“UM INSTANTE, MAESTRO!”

Essa frase imperativa era proferida por Flávio Cavalcanti desde 1952, num programa de mesmo nome, veiculado na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, depois vertido em quadro, quando o programa foi para a TV.
Nele, um disco era tocado e, se ele pronunciasse essa frase, era uma sentença de morte musical. Após a interrupção, Flávio espinafrava a música e arrebentava o disco. Na época, os discos ainda eram de acetato, pesados e duros, o que fazia com que se quebrassem em vários pedaços.
Atualmente, quem fizer isso seguramente será processado e objeto de “lacrações” e “cancelamentos”.
É difícil administrar o tempo em programas ao vivo, tantos são os imprevistos e imponderáveis. Os diretores de TV devem sofrer bastante.
Mas houve uma vez, quando o “Programa Flávio Cavalcanti” era veiculado na TV Tupi, que ocorreu algo inusitado.
Eu devia ter uns treze anos e a professora de Música da escola pública onde eu estudava nos apresentou a obras eruditas, nos levando para assistir a concertos gratuitos, sempre que ocorriam em Santos.
Vi extasiado uma apresentação da OSESP no ginásio do Clube Vasco da Gama e um concerto da pianista Eudóxia de Barros no Clube Sírio-Libanês.
Flávio, no final do programa, chamou um jovem violoncelista, pedindo desculpas pelo adiantado da hora. O rapaz passou a tocar maravilhosamente, com os créditos de encerramento já passando na tela, dando a entender que poderiam “cortar” a qualquer momento.
Felizmente, parece que Flávio deve ter dito “Um instante, Diretor”, pois os créditos terminaram, mas a transmissão continuou até o solista concluir, seguido de aplausos entusiásticos!
Algumas mídias afirmam tocar o que o povo quer, sem dar opções. Lembro de um “rapper” afirmar que música clássica era muito “chata”, como se seu “estilo musical” fosse o máximo e ele um gênio.
Instrumentistas e cantores que passam anos se aperfeiçoando em tocar seus instrumentos e modular suas vozes hoje são preteridos em favor de letras pavorosas e perniciosas, percussões que parecem feitas em tampas de latas de lixo e teclados tocados com um dedo só. A massificação é tamanha que pais não se importam que elas sejam tocadas em festas infantis!
Por isso iniciativas como “Candlelight” merecem ser aplaudidas de pé.
São eventos pagos, embora não muito caros, que atraem públicos de todas as idades, transitando entre o clássico e o popular com desenvoltura e qualidade, reunindo instrumentistas competentes.
Deveriam ser gratuitos como os que eu assisti na adolescência, os quais me “contaminaram”, ampliando meu espectro musical. Vários de meus colegas de escola foram aprender a tocar instrumentos musicais em cursos da prefeitura, também gratuitos, por conta dessa “iniciação”.
E que ninguém diga que aprender a fazer música de boa qualidade é coisa de elite, pois do mesmo lugar onde ocorrem “pancadões”, normalmente associados ao crime organizado, num passado não muito distante saíram grandes compositores, músicos e músicas que hoje fazem parte da história da boa arte brasileira!
A Lei Rouanet e outros incentivos fiscais deveriam ser destinados a isso, e não a produções de artistas famosos, que ainda cobram ingressos caríssimos.
Não se pode confundir cultura de massa com massificação de cultura!
É preciso dar opções culturais e não seguir “tendências” de qualidade e consequências duvidosas, além de temerárias.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras







