SEM LOUCURA, É MUITA MALUQUICE!

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]

SEM LOUCURA, É MUITA MALUQUICE!

Por Zeh Gustavo

Eu sei, nem deu tempo de você ler direito a primeira coluna e me mandar pra outro lugar. Ou pr’aquele lugar! Acontece que a porcaria de um pedófilo narcisista escroto do cacete resolveu pegar as armas e o tesão em petróleo do seu decadente império – que desde o nome já tá todo errado, pois eles não são lá unidos de toda a América nenhuma, como se autoarrogam – e (mandar) invadir a nossa vizinha Venezuela, sequestrar seu presidente Maduro e Cilia Flores, ameaçar outros vizinhos, tocar enfim o rebu.

Isso tudo na cabeceira do ano. Querem guerra? Então voltei!

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Mas, como sempre… sem perder a ternura jamais!

O amor é improvável, mas acontece, tudo na vida acontece, dizia Cartola em sua canção (sua) preferida. E o amor é parceirinho da revolução. Então vou de Cilia: autointitulada primeira-combatente – um gesto para rasgar o protocolo machista da convenção assistente de marido manda-chuva, a que tradicionalmente se relega a condição de primeira-dama –, de longa militância, a companheira de Maduro foi advogada de Chávez quando ele foi preso, ainda em 1992 e, com forte capacidade de articulação política, tornou-se deputada em 2000 e, depois, a primeira mulher a presidir a Assembleia Nacional Venezuelana (2006-2011).

Pois bem: Cilia Flores não deixou levarem Nicolás Maduro sem ela. Mandou o Vai ter que me levar junto! e, obviamente, deu aquela quebrada no roteiro do covarde assalto trumpista.

A primeira-dama da Venezuela, Cilia Flores. Foto: Divulgação

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Eu adoro nhoque. Mas só como massa: espaguete, talharim, penne, gravatinha. E molenga, se desfazendo, grudezila. Então, como disse, adoro nhoque mas sou eclético e topo tudo que é massa, e só massa, e a-do-rô aquele macarrãozinho servido no molho pomarola, sabor natural azia, por cima um queijinho ralado que faz cosquinha no céu da boca. Hum, nham nham nham!

Daí, digo que sou eclético, porque afinal gosto de um monte de massa. Se você me julga por isso, é elitista, porque gosto é gosto. E o meu é esse aí – por que você não aprende a respeitar? Cada um tem o seu! Que nem bunda. Por falar nisso: e o cheirinho de bunda do queijo ralado-cosquinha? Diliuça!

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Escrevi no fatídico 3 de janeiro: “O mínimo – sim, o mínimo! – cenário bélico após o golpe de Estado aplicado por Trump na Venezuela é de uma nova Guerra Fria, e com a América Latina como um dos epicentros. Lula e o Brasil não têm opção senão se organizar pra ontem, inclusive militarmente. As fronteiras não estão ‘normais’, como disse o ministro da Defesa. E o mundo está mais para uma III Guerra Mundial que para qualquer normalidade”.

Fecho esta coluna em 9 de janeiro, e os EUA já apreenderam – ou não! – o petroleiro venezuelano Bella 1, sob bandeira da Rússia, que disse, por sua vez, ter enviado submarino e navios de guerra para escoltá-lo. Trump já disse que vai atacar o México e quem mais quiser (é narcotráfico, é tudo narcotráfico!) por terra, e seu arremedo de polícia secreta, que tem por nome ICE e por mote o controle de imigração, executou à luz do dia uma cidadã estadunidense. Por sua feita, Putin tacou um míssil balístico intercontinental – isto seja, com capacidade nuclear, nunca usado até hoje em uma guerra – na Ucrânia, ali do lado, só para demonstrar poderio militar. E tem a China. Se exagerei, foi mal aí.

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Ela era a primeira leitora da minha coluna mensal de ombudsman, espécie de atividade-sonho que realizei durante mandato de um aninho no jornal de literatura RelevO e que serve de inspiração para esta coluna na P@rtes. Ela, a melhor, a derradeira namorada falava, com aquele sorriso simplesmente sexy (ai, a saudade!), os olhinhos brilhando e desexplicando os mistérios do mundo (ai, o amor!): Você é com-ple-ta-men-te maluco! Ah, e dá uma olhada nisto que você escreveu… Daí eu, às vezes, maneirava os modos, aqui e acolá, até mesmo antes do envio, já pensando nela como dedicada leitora. Tudo em nome da elegância, do estilo, claro – jamais da compostura! Pois agora eu tô ainda mais sem freio, Giba, se cuida! Ou bate um fio e pede pra minha Pagu voltar — esta coluna, assim como a vida, teria, assim, muito mais sentido.

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Link, assumidamente oportunista, a se fazer com a coluna anterior – e para vocês irem me conhecendo melhor, para não se apegarem muito: Cilia e Maduro, Maduro e Cilia. Se o relacionamento deles fosse aberto, se eles só ficassem, se não quisessem rótulos… Vocês acham que ela ia mandar na lata o só levam ele se eu for junto?!

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AAgora, troque massa por música. Se você também acha que gosto eclético é variar
entre piseiro e pagonejo, com uma passadinha pelo maravilho universo do trap
(confesso meu raso vocabulário a respeito da world music!), que João Gomes merece
mesmo ser tratado como o novo Jackson do Pandeiro, que Os Garotin (honestidade,
que porra de nome de grupo é esse, na boa?!) são uma uva e Anitta, uma gênia, se
você posa de eclético com esse repertório aí, cara, você pode a-do-rar nhoque, mas

só come massa. Ecletismo de plataforma de mercado?! Assim você levanta o Tinhorão
da tumba!


Sobre as fronteiras, entendo a preocupação do governo brasileiro em demonstrar
tranquilidade. Mas a própria Venezuela chegou a fechá-la. E, fato, não existe mais
normalidade, e qualquer estado aparente disso soa enganoso e pode ser traiçoeiro.
Óbvio que a coisa toda pode ainda ser contida, em sua escalada, que haverá um jogo
de avanços e recuos, e que os alertas, as análises, os bocejos cansados, cada
bandeirola ianque queimada em protesto agem, justo, para que haja essa contenção
de danos. Mas, assim como as estrelas, a paz, alguma possível paz, não cai do céu.
O mundo como o conhecemos – este, sem dúvida, já era, já foi. O que virá pede
estudo dos movimentos, na linha do vate Sérgio Ricardo: “Olho aberto, ouvido atento e
a cabeça no lugar”. Desde a casa. E pela rua, chuva, fazenda, casinha de sapê,
alvorada lá no morro que beleza…


Mesmo assim, fiquei pensando… Que a gente devia viajar. E fazer um álbum de
fotografias pra depois queimar. Queimar! Tudo está indo tão depressa. Embora eu não
saiba dizer mais nada.
Como tu jards falta, Macala!

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Em outro trabalho semiescravo prestado voluntariamente (há controvérsias!) ao Zucka, falei da lacaia galerinha do PiG (Partido da Imprensa Golpista – que falta você faz, PH Amorim! –, mas que também poderia ser algo do tipo pequena imprensa grande): “DITADOR venezuelano Nicolás Maduro ataca os EUA, sequestra PRESIDENTE americano Donald Trump, dá um golpe de Estado e se apossa das reservas de petróleo e da ‘administração’ do país. Eis a única realidade que justificaria os respectivos usos dos termos ‘ditador’ e ‘presidente’. Mas essa não é a realidade, não é mesmo, imprensa brasileira?”.

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Eu sei que é loucura discutir gosto hoje, discutir gosto em tempos de quase guerra, em tempos de precariado exausto, em meio a uma rotina de hiperconexão dessensibilizante. Como é loucura fazer canções, poemas, quando se arroga o tal do gosto para justificar a adesão auricular e afetiva a qualquer massaroca gritada pelo sonzão do DJ no rolê pulante; e quando até gente dita progressista arrota com orgulho o tal do Eu não gosto de poesia! (vergonha alheia, minha gente!).

É loucura, também, alguém, em sã consciência, ainda usar ponto-e-vírgula e interrogação com exclamação junto, variar a prosódia, publicar textão (!) na redessoci, gravar discos de 12 faixas, ouvir música instrumental. É loucura enaltecer a derradeira namorada numa coluna mensal que ninguém – nem ela – vai ler. É loucura não quebrar a tevê na hora que o Fantástico presta assessoria de imprensa pro Trump, fazendo isso parecer jornalismo. E não beber todo santo dia pra suportar toda essa merda. Mas, sem loucura, aí sim é muita maluquice.

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Sim, Tinhorão, o elitista marxista Zé Ramos. E pulei o Pedrosa, nem buli com Gullar, deus-nos-livre do esporro da Heliodora… A loucura de se ter e ler a crítica do estado da arte num jornal diário, impresso, com a arte não tratada como sinônimo de entretenimento. A loucura de pensar nossa cultura, em tese. A loucura de sentir – esta peste!

José Ramos Tinhorão – foto Rovena Rosa / Agência Brasil

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Paz é construção diante das dificuldades, jamais silenciamento e tomada de distância diante da urgência de enfrentá-las. Não há espaço, nem tempo, para o autoengano. A roda gira e, numa curva destas da história, quando a vida pede penico, a conta da dor chega depois, bem mais salgada.

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Ô, minha vizinha! Como a gente costuma dizer no samba: tamo junto! Nossa bandeira jamais será laranja.

Zeh Gustavo, carioca, filósofo do cotidiano foucaltiano é sambista de rua, compositor, escritor, revisor. Publicou, entre outros, os livros Uma vírgula no findomundo, Contrarresiliente e Eu algum na multidão de motocicletas verdes agonizantes (vencedor do Prêmio Lima Barreto, da Academia Carioca de Letras) e co-organizou, com Rafael Maieiro, a coletânea poética “Jumento com Faixa: deboches e antiodes ao fascismo“, do qual Zeh é também um dos autores. Na cantoria, fez parte, como cantador, de grupos como o Terreiro de Breque, Cordão do Prata Preta, Samba da Saúde e Banda da Conceição e hoje atua solo como intérprete em Cuidado, Zehzeira!, seu primeiro álbum, de que fazem parte a autoral “Mignon com queijo magro” e a regravação de “Beto bom de bola”, de Sérgio Ricardo. Em 2021, fez a produção fonográfica e cantou em duas faixas do álbum musical “Raiz e folha: o cancioneiro de Zeh Gustavo”, gravado pela cantora baiana Kell Santos inteiramente com composições de Zeh.

https://immub.org/album/cuidado-zehzeira

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