É COISA PRA PENSAR

Em 2008, eu ousei, além de escrever, a compor músicas. Era uma forma de expurgar um pouco da raiva que eu sentia, inconformado com uma situação que se arrastava há anos, inclusive resultando em problemas de saúde. De tanto somar inconformismo, acabei somatizando.
Uma dessas músicas foi: “É coisa pra pensar”, que sintetizou algumas de minhas percepções sobre alguns assuntos. O tempo só as tem tornado ainda mais evidentes.
Alegando, de antemão, licença poética para o uso indevido da língua portuguesa, em nome do ritmo, segue a letra dessa música:
“Tem gente que vive do crime e se dá bem. Pouco lhe importa sua grana de onde vem.
Pode ser rico, mas não importa o que ele pensa, ele não cura e ainda faz parte da doença.
É coisa pra pensar.
Você aprende: “Todos são filhos de Deus!”, mas tem quem diga que: “Não! Filhos só são os meus!”, prega discórdia, medo e ilude o tempo inteiro; promete o paraíso em troca de dinheiro.
É coisa pra pensar.
Tem gente que faz da política opção, pra enriquecer nas teias da corrupção. Pouco lhe importa se o circo se incendeia. Em vez de imunidade, merece cadeia.
É coisa pra pensar.
Tem gente de boa conversa e aparência, que usa disso pra iludir a adolescência. Te mostra o vício e diz que é bom, não há perigo: cigarro, droga e ainda diz que é teu amigo!
É coisa pra pensar.
Tem gente que se diz da elite social. Fala que é nobre, de estirpe tradicional. Pensam que um sobrenome os torna perfeitos, mas isso é mais um de seus muitos defeitos.
É coisa pra pensar.
Tem gente que dita a tendência do momento: a grife, o carro, o som e até o comportamento. E tudo logo vira febre mundial. Dizem que é moda, ou você segue ou não é “normal”.
É coisa pra pensar.
Mas, pra que pensar?
Isso não é importante pra aqueles que preferem você ignorante, mais fácil de enganar.
É coisa pra pensar”.
É uma síntese simplória de várias coisas que me incomodavam há muito tempo, e que, infelizmente, ainda incomodam, pois há cada vez mais gente vivendo do caos, da subversão de mentes e valores, da criminalidade, de se locupletar com dinheiro público, e da espoliação de quem trabalha, estuda e busca na dedicação e mérito sua realização pessoal e em prol da sociedade.
Porém, se ainda nos é permitido pensar, que também nos seja possível não aceitar esse quadro, e exercer o direito da liberdade de expressão, ao menos enquanto o livre-arbítrio não for censurado em nome da imposição de um pensamento único, que é uma das piores violências que se pode impor ao ser humano.
É coisa para pensar e fazer, sem nunca esmorecer!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras






