PEQUENOS TIRANOS

Eis algumas definições de tirania: tipo de governo em que o líder chega ao poder ou continua na liderança de maneira ilegítima; excesso de poder alcançado de forma desonesta; opressão, crueldade e abuso de poder. Também consta que, na política, o poder de um governo tirânico pode ser comparado ao absolutismo.

213 milhões de brasileiros podem ser considerados pequenos tiranos?

Generalizações são sempre preconceituosas e, considerando o Preâmbulo da Constituição Federal que afirma instituir um “[…] Estado Democrático, destinado a garantir o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos […]”, também são inconstitucionais.

Se 213 milhões de brasileiros fossem pequenos tiranos, teríamos uma anarquia absoluta.

Quem faz esse tipo de generalização se inclui nela ou só está prejulgando os outros?

É, generalizações são um problema, e jamais deveriam ser consideradas por quem julga.

Existem algumas afirmações que se referem a maçãs ou batatas podres, que devem ser identificadas e sacadas do conjunto, para evitar a contaminação das demais.

No entanto, a existência delas não implica que todos estejam ou devam ser condenados. Às vezes, o que alguns tiranos interpretam como sendo “maçãs ou batatas podres”, são aqueles que ousam questionar seu poder absoluto. Noutros casos, o podridão já predomina.

O Parágrafo Único dos Preceitos Fundamentais da Constituição dispõe que: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

Os 213 milhões de brasileiros estão incluídos nesse escopo.

E quem são os seus representantes eleitos? Ao que consta, são os membros dos Poderes Executivo e Legislativo, e o voto pode tirá-los do poder.

Seriam eles pequenos, médios ou grandes tiranos?

Consta que Abraham Lincoln teria afirmado que, para conhecer o caráter de uma pessoa, basta-lhe dar poder.

Tirania, nesse sentido, pode ser considerada como monopólio do poder, que também pode ser um oligopólio, quando exercida por um pequeno grupo.

Numa democracia, um ente regulador busca evitar que tais situações ocorram. E na democracia não há lugar para a tirania, nem para apologia da coerção física e psicológica praticada por ditaduras de qualquer visão ideológica.

Já existem leis para punir crimes contra a honra ou ordem pública, não precisamos de novas, ainda mais quando generalizam ou deixam margem para interpretações.

Julgar é uma responsabilidade enorme, o que exige autorização, discernimento e noção de consequência. É um poder enorme, que não pode ser exercido com vaidade, arrogância ou inconsequência.

Assim, quem julga precisa ter em mente Mateus 7:1-5: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados.Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarmos, também será usada para medir vocês”.

Essa passagem não é uma ameaça, mas um alerta “oftalmológico” contra a soberba, na medida em que pondera não fazer sentido reparar em ciscos nos olhos de outros, ignorando a trave que impede a visão de quem julga.

Creio ser um pouco difícil querer tirar “ciscos dos olhos” de 213 milhões. Mas pior é sugerir que todos têm “ciscos” nos olhos, exceção a si próprios.

O que realmente deve se preocupar são os grandes tira nós e quem os apoia.

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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