A SOLIDÃO QUE ENCONTROU UM CULPADO
Ninguém é mais arrogante, agressivo e desdenhoso na frente das mulheres do que os homens que não têm certeza de sua masculinidade.
Simone de Beauvoir
Por Margarete Hülsendeger
Há uma solidão masculina que merece análise, não absolvição.

Ela não se resume a morar sozinho, não ter namorada ou passar a sexta-feira sem mensagens. É algo mais profundo, escondido atrás de piadas, excesso de trabalho, pornografia, raiva ou silêncio. Desde cedo, muitos homens ouvem que menino não chora, que homem tem que ser forte, que pedir ajuda é vergonha e que falar de medo é fraqueza. Mais tarde, aprendem a esconder a própria dor, a insegurança e até a vontade de receber afeto. O problema começa quando essa dor vira raiva e procura um alvo.
Essa solidão existe e precisa ser levada a sério. Mas levá-la a sério não é transformá-la em desculpa. Há homens que não aprenderam a construir amizades profundas, lidar com o fim de uma relação ou ouvir um “não” sem se sentirem humilhados. Foram ensinados a medir o próprio valor pelo sucesso, pelo dinheiro e pelo desempenho sexual. Quando esse ideal desmorona, muitos procuram alguém a quem culpar.
Espera-se que o homem seja provedor, confiante, racional, competitivo e sempre no controle. Por isso, quando mulheres estudam, trabalham, escolhem, terminam relacionamentos e recusam submissão, alguns homens passam a enxergar a igualdade como ameaça. Não porque tenham perdido direitos, mas porque perderam privilégios que antes pareciam naturais. É nesse terreno que certos grupos crescem.
Na internet, comunidades e influenciadores capturam homens frustrados oferecendo respostas simples para dores complexas. Dizem ao homem solitário que o problema não está na falta de educação emocional, na dificuldade de se relacionar ou numa sociedade que mutila os afetos masculinos. Dizem outra coisa: a culpa é do feminismo, das leis que protegem mulheres, das namoradas, das mulheres que escolhem demais, rejeitam demais, exigem demais.
Entre esses grupos aparecem nomes conhecidos: incels, que culpam mulheres por sua solidão sexual ou afetiva; red pill, que prometem revelar uma suposta “verdade escondida” sobre relacionamentos; MGTOW, que defendem o afastamento das mulheres, muitas vezes com desprezo. Há ainda grupos que tratam as mulheres como alvos, prêmios ou objetos de conquista. Como resultado, um rapaz sozinho, inseguro ou rejeitado entra num fórum, assiste a vídeos e sente que finalmente encontrou uma explicação. Não precisa olhar para seus medos nem para sua forma de se relacionar. Há um culpado pronto lhe esperando: a mulher. A partir daí, a solidão deixa de ser dor e transforma-se em raiva.
A mulher passa, então, a ser vista como interesseira, falsa, manipuladora, ingrata ou perigosa. A que termina vira traidora. A que recusa vira arrogante. A que denuncia vira mentirosa. A que exige respeito vira inimiga. É assim que a misoginia cresce: pela repetição diária de pequenas desumanizações. Um meme, uma piada, um conselho para “colocar a mulher no lugar dela” e, aos poucos, relações viram guerra, amar vira perder poder, confiar vira ingenuidade e respeitar vira fraqueza.

A violência contra a mulher não começa necessariamente no tapa. Muitas vezes começa antes, na ideia de que ela deve obediência. Na crença de que o homem tem direito ao corpo, ao tempo, à atenção e à permanência dela. Ninguém agride com facilidade alguém que reconhece como pessoa. Quando uma mulher passa a ser vista como propriedade, a violência encontra menos barreiras. Pode aparecer como humilhação, controle, perseguição, ameaça, exposição íntima, agressão física ou feminicídio.
Por isso, falar da solidão masculina é necessário para impedir que ela seja sequestrada por quem lucra com o ódio. Um homem solitário precisa de escuta, vínculos reais, responsabilidade afetiva, não de um guru dizendo que toda mulher é inimiga. É importante que eles entendam que vulnerabilidade não é derrota, que rejeição não autoriza vingança e que o fim de um relacionamento não dá a ninguém o direito de destruir a vida de outra pessoa.
A solidão masculina merece cuidado. Mas, quando escolhe uma mulher como culpada, deixa de ser apenas tristeza. Vira risco.







