UM IANQUE NA CORTE DO REI ARTHUR

Mark Twain (1835-1910) não foi um autor de ficção científica. Essa especialidade foi marcante nas obras de alguns de seus contemporâneos, como Jules Verne (1828-1905), H. G. Wells (1866-1946) e Mary Shelley (1797-1851), que brilhantemente os antecedeu.

As obras de Twain têm como cenário os EUA, com algumas exceções, caso de “O Príncipe e o Mendigo” (1881), que fantasia sobre a vida de Eduardo VI, filho de Henrique VIII. As aventuras e desventuras do príncipe e seu sósia plebeu talvez sejam um dos temas mais copiados posteriormente.

Tempos depois meu pai me deu outro livro de Twain: “Um Ianque na Corte do Rei Arthur” (1889), obra publicada bem antes de “A Máquina do Tempo” (1895), de H. G. Wells.

A “máquina do tempo” de Hank Morgan, engenheiro do século XIX, protagonista da obra, é uma pancada na cabeça, que o faz acordar nos tempos do Rei Arthur.

Ele passou a fazer suas “mágicas” de engenheiro, incomodando até o Mago Merlins, além de questionar o regime monárquico, o feudalismo, o conformismo e o fanatismo. Suas obras buscavam melhorar a qualidade de vida das pessoas, sem distinção, mas isso contrariou o status quo.

Um novo trauma fístico o trouxe de volta ao século XIX, dando a impressão de que tudo fora um sonho. Mas evidências mostraram que não.

Twain desconhecia a Teoria da Relatividade e os paradoxos temporais, além de que uma obra de ficção permite liberdades criativas.

Essas e outras obras, clássicos nacionais e mundiais, ajudaram a moldar minha forma de pensar e agir, livrando-me do risco da doutrinação. Passei a buscar sempre mais de uma fonte de informação, a comparar manifestos panfletários com práticas, a avaliar o resultado de revoluções, a entender que há tradições que merecem ser mantidas e “inovações” que são retrocessos rançosos, que a liberdade que alguns maliciosamente pregam, em verdade, é uma forma de escravização, e que a igualdade que propõem não passa de um “ópio” para obterem poder.

A frase “Vai ler!”, muito usada por alguns intelectuais arrogantes, faz sentido, sobretudo num tempo em que “influenciadores” e artistas são seguidos e idolatrados por milhares de jovens, que não verificam suas informações, apenas acreditando no que ouvem, sem questionar.

A leitura deve ser livre, pois ler, ouvir e ver apenas o que é “autorizado” também é uma forma de doutrinação.

Aprendi que é preciso voltar no tempo, não para mudá-lo, mas para entendê-lo e, na medida do possível, não repetir erros, que quase sempre há prós e contras.

Tive muita sorte de ter pais que me deram valores que preservo e livros que me encantaram tanto quanto me fizeram racionar e identificar mistificadores, segundas intenções e “falsos profetas”. Pais que tiveram origem humilde e formação acadêmica básica, mas nos incentivaram a estudar, trabalhar e merecer na medida de seu empenho pessoal. Pais que não terceirizaram nossa educação!

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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