“PSICOLOGIA” CONVENIENTE

Analisar o caráter das pessoas é uma tarefa difícil. A própria Bíblia exorta para que não julguemos, para não sermos julgados.
De fato, o ser humano é de uma tal complexidade e imprevisibilidade que é quase impossível definir e padronizar o comportamento de cada um, a não ser nos casos patológicos graves. E mesmo assim, cada caso é um caso. Isso não impede, no entanto, que alguns tentem fazê-lo em benefício próprio, no cotidiano.
As alternativas práticas para tanto incluem a doutrinação precoce ou a classificação “por conveniência”. A primeira é responsável pela formação de legiões de fanáticos de vários tipos e com vários objetivos; já a segunda cria um estado ilusório no qual o “classificador” cria, ou acredita criar, um mundo sob seu controle, em que ele é o paradigma.
Teoricamente, em ambos os casos, se o semelhante for totalmente previsível, isso se constituirá num inestimável “trunfo de mercado”! Mas, francamente, é de uma inocência patética ou oportunismo maldoso acreditar que as pessoas são como nós queremos que sejam, e não como realmente são. Pior que isso é afirmar isso perante elas, ou constrangê-las a acreditarem nisso, com argumentos esdrúxulos e agressivos!
O curioso é que essa forma simplista e radical de “analisar” o caráter de indivíduos só vale para uso externo; afinal, é muito reconfortante acreditar que as pessoas são como as definimos, com os defeitos e virtudes que lhes atribuímos, muitos deles nossos, na verdade. Esse é outro “trunfo” desse tipo de “juiz”. Eu mudei, mas eu te conheço!”, seria sua frase emblemática.
Ocorre que mudar é um processo inerente ao ser humano. Regredir, estagnar ou evoluir são opções livres do indivíduo, ou, pelo menos, deveriam ser. “
“Não julgar para não ser julgado” não é uma proibição, mas um alerta para que paixões e conveniências não ofusquem o discernimento. Julgar, aliás, é inerente à racionalidade, pois nossas vidas dependem de julgamentos pessoais ou de terceiros. Se houvesse uma proibição, deveria ser: não enganar, não apenas para não ser enganado, mas para também não se enganar.
O grande desafio é evitar que o egocentrismo nos coloque na condição pessoalmente conveniente de assumirmos sucessos e transferirmos fracassos; sermos autoindulgentes com práticas passadas e presentes, mas críticos implacáveis quando nos sentimos ofendidos pelo mesmo tipo de ato.
É claro que seria muito simples e fácil viver num mundo que fosse exatamente o que definíssemos para ele, mas fica um pouco difícil equacionar esse “paraíso” com tantos bilhões de “juízes” querendo o mesmo. Isso, no entanto, não impede que alguns continuem a criar seus mundos “perfeitos”, nos quais seus “méritos” são inquestionáveis, suas vidas são “exemplos” de virtude e sucesso, e os erros e culpas são sempre dos outros. Não importa que nada do que arbitram corresponda à realidade. O que vale para eles é que isso seja psicologicamente agradável, reconfortante, enobrecedor, em suma: conveniente!
“Espelho, espelho meu…”.
Mas, de que adianta ficar diante do espelho quando, em vez de enxergar o que ele mostra, o que se espera é que ele nos diga o que queremos, ou que mostre uma representação “ideal” de nós mesmos?
Bem, fotos retocadas, produção estética e publicitária e um “entourage” bem pago ou submisso podem fazer esse efeito; mas só para quem não conhece o “modelo” pessoalmente: “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras







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