O livro, a leitura, o leitor: um triângulo amoroso (homenagem ao Dia do Livro – 23 de abril)

Rodrigo da Costa Araujo (UFF/FAFIMA)[1]

publicado em 23/04/2009

“Nós mudamos incessantemente. Mas se pode afirmar também que cada releitura de um livro e cada lembrança dessa releitura renovam o texto”. Jorge Luis Borges

“Todos os livros que li formam em mim uma espécie de biblioteca. Não está arrumada, os volumes não estão por ordem alfabética, não há catálogo. E no entanto trata-se disso, de uma memória em que se acumulam as minhas leituras – o que eu retive -, apesar de eu não saber exatamente o que ela contém, quais os livros que me marcaram”. Roland Barthes

     As epígrafes acima enriquecem, ainda que muito esquecidos na sociedade da imagem, o poder do livro, o poder da leitura. A primeira, de Jorge Luis Borges, remonta o poder da (re)leitura, os mecanismos que fazem latejar em nós a renovação, a colheita. A palavra ler vem do latim legere, portanto, ler e colher ao mesmo tempo.

     Como a biblioteca borgeana, a barthesiana não é diferente. Leitura, livro e memória se entrelaçam, acumulam e imbricam colheitas, constituem-se como atividades humanas essenciais: pensar, falar, ouvir, escrever e ler. Todas são a um só ato, conhecimento e reconhecimento do mundo e de nós mesmos.

     Ler para Roland Barthes é “reter, recolher – enriquecer a sua cultura como um capital [...]; é assimilar o texto e dele tomar posse” “Leitura (ou escrita) e tranfert são duas coisas delicadas de misturar”, diz ele. Partilhamos leituras pelo livro, “lê-se em conjunto, percebe-se que todas as bibliotecas íntimas têm uma zona de intersecção. Então é outra coisa: é o amor que nasce de uma leitura. Amo-te, gostando dos mesmos livros, gostamos um do outro no livro”.

A palavra livro traz no seu cerne muitas simbologias desde seu surgimento no mundo. Ainda nos revela, revelando-nos, liberta-nos, querendo ou não, da poeira da ignorância. Seria banal dizer que o livro é símbolo da ciência e da sabedoria; o que ele é efetivamente, por exemplo, na arte decorativa vietnamita ou na imagem ocidental do leão biblióforo.

O livro é, sobretudo, se passamos a um grau mais elevado, símbolo do universo: O Universo é um imenso livro, escreve Mohyddin Ibn-Arabi. A expressão Líber Mundi pertence também aos Rosa-Cruz. Mas o Livro da Vida do Apocalipse está no centro do Paraíso, onde se identifica com a árvore da Vida: as folhas da árvore, como os caracteres do livro, representam a totalidade dos seres, mas também a totalidade dos decretos divinos.

Os livros sibilinos eram consultados pelos romanos nas situações excepcionais: pensavam encontrar neles as respostas divinas para suas angústias. No Egito, o livro dos mortos é uma coletânea de fórmulas sagradas, encerradas com os mortos na sua tumba, para justificá-los na hora do julgamento e implorar aos deuses, a fim de favorecer sua travessia dos infernos e sua chegada à luz do eterno: Fórmula para se chegar à luz do dia. Em todos os casos, nesse contexto, o livro aparece como o símbolo do segredo divino, que só é confiado ao iniciado.

Se o universo é um livro, é que é a revelação e, portanto, por extensão, a manifestação. O Liber Mundi é ao mesmo tempo a Mensagem divina, o arquétipo do quais os diversos livros revelados não passam de especificações, traduções em linguagem inteligível. O esoterismo islâmico distingue, às vezes, entre um aspecto macrocósmico e um aspecto microscómico do livro, e estabelece entre os dois uma lista de correspondências: o primeiro é efetivamente o Líber Mundi, a manifestação emanando de seu princípio, a Inteligência cósmica; o segundo está no coração, a Inteligência individual.

Em certas versões da Busca do Graal, o livro também é identificado com a taça. O simbolismo é então bem claro: a busca do graal é a procura da Palavra perdida, da sabedoria suprema tornada acessível ao comum dos mortais.

Um livro fechado significa a matéria virgem. Se está aberto, a matéria está fecunda. Fechado, o livro conserva seu segredo, aberto, o conteúdo é tomado por quem o investiga. O coração é assim comparado a um livro: aberto, oferece seus pensamentos e seus sentimentos; fechado, ele os esconde.

Enfim, “ler e reler, reconhecer e compreender: reler tantas vezes quantas forem necessárias para compreender tudo, porque tudo poder ser compreendido”, segundo o semiólogo. (BARTHES, 1987, p.199). “Leio com os olhos, leio com a minha cabeça, mas também leio com o que tenho no ventre. Todo o meu corpo participa na leitura.” (BARTHES, 1987. p.191)

O livro, a palavra, a descoberta, o leitor, a leitura nessa concepção, assumem para além de um triângulo amoroso, um amálgama de retomadas do livro em diversos sentidos, do livro enquanto teia. Teia que remete a discursos do texto, incessantemente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARTHES, Roland & COMPAGNON, Antoine. Leitura. In: Romano Ruggiero. (Org.). Enciclopédia Einaudi. Lisba. Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 1987. v. 11. pp.184-206.

[1] Rodrigo da Costa Araujo é Especialista em Literatura pela FAFIMA, Mestre em Ciência da Arte pela UFF e professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Macaé. E-mail: rodricoara@uol.com.br

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