CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
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“A ciência é o motor da prosperidade” é a frase que sublima a tese do Dr. Michio Kaku, físico teórico e futurista estadunidense.

Ele explica que essa prosperidade historicamente vem sob forma de “ondas”. E essas ondas não decorrem de revoluções, mas de evoluções baseadas em rupturas de paradigmas, sob forma de pensamento inovador, criativo.

Num debate, Dr. Michio questionou a chamada “revolução da informação”, discurso predominante em algumas áreas de conhecimento. Segundo ele, ela apresenta uma falha.

No caso dos EUA, essa falha está na má qualidade do sistema educacional, que ele considera “o pior concebido para a ciência”, agravado pela qualidade do que a mídia produz e divulga.

Sobre o sistema educacional, ele afirmou que o índice de burrice de seu país aumenta a cada ano, considerando a TV aberta e os “reality shows” como fatores agravantes.

Creio que já vi isso em algum outro lugar.

Suas manifestações podem parecer radicais, mas têm sua lógica, como diria o personagem Katnip, de um antigo desenho animado, numa época em que instigavam ao raciocínio, em vez de limitá-lo.

Dr. Michio questiona o motivo pelo qual, apesar desse contexto negativo, a ciência nos EUA não colapsou.

Em verdade, não é uma pergunta, mas o preâmbulo para discorrer sobre seu entendimento.

Ele afirma que esse colapso não ocorre graças ao visto especial dado para estudantes e pesquisadores estrangeiros. Ele o denomina “visto dos gênios”.

De fato, embora os EUA tenham um extenso rol de notáveis cientistas, grande parte dos expoentes das Ciências Exatas e Biomédicas no país eram e continuam a ser estrangeiros, muitos dos quais adotaram a terra de Tio Sam.

Não à toa, as pesquisas no âmbito de Física, Química, Matemática, Fisiologia e Medicina feitas nos EUA acumulam mais de 400 Prêmios Nobel, sem falar em outras premiações de renome internacional. Pesquisadores de países europeus e asiáticos vêm a seguir.

O Brasil não consta na lista de laureados, embora alguns cientistas brasileiros tenham contribuído significativamente em alguns setores. Ao que consta, apenas o biólogo Peter Medawar conquistou o Nobel de Medicina, em 1960. No entanto, embora tenha nascido no Brasil, renunciou à cidadania brasileira, adotando a britânica, aos 18 anos.

O Dr. Michio esclareceu que o Vale do Silício e várias empresas de tecnologia dos EUA existem e prosperaram graças a pesquisadores estrangeiros. Eles encontraram naquele país condições para desenvolverem seus projetos em instituições de excelência, como o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Além destes, os EUA dispõem de uma ampla rede de universidades e institutos de pesquisa de excelência, públicos e privados.

O problema não está nesse nível, mas na qualidade do ensino básico, que não prepara adequadamente seus alunos para o nível de exigência do Ensino Superior de ponta.

Nesse contexto, cerca de 50% dos candidatos à formação de PhD no país são estrangeiros. No instituto em que ele atua, esse percentual chega a 100%, segundo ele.

Nesse sentido, ele considera os EUA como um “ímã que suga todos os cérebros do mundo”.

A diferença é que, ao contrário de décadas passadas, a maioria desse contingente tem retornado aos países de origem, com ênfase na China e Índia, neles criando novos “vales do silício” e/ou contribuindo para elevar o nível de suas instituições de ensino e pesquisa. Em 2023, a China produziu algo como duas vezes mais patentes do que os EUA, registrando evolução de dois dígitos de seu PIB por seguidos anos. Graças a essa estratégia de desenvolvimento, a China transformou-se na segunda economia do mundo num relativamente curto espaço de tempo, com forte participação da indústria, respaldada por iniciativas de PD&I.

Como será o sistema educacional nesses países? Eles nivelam a formação ou identificam potenciais e investem em sua evolução.

A Coreia do Sul veio ao Brasil, nos anos de 1970, para conhecer o sistema educacional brasileiro de então.

Era um tempo em que tínhamos escolas públicas diferenciadas, bem equipadas, com professores e alunos submetidos a processos seletivos rigorosos. Os currículos escolares eram diversificados, com especial atenção para as disciplinas de português e matemática, além de música e mais de um idioma, normalmente francês e inglês.

O governo coreano adotou o modelo brasileiro e evoluiu vertiginosamente, transformando-se num dos “tigres asiáticos”, consciente de que a formação acadêmica de excelência é estratégica para seu desenvolvimento socioeconômico do país.

China, Índia e Coreia do Sul são exemplos de como a formação acadêmica e profissional voltada à excelência e investimentos de PD&I podem produzir, em curto e médio prazo, desenvolvimento socioeconômico, embora haja alguma ressalva no que se refere à responsabilidade ambiental.

Aqui, em 1992, a Prefeitura de São Paulo implantou a “progressão continuada” em sua rede de ensino, modelo que foi adotado nacionalmente a partir de 1996.

Não há regra sem exceção, mas as avaliações e o cotidiano têm demonstrado que o analfabetismo funcional e a dificuldade em fazer operações matemáticas básicas são preocupantes.

Esse modelo, embora baseado em conceitos de igualdade de oportunidades, demonstrou, por seus resultados práticos, que não contribuiu para o desenvolvimento pleno do potencial intelectual e vocacional dos alunos, o que só pode ocorrer quando há tratamento diferenciado e meritocracia.

Mas ninguém pode ser negligenciado. O sistema deve, ao menos, prover formação suficiente para que os egressos consigam atuar em profissões que assegurem sua evolução social.

Em nível universitário, é importante que a pesquisa científica esteja sintonizada com as demandas de mercado e sem contaminação de ideologias radicais, que considerem empreendedorismo e inovação como vilões sociais.

Vale lembrar que mesmo países que adotaram o comunismo como regime de governo único investiram pesadamente em PD&I, como forma de assegurar sua independência e soberania, embora os métodos empregados muitas vezes contrariassem os discursos políticos.

Por tudo isso, o Brasil precisa investir mais e melhor em iniciativas de PD&I.

Aos governos cabe criar condições atrativas para que a iniciativa privada invista nesse âmbito, mas não apenas como um recurso para isenções tributárias.

Onde não há interesse privado, também devem investir em projetos estratégicos, para os quais também precisarão da academia e da iniciativa privada.

O ideal é que os investimentos sejam destinados à solução de problemas e/ou desenvolvimento de processos e produtos inovadores. Eles devem favorecer a competitividade interna e externa, a segurança nacional e a redução de dependência de exportação de produtos de baixo valor agregado e da importação de produtos de alta tecnologia, sempre a um passo atrás de quem os criou.

Esses investimentos incluem bolsas de estudo para pesquisa, aquisição de equipamentos associados e intercâmbios nacionais e internacionais. Além disso, devem ser criadas condições ideais para que os “cérebros” atraídos pelos institutos de pesquisa de ponta estrangeiros retornem ao Brasil, para aqui aplicarem os conhecimentos adquiridos e desenvolverem plenamente seus potenciais, também contribuindo para a melhoria de nosso sistema educacional.

O Dr. Michio pode ter exagerado um pouco em sua argumentação. Porém, suas reflexões são importantes.

A informação, isoladamente, não revoluciona nada. Dependendo de quem domina a informação, também entendida como conhecimento, ela pode ser um instrumento de dominação, de submissão a interesses de poder, que não necessariamente favorecem a evolução pessoal, coletiva ou nacional.

A qualidade da informação deve ser questionada, pois não pode ser de uma única fonte ou insofismável.

Iniciativas de PD&I implicam sair de “zonas de conforto”, que nem sempre são confortáveis.

O Dr. Michio complementa sua tese, afirmando que países que não investirem em Ciências serão pobres no futuro. Pobres e submissos a interesses estrangeiros, seara ideal para regimes autoritários ou populistas e meros fornecedores de matérias-primas. Os que pouco ou nada investiram em PD&I já são, e seu futuro não parece promissor.

É certo que não existem verdades absolutas e que frases sintéticas carecem de complementos para serem adequadamente entendidas. Afinal, sínteses nem sempre fazem jus às centenas de páginas e anos de estudo que a embasaram!

No entanto, considerando a evolução da civilização, as Ciências inegavelmente têm sido o “motor da prosperidade”, quando aplicadas com critério, inovação e objetividade.

Adilson Luiz Gonçalves

Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras

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