SAUDADES JUNINAS

Vivi minha infância e pré-adolescência entre as décadas de 1960 e 70.
Ainda era comum, na época, músicas serem compostas para épocas festivas do ano, como Carnaval e Natal, no início e fim de ano, respectivamente.
No meio do ano, também havia composições específicas para as Festas Juninas, cujas principais datas eram em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro.
Por conta do clima frio, bebidas e comidas quentes e fogueiras contribuíam para manter o corpo e o coração aquecidos, bem como um “correio elegante” da pessoa certa.
“Com a filha de João, Antônio ia se casar. Mas Pedro fugiu com a noiva, na hora de ir pro altar”; “Cai, cai, balão! “Cai, cai, balão”; “O balão vai subindo. Vai caindo a garoa. O céu é tão lindo e a noite é tão boa” eram frases de músicas tradicionais, ouvidas ao som de acordeões, acompanhados ou não por zabumbas e triângulos. Era assim em quermesses de igrejas, associações beneficentes, escolas públicas e privadas, onde as quadrilhas eram o esperado e concorrido apogeu: “A ponte caiu!… É mentira!”. Quem não podia dançar batia palmas.
Era uma festa democrática, sorridente, familiar!
O tempo foi passando e as coisas foram mudando, não necessariamente para melhor.
Músicas passaram a ser consideradas “politicamente incorretas”; a associação das festividades a nomes de santos agora foi suprimida, para não ferir suscetibilidades. As festas deixaram de ser juninas para serem “julinas”. Soltar balões passou a ser corretamente inibido, pelos riscos envolvidos. As quadrilhas passaram a ser desprezadas, enquanto outras quadrilhas são celebradas. Vestir-se como caipira passou a ser considerado um estereótipo caricato ou “apropriação cultural”.
Essas mudanças foram similares no caso do Carnaval, com direito a patrulhamentos em geral.
Essa percepção poderia ser caracterizada como uma “teoria de conspiração”. Porém, está mais para um processo de alienação desde a infância, que muitos adultos inconsequentes aceitam e até participam.
Confirmando essa tendência nefasta, recentemente soube que uma escola que, em vez de tocar músicas tradicionais em sua festa junina, optou pelo “funk carioca”, com suas letras de gosto duvidoso e pobreza melódica. Isso também tem ocorrido em festas infantis e formaturas do Ensino Fundamental e Médio.
Parafraseando a canção do Poetinha, estão acabando com nossas Festas Juninas, pois ninguém mais ouve cantar as canções tradicionais. Saudades e cinzas têm sido o que restou, como se as fogueiras não mais aquecessem os convivas, apesar de ainda haver boas exceções.
Santo Antônio, São João e São Pedro não merecem esse novo suplício!
Algumas “evoluções”, em verdade, são retrocessos abissais.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academias Santista de Letras








