de verdade. Murakami não explicita o significado dessa suspensão, assim como não estabelece fronteiras seguras entre devaneio, memória e realidade. Talvez uma das questões centrais do romance esteja justamente nessa tensão entre conservar aquilo que passou e continuar vivendo.

É aqui que minha relação com Murakami volta a se tornar contraditória. Há momentos em que sua recusa em explicar me irrita, porque quero saber mais, entender o que aconteceu e descobrir se existe alguma resposta escondida que me escapou. Ao mesmo tempo, é difícil abandonar seus livros. Há alguma coisa naquele ambiente silencioso, estranho e quase hipnótico que me prende, mesmo quando não sei exatamente o que estou lendo ou para onde a história está me levando. Termino muitas vezes incomodada, com perguntas demais, mas também com a sensação de que passei algum tempo em um lugar do qual não consigo me desprender imediatamente.

Ler A cidade e suas muralhas incertas exige aceitar, durante algum tempo, um mundo em que nem todas as fronteiras são estáveis. Entre sonho e realidade, passado e presente, presença e ausência, as muralhas que deveriam separar as coisas tornam-se, como anuncia o próprio título, incertas. Talvez seja justamente essa instabilidade que torne o romance tão fascinante e, ao mesmo tempo, tão frustrante para mim. Se Murakami explicasse completamente seus mundos, provavelmente eu os compreenderia melhor, mas talvez deixasse de querer voltar a eles.


[1] MURAKAMI, Haruki. A cidade e suas muralhas incertas. Tradução Jefferson José Teixeira. São Paulo, Alfaguara, 2026.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

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