COREOGRAFIA DA AUSÊNCIA
A solidão não é a distância entre nós e os outros, mas a distância entre quem somos e quem queremos ser.
Gabriel García Márquez

Por Margarete Hülsendeger
Entrei em Pequena coreografia do adeus[1] sem conhecer a escrita de Aline Bei e talvez por isso a experiência tenha sido ainda mais intensa. Eu não tinha expectativas nem uma ideia pronta do que encontraria. O que aconteceu foi um mergulho em uma narrativa que me causou estranhamento logo nas primeiras páginas e, ao mesmo tempo, me aproximou da vida de Julia, a protagonista, com uma força difícil de ignorar. Aos poucos, entendi que aquele modo incomum de contar a história não era apenas uma questão de estilo, mas parte da dor da personagem.
Julia cresce em uma casa marcada por frustrações, brigas e ausências, mas o que mais me atingiu foi a violência da mãe. A amargura dessa mulher não nasce da separação do marido. Ela já estava presente antes, entranhada na relação familiar e na forma como a mãe exercia a maternidade. A frustração com o casamento e com a vida recai sobre o corpo da filha, como se Julia precisasse carregar fisicamente tudo aquilo que a mãe não consegue elaborar. A violência, então, não aparece apenas como agressão física; também se manifesta na recusa do afeto, nas palavras duras, no abandono emocional e na infância interrompida.
A forma do texto foi um dos aspectos que mais me impressionaram. Em vários momentos, tive a sensação de estar lendo um poema atravessado por cortes, pausas e ecos. Outro ponto que chama atenção é a grafia de certas palavras, que parecem ganhar corpo e peso na página. Quando surgem em maiúscula termos como Silêncio, Mãe, Tempo, Cinta e Violência, elas deixam de ser apenas palavras e passam a funcionar quase como presenças esmagadoras na vida de Julia.
O contrário também acontece. Palavras pequenas, escritas em minúscula, como eu, quase sem, obedeci, produzem outro efeito. Elas parecem diminuir a personagem, como se sua voz encolhesse diante do medo e da opressão. No começo, essa escolha me causou estranhamento, mas depois fez muito sentido. O livro parece querer mostrar não só o que Julia vive, mas também o tamanho que cada experiência ocupa dentro dela.
Outro elemento muito forte é o diário de Julia. Nele, aparecem de forma crua as angústias de uma menina criada sem abraços, sem beijos e sem demonstrações de carinho. Julia precisa transformar em palavra aquilo que não encontra no convívio com os outros. O diário ocupa um lugar importante porque, ali, a dor não vem filtrada nem organizada; surge mais exposta, mais íntima, mais frágil. Esse recurso aproxima ainda mais o leitor da personagem, pois revela uma solidão que não é apenas circunstancial, mas formadora. Julia escreve porque precisa existir em algum lugar, já que tantas vezes parece não caber nem mesmo em sua própria casa.

A ideia da coreografia também ganha força quando pensamos no corpo da personagem. Julia tem uma relação difícil com o próprio corpo, que não encontra acolhimento, recebe violência e se torna lugar de frustração. Isso aparece de modo sensível quando ela se vê obrigada a abandonar o balé por sentir que seu corpo não serve para os movimentos ágeis exigidos. Assim, o balé, que poderia ser uma forma de expressão, de leveza e até de reencontro consigo mesma, acaba revelando o corpo como limite e inadequação. A coreografia do título, então, não fala apenas dos movimentos de aproximação e afastamento em relação aos pais. Fala também de um corpo mal resolvido e de uma personagem que tenta habitar a si mesma sem conseguir fazer isso sem dor.
O que mais fica depois da leitura é justamente essa mistura entre delicadeza e brutalidade. Aline Bei escreve sobre feridas profundas sem tornar a narrativa artificialmente pesada. Há muita dor no livro, mas há também um cuidado na linguagem que impede o sofrimento de virar excesso.
Pequena coreografia do adeus é um romance marcado por feridas que não desaparecem, pela infância como território de falta e pela difícil tentativa de construir uma identidade depois de crescer sem ternura. Foi uma leitura que me inquietou em vários momentos, não apenas pela história de Julia, mas pela forma como essa história é escrita no corpo, na página e no silêncio. Por isso, é um romance que vale ser lido com atenção, não apenas pela dor que apresenta, mas pela delicadeza com que a transforma em linguagem.
[1] BEI, Aline. Pequena coreografia do adeus. São Paulo: Companhia das letras, 2021.









