PERDA DA GRAÇA

Terrence Malick é um diretor, roteirista e produtor de cinema dos EUA.
Seus filmes geralmente têm poucos diálogos, imagens poderosas e um experimentalismo que às vezes beira à perda do “fio da meada”, como foi o caso de “Cinzas do Paraíso”, quando precisou de ajuda de Sam Shepard, ator do filme e dramaturgo, para concluir o roteiro.
Outra característica sua é incluir frases em “off”, algumas recorrentes em mais de um filme.
Uma delas é “Quando foi que perdemos a graça?”.
Eu o considero um “filósofo das imagens”, pois muitas delas dispensam textos, tal a força dramática, autoexplicativa que têm, quase sempre com mensagens pacifistas.
“A Árvore da Vida” está carregada dessas imagens e mensagens, num roteiro que é meio “sem pé nem cabeça”, misturando pré-história com os dilemas de uma família convencional do interior dos EUA. A compaixão está presente até num dinossauro predador, que poupa uma vítima indefesa.
Esse filme, aliás, foi o único que conseguiu me desestabilizar emocionalmente, enquanto outros, no cinema, bradavam: “Quero meu dinheiro de volta!” ou “Ter ganho a Palma de Ouro não quer dizer nada!”.
Embora errático, às vezes passando anos sem filmar, Terrence consegue atrair atores consagrados em suas produções, que às vezes são como um “Bolero de Ravel”, repetições de frases em contextos e cenários diferentes. Além disso, parece que ele começa seus filmes com uma ideia que vai sendo evoluída e até alterada ao longo da produção.
E a frase “Quando foi que perdemos a graça?” ocorre várias vezes, como se ele próprio tentasse obter uma resposta plausível. Ele ainda tenta, mas parece que muitos deixaram de se preocupar com isso. Nesse sentido, talvez sua intenção seja fazer quem assista a seus filmes também refletir sobre isso.
Afinal, vivemos tempos de destruição de valores, egoísmo, hedonismo e alienação, ao mesmo tempo que alguns tentam se aproveitar dessa pretensa liberdade sem limites, inconsequente, camuflando interesses hegemônicos. Tempos em que o pretenso despertar não passa de um entorpecimento que distrai das reais intenções, uma “viagem lisérgica” que pode ser sem volta.
“Quando foi que perdemos a graça?”
Será que foi quando seres humanos renunciaram ao pensamento lógico, ao livre-arbítrio, para aceitarem fazer parte de grupos que dividem a humanidade, querendo impor suas crenças como as únicas permitidas?
Será que foi quando pais deixaram de criar seus filhos para os entregarem a doutrinadores?
Será que foi quando a vida deixou de ter valor em nome do valor que se dá a desejos, conceitos e opiniões oportunistas ou convenientes?
Foi quando a fé virou ópio do povo, substituída pelo culto à personalidade de humanos falíveis?
A graça de que Terrence fala provavelmente é o que nos torna divinos, partes da natureza em todos os seus aspectos, inclusive nas relações humanas.
Distante da mitologia grega ou da comédia, a graça é entendida como uma dádiva, algo que se recebe de forma gratuita, um presente que não pode ser desprezado ou aviltado. Só que alguns passaram a rejeitá-la em nome de secularidades pagas ou cobradas, em troca da perda da liberdade de raciocinar e de aceitar o contraditório, num mundo que se diz globalizado, em que paradoxalmente cada vez mais “tribos” proliferam, estanques ou expansionistas.
A cena final de “A Árvore da Vida” remete a essa graça compartilhada de pessoas e espíritos que se encontram e se abraçam mesmo sem se conhecerem.
Ela é utópica considerando os tempos atuais, em que tudo tem sido motivo para discórdia, radicalismos e contendas.
Nem todos têm paciência para assistir aos filmes de Terrence Malick, geralmente lentos e longos. No entanto, vale repetir mais uma vez: “Quando foi que perdemos a graça?”
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras







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