SIMPLIFICAR OU EXPLICAR?

Existem palavras e expressões utilizadas por certos setores especializados, que o público em geral não tem obrigação de conhecer. No entanto, quando esse público é chamado a participar de eventos ou ações desses setores, é importante esclarecer seus significados, para que não haja mal-entendidos ou falta de atratividade efetiva.
Isso não significa que palavras e expressões sejam consideradas anacrônicas ou em desuso, a ponto de algumas “inteligências raras” proporem que sejam simplificadas, substituídas ou suprimidas.
Lembro de propostas de mudança no Hino Nacional, por achar que certas palavras não são usuais. Provavelmente são as mesmas pessoas que levaram a retrocessos travestidos de “progressismo”, como a progressão continuada nas escolas públicas e o discurso de que corrigir um estudante ou cobrar desempenho é uma forma de constrangimento ou opressão. Também devem ser as mesmas que, para agradar ou conquistar adeptos às suas crenças, defendem que funks ou raps cheios de erros, com mensagens de violência, incentivo à promiscuidade e apologia a crimes e drogas, têm “licença poética” (liberdade criativa que permite a escritores e artistas quebrar ou flexibilizar regras gramaticais e ortográficas, com o objetivo de expressar emoções, manter o ritmo, melhorar a rima ou criar efeitos estilísticos).
O curioso é que isso ocorre no ensino, mas não nos esportes. Parece que exercitar os músculos é mais importante do que o cérebro.
No terceiro ano do Colegial Técnico, tive um professor de Português com quem aprendi mais sobre nosso idioma do que nos dez anos pregressos. Ele nos explicou sobre a linguagem coloquial (estilo de comunicação informal e espontâneo do dia a dia, usado em conversas com amigos ou familiares, que também inclui gírias) e a culta de forma objetiva e, em alguns casos, científica.
Ficou claro que existia uma enorme diferença entre ignorância, que se corrige com a consulta a um dicionário; burrice ou estupidez, características de quem não quer aprender, exigindo que o mundo se adapte às suas limitações e comodismos; e a arrogância dos que usam da cultura para menosprezar ou humilhar o próximo.
Não faltam “doutores” e “pós-doutores” em irracionalidade, formando exércitos de militantes ideológicos radicais, intolerantes e, até, violentos. São esses “educadores” que propõem a simplificação, a relativização e o pensamento único, hegemônico, insofismável, como forma maliciosa de ampliar sua massa de manobra e poder secular. São os novos “doutores da lei”, como os dos tempos bíblicos, fariseus.
Em tese, uma palavra ou expressão só cai em desuso quando o que a definiu também deixou de existir. Cai em desuso, mas permanece no dicionário.
Já no que se refere às palavras e expressões que compõem os jargões de certos setores, quando usadas em outros ambientes, precisam ser explicadas. Isso, no mínimo, contribuirá para o enriquecimento do vocabulário de quem ouve ou lê, além de proporcionar “ferramentas” úteis para não ser “enrolado” por alguns interlocutores. Caso não haja a necessária explicação, a internet disponibiliza dicionários que permitem acesso em tempo real, inclusive por telefones celulares.
Palavras e expressões de conhecimento e uso restrito também existem fora do ambiente profissional ou ideológico, constituindo parte do dialeto de certas “tribos” e organizações fechadas.
No geral, ditas ou escritas, alguns leigos ou doutrinados podem entendê-las erroneamente, gerando reações imprevisíveis. No caso de radicais, mal-intencionados, patrulhadores de plantão e vitimistas, elas podem servir para obter exposição midiática e/ou cumplicidade do ativismo judicial, para punir seus autores ou obter ou justificar vantagens.
O problema não está na parte do ditado que afirma que a palavra lançada não tem volta. Pode não ter, mas o problema também está na intencionalidade ou ignorância de quem a apanha ou se sente atingido por ela.
Aprender é muito mais útil e inteligente do que clamar pela simplificação, lembrando que viver é um aprendizado que extrapola a formação acadêmica. Isso vale para quem foi aluno ou é professor, cada um com suas responsabilidades, equilibrando direitos, deveres, civilidade e empatia (capacidade psicológica e emocional de se colocar no lugar do outro, buscando compreender seus sentimentos, dores e perspectivas).
É fato que, além dos “cultos” arrogantes, que buscam compensação, idolatria ou plateia, e não contribuir para a evolução do próximo, também existem profissões que usam expressões que os leigos não conseguem entender, até como forma de elitização e reserva de mercado. Há quem use disso como forma de iludir e explorar incautos.
O letramento (conjunto de habilidades, atitudes e práticas sociais que envolvem o uso da leitura e da escrita) é parte desse processo de “libertação”, de autonomia intelectual para confrontar a arrogância e as frases feitas do tipo “vai ler antes de falar comigo”. Ou seja, é fundamental instrumento da dialética (método filosófico de investigação que busca a compreensão da realidade e a evolução do conhecimento por meio do confronto, da contraposição e da resolução de ideias ou forças opostas).
Quando eu lecionava em cursos de Engenharia e Arquitetura, eu tinha por hábito, ao falar um termo técnico ou uma palavra ou expressão menos usual, usar sinônimos ou explicar seu sentido. Além disso, até em função das leituras de clássicos e textos técnicos desde a infância, me acostumei a consultar dicionários. Ao fazer meu mestrado, eu já sabia da importância de consultar mais de uma fonte, pois quem segue apenas uma corre o sério risco de ter seu tirocínio (significa experiência prática, discernimento e a capacidade de observar e analisar situações com perspicácia). Antes disso, eu também já conhecia um pouco sobre etimologia (estudo da origem, da história e da evolução das palavras), pois nosso vocabulário possui derivadas de “línguas mortas”, como o latim e o grego. Algumas dessas palavras e expressões foram incorporadas “ipsis litteris” (com as mesmas letras ou nas mesmas palavras), além de anglicismos (uso de palavras, expressões, regras gramaticais ou estruturas da língua inglesa em outro idioma), galicismos (idem em relação ao francês), também incluindo idiomas e dialetos africanos, entre outros.
Alguns setores utilizam expressões estrangeiras até quando existem equivalentes em português, o que também vale para a linguagem coloquial e midiática, com ou sem aspas.
O curioso é que vivemos um tempo em que novas palavras e expressões têm sido criadas ou tendo seu sentido subvertido para atender aos interesses de certas ideologias. Elas são rapidamente incorporadas por seus seguidores e adotadas em discursos “de cartilha” e palavras de ordem, contrapostas a qualquer tentativa de dialética.
Para quem não entendeu alguma das palavras e expressões aqui utilizadas, recomendo o uso de um ou mais dicionários, desde que não sejam contaminados por ideologias radicais.
Além disso, é importante conhecer o sentido de palavras e expressões para utilizá-las corretamente, e não se intimidar perante interlocutores que usam delas para humilhar ou calar quem se atreve a contestar sua ascendência sobre os simples mortais. Um tapa com luva de película pode ser muito mais objetivo do que vias de fato (atos de agressão física que não resultam em lesões corporais: marcas, cortes ou hematomas).
Cultura e inteligência sem humildade e bom senso têm pouca relevância sobre o bem comum. É preciso que sejam acompanhadas de sabedoria (capacidade de aplicar o conhecimento, a experiência e o discernimento com prudência, sensatez e equilíbrio).
Simplificar é ótimo para agilizar processos e reduzir custos, desde que isso não comprometa a qualidade do que é produzido ou realizado. Porém, em outras situações, pode ser um retrocesso extremamente prejudicial ao desenvolvimento do ser humano ou atingimento da eficácia desejada, limitando-o a quem detém poder.
Explicar dá trabalho e, no caso dos culturalmente esnobes e estupidamente poderosos, pode tirar-lhes a relevância e excelência que se autoatribuem. Mas é assim que a humanidade evolui!
No caso do presente texto, caso haja palavras e/ou expressões desconhecidas, vale a mesma recomendação: consultar dicionários e entender os contextos, pois pode haver mais de um sentido.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras







