ÓDIO ACADÊMICO?


Participei por algum tempo de um grupo de internet, cujo tema era cinema.
Sempre que o tema é arte, o gosto de um pode não ser o de outro; um artista ou filme pode ser espetacular para um, mas superestimado para outro. Enfim, dizem que gosto não se discute; que toda a unanimidade é burra; que a beleza está nos olhos de quem vê; que quem ama o feio, bonito lhe parece e por aí vai.
No entanto, eu creio que o tempo nos faz repensar algumas coisas, e que se gosto não se discute, pode ser aprimorado.
Infelizmente, dependendo do ambiente, os confrontos de ideias são inevitáveis, sobretudo quando se trata de gostos e crenças, sobretudo quando as pessoas não estão preparadas para o contraditório, para ouvir a opinião de outros, ou quando têm ideias fixas e pretensões hegemônicas.
Lembro de ter feito um ranqueamento de diretores, atores e atrizes desde a primeira entrega de Oscar, usando critérios bem definidos, incluindo premiações e indicações, atribuindo-lhes pesos, e publicar a planilha com os resultados no grupo.
Para que… Alguns passaram a me criticar duramente por ela não estar de acordo com suas preferências.
Mas esse não foi o pior caso:
Para entrar e permanecer no grupo, era preciso ser aprovado pelos administradores e seguir um código de conduta.
Isso não impediu que um grupo, que se identificou como de uma universidade pública, entrasse e passasse a dizer quais eram os melhores filmes em sua opinião, todos de viés ideológico e idolatria a seus ícones, desdenhando de forma agressiva de outras opiniões.
Quando alguns dos membros do grupo questionaram essas escolhas, a resposta foi do tipo: “Para vocês, só mesmo o ‘paredão’!”. Depois de distribuir outras frases de ódio ideológico, eles foram excluídos do grupo.
Tempos depois, também saí, apesar da insistência de administradores para que não o fizesse.
Esse episódio me fez lembrar de um vídeo, em que um “professor” finalizou sua fala citando um trecho do “poema” “Interrogatório do homem de bem”, de Bertold Brecht: “Então ouça: Nós sabemos: Você é nosso inimigo. Por isso queremos o colocar agora no paredão. Mas em consideração a seus méritos e boas qualidades, vamos te encostar em um bom paredão e o fuzilar com boas balas de bons fuzis e o enterrar com uma boa pá em uma boa terra”. Também lembrei de uma “professora” afirmando: “Eu odeio a classe média!”, atribuindo de forma generalizada o que a ideologia que defende e ensina faz. Nos dois casos, a plateia aplaudiu essas falas.
As manifestações desses “professores” e as ações de seus “alunos” propõem o extermínio de quem discorda de suas crenças. Considerando algumas falas recentes de outro “professor”, não perdoariam nem crianças.
Não existe ódio do bem! E uma frase atribuída a Nelson Mandela afirma, em resumo, que ninguém nasce com ódio: ele precisa ser ensinado.
O que esses “professores” estão ensinando? Esses ensinamentos, se consumados, não podem resultar em algo que alguns, quando lhes convém, têm chamado de genocídio?
Existe mestrado, doutorado e livre-docência em ódio?
Num mundo em que se prega tolerância e respeito à diversidade, faz sentido formar para um pensamento único, condenando, perseguindo ou exterminando quem pensa diferente?
Radicalismos são condenáveis de onde quer que venham, mas ainda mais quando estão presentes no mundo acadêmico, contrariando a própria definição de universidade, que não deve nem pode incluir a universalização do ódio.
O radicalismo universitário, mais do que qualquer outro, é um atraso de vida, é estupidez, é reacionário, é anacrônico, tolhe o discernimento e o livre-arbítrio, é hegemônico, é semente de regimes ditatoriais!
No entanto, parece que a liberdade de expressão e a punição são seletivas, num cenário em que quem julga manifesta suas preferências ideológicas, o que tende a comprometer suas decisões.
São tempos preocupantes.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






