NEGÓCIO DA CHINA

A China tem uma história milenar, muitas vezes conturbada e dividida, o que não lhe impediu, talvez até tenha favorecido, a evolução de seu papel mundial.

Desde os tempos de Marco Polo, quando se tornou mais conhecida pelo Ocidente, a China legou ao mundo algumas descobertas e invenções, como a pólvora, a bússola, o papel, o macarrão e, indiretamente, o pastel, entre outras.

Ao longo dos séculos, a China foi dominada por mongóis e, posteriormente, loteada por potências mundiais até o início do século XX, ainda assim com parte de seu território dominada pelo Japão, o que perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial.

Sobretudo a partir do século XIX, chineses deixaram seu país em busca de melhores condições de vida, mundo afora, sobretudo nas Américas e, depois, na Oceania.

Na segunda metade desse século, a revolução comunista resultou em duas “Chinas”, com a Ilha Formosa (denominação dada por exploradores portugueses, na Idade Moderna) se transformando em Taiwan, vivendo sob tensão desde então.

Nesse período inicial do comunismo chinês, o suporte da URSS foi fundamental, consolidado pela aquisição de capacidade bélica nuclear, que tornou a China um dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

Nesse período, além das barreiras culturais, foram mais poderosas do que a Muralha da China.

Após muitas décadas dependendo da URSS em múltiplos sentidos, além de viver num período de opressão sistemática e atrasos tecnológicos, sobretudo nos tempos da “Revolução Cultural”, no final dos anos de 1970, a China mudou sua estratégia econômica, apesar de manter o rígido controle de seu Partido Comunista. Era necessário para manter a estabilidade interna de seu vasto território e de suas centenas de milhões de habitantes.

Investimentos em infraestruturas, educação e formação profissional, atração de investimentos externos e plantas industriais de corporações internacionais, subordinadas à empregabilidade e transferência de tecnologia, tiveram resultados altamente eficazes para a economia chinesa, que passou a se expandir em escalas surpreendentes para o Ocidente.

Próximo da transição para o século XXI, antigas colônias ocidentais foram reincorporadas, casos de Macau e Hong Kong, embora em regimes diferenciados. Talvez os antigos colonizadores pensassem que os acordos do século XIX seriam esquecidos, mas o crescente poderio chinês deve ter frustrado essa expectativa.

Em verdade, essa diferenciação já estava em processo, por conta da implantação de milhares de Zonas Econômicas Especiais no país, e do envio de estudantes às melhores universidades do Ocidente, criando condições profissionais atrativas para seu retorno, que não ameaças à integridade de suas famílias.

Foi uma transição e tanto!

Alguns dos adeptos do maoísmo podem ter se regozijado desse novo cenário, ignorando que essa evolução decorreu da superação daquele regime autoritário, que vitimou milhares, talvez milhões de pessoas, mortas ou “reeducadas”, apenas por discordarem ou não se adaptarem à uniformização imposta.

Embora o comunismo permaneça como uma ditadura de partido único, rigidamente controlada por um governo centralizador e insofismável, essa abertura econômica mudou radicalmente a China, ao menos em suas áreas mais “visíveis” ao Ocidente.

Por vários motivos, não há como comparar a China com outros países comunistas, como Coreia do Norte, Cuba, Nicarágua e outras ditaduras de mesma linha ideológica, que se mantêm por meios nada democráticos, dominadas por elites burocráticas que nada têm de comum com os povos que lideram.

Atualmente, a China é referência em produção industrial, ciência e tecnologia, além de uma poderosa economia.

Porém, como toda potência, ela precisa de recursos que nem sempre estão disponíveis em seu território. Isso inclui alimentos, matérias-primas e mercados para seus produtos, nos quais compete em condições desiguais, por múltiplos motivos, inclusive de regime de trabalho.

A nova dispersão de chineses pelo mundo talvez faça parte dessa estratégia.

Muitos dos que elogiam seu modelo político jamais aceitariam, aqui, o regime de trabalho de lá, a não ser que fosse para ocuparem cargos burocráticos por integrarem o partido, ou para viverem de subvenções públicas às suas atividades. A diferença é que certas dessas atividades não seriam subvencionadas lá. Se fossem, provavelmente a China não teria se desenvolvido de forma tão rápida e significativa, ao ponto de saltar de uma economia incipiente e tecnologia obsoleta, para a condição de segunda economia do mundo, principal produtora de patentes e potente exportadora de produtos industrializados.

Essa internacionalização já ocorrera no passado, nos tempos da “Rota da Seda”, que, entre os séculos II a. C e XV d. C servia ao comércio entre a China e a Europa. Agora, a “Nova Rota da Seda”, denominação adotada para a Iniciativa Cinturão e Rota, projeto de infraestrutura e desenvolvimento econômico lançado pela China em 2013, tem preocupado as potências ocidentais.

Esse projeto envolve investimentos em infraestrutura, produção, comércio e conectividade em vários países, sobretudo na América Latina, África, Ásia e Europa.

Considerando o que ocorre em alguns desses países, há certa similaridade com um processo de neocolonialismo, em que as intenções estratégicas e econômicas estão bem acima de interesses ideológicos, bem mais alinhadas com o poder, em si.

Esse poder centralizador, que também ocorre em alguns países árabes, permitiu que o governo definisse estratégias de desenvolvimento e as aplicasse sem resistências ou objeções, de forma rápida e objetiva.

Em países democráticos, algumas dessas medidas seriam consideradas ambientalmente inaceitáveis e socialmente reprováveis, inclusive por defensores de regimes totalitários. Aliás, o desenvolvimento de países europeus e dos EUA também seguiu esse modelo, antes deles passarem a defender restrições ao desenvolvimento de países emergentes, para manterem uma espécie de colonialismo tecnológico.

A prioridade chinesa era desenvolver o país em curto espaço de tempo, e essa meta foi rigorosamente cumprida, sabe-se lá a que custo.

É um modelo a ser seguido pelo Brasil? Talvez em parte.

Não faltam planos e iniciativas em prol do desenvolvimento econômico do país, que incluem ampliar, diversificar e aprimorar a produção industrial, o que exige investimentos em educação de qualidade, pesquisa científica, incentivos à retenção de inteligências e geração de empregos.

No entanto, não faltam impedâncias nesse processo, o que torna o desenvolvimento do país uma corrida de obstáculos em que os corredores disputam com os pés amarrados por um arcabouço legal complexo, que dá margem a interpretações e ações protelatórias e deletérias, não raro prejudicando muitos em nome do interesse ou convicções de poucos. Mesmo as boas intenções, em tese, tendem a prejudicar quem ou o que se pretende favorecer.

A China já está com os “pés” no Brasil há algum tempo. Começou com exportações altamente competitivas de produtos industrializados, passando à atuação direta na cadeia do agronegócio e, mais recentemente, adentrando à produção industrial.

Em concorrências internacionais, as empresas chinesas normalmente concorrem com vantagens, inclusive em relação às nacionais, o que tem exigido cuidados na elaboração dos editais.

Se essas empresas tivessem aqui as mesmas condições que têm na China, não tenho dúvida de que fariam mais rápido e mais barato muito do que o Brasil precisa para se desenvolver.

O problema é que, a exemplo de outros países desenvolvidos, a China tem interesses. O que precisa ser equacionado é como esses interesses se alinham com os do Brasil em nível estratégico, de estado, e não político-partidário, ideológico.

Salvo engano, o negócio da China é vender seus produtos industriais e adquirir matérias-primas e alimentos a custos reduzidos. A “Nova Rota da China” tem basicamente esse propósito.

Nesse contexto, a China pretende investir na construção de uma ligação ferroviária bioceânica entre a Bahia e o Peru.

Já está em processo uma ligação rodoviária bioceânica entre o Brasil e o Chile, envolvendo portos das regiões Sul e Sudeste, passando por Paraguai e Argentina. Existem outras em estudo.

Os produtores do agronegócio terão mais opções para exportar, bem como a China, para importar e exportar via Oceano Pacífico, com a expectativa de redução de custos logísticos.

Recente acordo firmado entre os governos de Brasil e China prevê que essa ligação também integre as ferrovias Oeste-Leste (Fiol) e Centro-Oeste (Fico), ainda projetos, e a Ferrovia Norte-Sul (FNS). Não consta ter havido menção à Ferrogrão.

Será que os chineses terão vida mais fácil do que a dos empreendedores brasileiros?

O Brasil precisa priorizar investimentos em infraestrutura e industrialização, sem dúvida! Mas para que tal ocorra com agilidade, objetividade e responsabilidade, é preciso que o arcabouço legal nacional se adeque a esse objetivo estratégico, em vez de ser fonte inesgotável de interpretações e judicializações que, em nome de radicalismos ideológicos ou interesses alheios aos do país, prejudicam a geração de milhões de empregos e investimentos em educação, profissionalização, saúde, segurança e habitação, sem deixar de lado a atenção com o meio ambiente.

Isso também evitará que o Brasil seja tão influenciado por disputas geopolíticas e geoeconômicas entre as potências da vez, fortalecendo sua posição no cenário internacional.

Adilson Luiz Gonçalves

Engenheiro, Pesquisador Universitários, Escritor e membro da Academia Santista de Letras

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