FANZINE COMO ESTRATÉGIA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA NO ENSINO DE CIÊNCIAS

FANZINE COMO ESTRATÉGIA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA NO ENSINO DE CIÊNCIAS

Rafael Lima Santos

Universidade Federal de Uberlândia

Julia Azevedo Borges

Universidade Federal de Uberlândia

Fanny Gonçalves de Lima

Universidade Federal de Uberlândia

Resumo

Este artigo discute a utilização do fanzine como estratégia de avaliação formativa no ensino de Ciências, a partir da experiência vivenciada no componente curricular PROINTER IV – Educação e Sociedade, do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A proposta teve como objetivo estimular a expressão criativa, a reflexão crítica e a articulação entre teoria e prática na formação docente. Durante o processo, os licenciandos realizaram atividades prévias, como o estudo de obras que abordam a relação entre ciência, sociedade e educação, além da análise crítica de documentários e textos sobre colonialismo e capitalismo. Na elaboração dos fanzines, os estudantes puderam integrar diferentes linguagens, como textos, imagens e elementos gráficos, para expressar suas compreensões acerca das discussões realizadas em aula. A experiência demonstrou que o uso de fanzines como instrumento avaliativo favorece o desenvolvimento de habilidades como síntese, argumentação, autoria e criatividade, além de proporcionar um ambiente inclusivo e menos ansioso para o processo de avaliação. Os resultados indicam que avaliações alternativas, como o fanzine, potencializam a participação estudantil, promovem a liberdade de expressão e estimulam uma aprendizagem mais significativa e crítica. Conclui-se que tal abordagem contribui para uma formação docente mais reflexiva e transformadora.

Palavras-chave: Fanzine; Avaliação formativa; Ensino de Ciências; Formação docente; Interdisciplinaridade.

Introdução

Os fanzines, historicamente associados à cultura underground e ao DIY (do it yourself), são veículos de comunicação visualmente cativantes e altamente personalizáveis (FARIAS, 2014).  E podem ser utilizados como recursos pedagógicos, proporcionando aos alunos a oportunidade de sintetizar e reinterpretar o conteúdo estudado de maneira criativa e autêntica. A partir disso, o componente curricular PROINTER IV – Educação e Sociedade, do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) se destaca ao incorporar o uso de fanzines como uma estratégia de avaliação.

De acordo com a Resolução SEI número 32/2017, os Projetos Interdisciplinares (PROINTER) são componentes curriculares essenciais que contribuem para a formação dos futuros profissionais de licenciatura para a Educação Básica através da integração entre diferentes áreas do conhecimento, preconizando a articulação entre teoria e prática, bem como entre os campos de ensino, pesquisa e extensão (Universidade Federal de Uberlândia, 2017). Especificamente no caso da licenciatura em Ciências Biológicas na UFU, os PROINTER, numerados de I a IV, constituem-se como uma oportunidade de aplicação dos princípios e concepções fundamentais da formação docente.

O objetivo central desses PROINTER é promover uma abordagem contextualizada dos conteúdos pertinentes à área de Licenciatura em Ciências Biológicas, possibilitando aos estudantes uma compreensão mais ampla e integrada dos conhecimentos científicos, didáticos e pedagógicos. Além disso, os PROINTER destacam-se pela sua natureza interdisciplinar, promovendo a conexão entre temas da área da educação e questões específicas das ciências biológicas. Durante esses componentes curriculares, os estudantes são incentivados a demonstrar sua autenticidade ao longo das diversas atividades propostas, o que estimula os alunos a expressarem suas perspectivas individuais de maneira criativa.

Educação e Sociedade

Durante o componente curricular Educação e Sociedade, foram realizadas três atividades antes da confecção do fanzine, a primeira atividade foi assistir e discutir ao documentário “Escolarizando o mundo: o último fardo do homem branco” (2010), que aborda principalmente as complexidades e desafios do sistema educacional dentro do contexto do capitalismo, explorando como as estruturas educacionais ocidentais podem afetar as culturas e comunidades ao redor do mundo.

Posteriormente, a leitura e discussão de dois textos com pontos de vista distintos sobre a relação entre ciência e sociedade, o capítulo “A descoberta da ignorância” do livro “Sapiens: Uma breve história da humanidade” (HARARI, 2019), e os capítulos “A relação ciência/natureza/sociedade’ e “Um olhar para além do conhecimento científico” do livro “Ciência, natureza e sociedade” (SILVA, 2010).

Por último, ler os capítulos “Qual é a tarefa da educação?” e “A escola dos sonhos” do livro “Vence-demanda: educação e descolonização” (RUFINO, 2021), o qual expõe diretamente a ideia de nossas escolas estarem a serviço de um sistema colonizador e a necessidade de transformação dessa realidade.

Ao realizar as atividades os alunos foram expostos a uma variedade de perspectivas sobre a relação entre ciência e sociedade, bem como a relação entre diferentes modelos de educação e sociedade. Pode-se refletir ainda sobre a importância da leitura crítica e das obras cinematográficas no ensino.

Segundo Oliveira (2005), o acesso a diferentes pontos de vista através da leitura apresenta grande relevância para a prática docente, permitindo que os licenciandos entendam a importância de compreender de maneira fundamental o que foi lido, atribuindo significado à leitura. A etapa posterior neste componente curricular foi o processo de avaliação, que consistiu na confecção do fanzine, no qual o estudante deveria externar o que compreendeu e refletiu a respeito das obras, permitindo que desenvolvêssemos uma visão própria sobre os temas abordados.

Criação do fanzine

Durante o processo de criação do fanzine, apesar da proposta ter um caráter informativo relacionado às obras estudadas, houve liberdade para que os participantes expressassem sua individualidade e criatividade. No desenvolvimento da capa, optou-se pela utilização de uma página retirada do livro Guia das Plantas Medicinais, especificamente aquela que abordava o tema “Terror Noturno”, uma forma de parassonia frequente na infância. O conteúdo da página incluía informações sobre tratamentos homeopáticos e fitoterápicos utilizados para o manejo dessa condição, evidenciando a articulação entre elementos textuais e visuais com temas de saúde presentes nas ciências naturais (Figura 1).Essa escolha se baseou no fato de o assunto se relacionar com temas tratados em aula, como a depreciação de culturas não eurocêntricas e dos saberes tradicionais em detrimento da Ciência moderna.

Também, foram incluídos pequenos textos manuscritos de autoria própria, abordando temas como a produção de alimentos, a miséria e a fome. (Figura 1). Estes manuscritos foram escolhidos como forma de explicitar os problemas sociais e culturais relacionados ao capitalismo, visando mostrar a profundidade destes problemas no contexto educacional.

Essa discussão que permeia os problemas sociais/educacionais do capitalismo surgiu como temática no componente curricular de Educação e Sociedade quando assistimos o documentário “Escolarizando o mundo: o último fardo do homem branco”, que trata quase que exclusivamente dos problemas gerados pelo sistema capitalista no contexto educacional.

Além disso, foram inseridos recortes de um desenho, acompanhados de intervenções gráficas em forma de rabiscos, distribuídos ao longo do fanzine. A escolha desses elementos visuais teve como objetivo construir uma estética propositalmente caótica, em diálogo com os temas abordados nas aulas, como as contradições do sistema capitalista e a sua relação com uma educação colonial.

A segunda parte é a porção interna do fanzine, na qual estão descritas as obras, às vezes por um resumo, às vezes pelo meu ponto de vista da obra (Figura 1). O ponto de vista exposto trata dos problemas do sistema capitalista em que vivemos, da desigualdade e violência, da desvalorização da sabedoria tradicional e das crenças em detrimento da ciência, sendo que cada um destes temas se relacionou com uma das obras lidas ou assistidas.

No fanzine foi explicitado um posicionamento crítico, ao defender que os problemas abordados devem ser combatidos e que isso tornaria a sociedade mais justa. O texto referente a cada obra está escrito em direções diferentes e cada um apresenta características únicas, seja pelo direcionamento, presença de desenhos ou forma de escrita. Essas características também visavam trazer esse teor disruptivo ao fanzine, pois se relacionam à cultura que deu maior relevância aos fanzines, o PUNK, embora o fanzine anteceda-o (GUERRA; QUINTELA, 2016).

A terceira parte do fanzine consiste em uma seleção de imagens produzidas especificamente para compor a parte interna da publicação, com o objetivo de complementar visualmente os conteúdos textuais e reforçar as temáticas abordadas. Nela estão presentes dois líderes políticos, sendo eles Malcolm X e Che Guevara, além disso foi adicionada uma frase traduzida de Albert Einstein, que fala sobre a importância da Ciência, que muitas vezes pode não oferecer todas as respostas que precisamos, que pode ser primitiva, mas ainda assim é de extrema importância na nossa vida (Figura 1).

A inserção dessa frase no fanzine teve como objetivo mostrar que não podemos deixar os saberes tradicionais e culturais de diferentes povos de lado, mas que eles devem caminhar em conjunto com a ciência. A escolha dessas personalidades se deu pelo fato de serem pensadores extremamente importantes na história da humanidade. Tanto Malcolm X quanto Che Guevara lutaram por liberdade, justiça, igualdade, condições melhores de vida, cada um em seu respectivo contexto, mas que se relacionam com o fanzine de maneira integral, pois o fanzine em si trata da liberdade de pensamento, além de o tema principal da obra ser sobre a descolonização do conhecimento e da educação, evidenciando como o sistema capitalista mantém o controle de aspectos tão relevantes em nossa sociedade.

Figura 1 – Fanzine elaborado no componente curricular Educação e Sociedade.

       Fonte: Rafael Lima Santos

Fanzine como ferramenta pedagógica de avaliação

A partir da experiência podemos notar que a confecção do fanzine não tem como objetivo apenas a difusão de informações. Ao contrário de uma avaliação tradicional, como uma prova, a confecção do fanzine proporcionou a leitura e releitura as obras, refletir sobre novos pontos de vista e escolher as informações  a serem inseridas nessa atividade. Andraus (2014) coloca que a confecção de fanzines também incentiva o desenvolvimento de habilidades como síntese, análise crítica e expressão artística. Nesse contexto, os alunos são desafiados a organizar as informações de forma acessível e atrativa, selecionando imagens, textos e elementos gráficos que melhor representem suas ideias e perspectivas.

Acreditamos que o fanzine ofereça um espaço seguro e inclusivo para que os alunos expressem sua individualidade e exerçam plenamente sua liberdade de expressão. A possibilidade de realizar a atividade da maneira que eu queria me gerou um maior interesse e me impulsionou a entender melhor as discussões realizadas no componente curricular. Essas percepções são confirmadas por Oliveira (2022), que diz que ao serem encorajados a expressar suas ideias, opiniões e perspectivas de forma livre e autêntica, os alunos se tornam mais engajados e motivados em seu processo de aprendizagem.

Durante a apresentação dos fanzines em sala de aula, houve a oportunidade de conhecer e analisar as produções realizadas pelos demais colegas, o que permitiu ampliar a compreensão sobre a diversidade de abordagens e interpretações dos conteúdos trabalhados sob diferentes perspectivas. Observação que vai de encontro à colocação de que ao promover a criatividade e a autoexpressão ocorre o incentivo à diversidade de pensamento e a tolerância à diferença (HOOKS, 2020). A liberdade de expressão ainda permite que os alunos explorem uma variedade de temas, estilos e abordagens visuais, sem restrições ou censura, desempenhando um papel crucial em seu desenvolvimento integral (MARINHO, 2022).

Levando-se em consideração que a proposta do fanzine consistiu em uma atividade avaliativa, entende-se que a implementação de avaliações dessa natureza é crucial para promover um ambiente educacional mais inclusivo e motivador. Enquanto as avaliações tradicionais podem gerar ansiedade devido à pressão por resultados, os fanzines proporcionam um espaço mais acolhedor.

Formas de avaliação alternativas permitem que os alunos se sintam mais confortáveis e incentivados a explorar diferentes maneiras de demonstrar seu aprendizado, ao invés de se sentirem limitados por formatos padronizados e restritivos (HOFFMAN, 1997). Adotar esse tipo de avaliação contribui para um ciclo de aprendizado mais eficaz, no qual os alunos conseguem identificar áreas nas quais precisam trabalhar ativamente para melhorar seu entendimento. Uma abordagem diversificada enriquece significativamente o processo de aprendizado (LABURÚ; DA SILVA; VIDOTTO, 2005), de forma que integrar tanto as avaliações tradicionais quanto as consideradas alternativas me parece essencial para uma avaliação mais inclusiva e efetiva.

Considerações finais

A utilização de fanzines como estratégia de avaliação revela-se um instrumento poderoso para promover o desenvolvimento pessoal e profissional dos futuros professores de Ciências. Ao permitir que os licenciandos expressem suas vozes e experiências de maneira autêntica, os fanzines incentivam uma aprendizagem significativa e uma reflexão profunda sobre os temas estudados. Além disso, ao reconhecer e valorizar a diversidade de perspectivas e habilidades, essa abordagem contribui para a formação de professores mais conscientes, criativos e comprometidos com o processo educacional. Assim, os fanzines não são apenas ferramentas de avaliação, mas também veículos de empoderamento e transformação no contexto educacional.

Referências

ANDRAUS, Gazy. A não-linearidade mental da juventude: informação e formação interdisciplinar, tecnologias e zines. Interdisciplinaridade. Revista do Grupo de Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade, n. 4, p. 58-64, 2014.

FARIAS, Carlos Magno Bezerra De. Fanzine: cultura underground, leitura e escrita. Anais I CONEDU. Campina Grande: Realize Editora, 2014. Disponível em: <https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/7296>. Acesso em: 19/02/2024

GUERRA, Paula; QUINTELA, Pedro. Culturas de resistência e média alternativos: os fanzines punk portugueses. Sociologia, Problemas e Práticas, n. 80, p. 69-94, 2016.

HOFFMANN, Jussara. Avaliaçãomito e desafio : uma perspectiva construtivista. 34.ed. Porto Alegre: Mediação, 2003.

HOOKS, Bell. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. São Paulo: Elefante, 2020.

LABURÚ, Carlos Eduardo; DA SILVA, Dirceu; VIDOTTO, Luiz Carlos. Avaliação tradicional e alternativa no ensino: um estudo comparativo. Semina: Ciências Sociais e Humanas, v. 26, n. 1, p. 27-42, 2005.

MARINHO, Cristiane. Bell Hooks:: pedagogia engajada, pensamento crítico e prática da liberdade. Kalagatos, v. 19, n. 1, p. eK22016-eK22016, 2022.

OLIVEIRA, Bianca et al. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. Editora Elefante, 2022.

OLIVEIRA, Katya Luciane de; SANTOS, Acácia Aparecida Angeli dos. Compreensão em leitura e avaliação da aprendizagem em universitários. Psicologia: reflexão e crítica, v. 18, p. 118-124, 2005.

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