MINHA CASA NO CAMPO
Já ouvi dizer que casas no campo e barcos têm duas alegrias: ao comprá-los e ao vendê-los.
A casa no campo ou na praia e um barco se tornaram uma espécie de fuga do cotidiano.

Zé Rodrix contou como foi a criação de “Casa no Campo”: um lampejo criativo ao olhar por uma janela de trem, cuja letra fluiu imediatamente. Tavito fez a melodia no mesmo dia e, pouco tempo depois, Elis Regina a sublimou.
Não sei se ele ou ela tiveram casas no campo, na praia ou barcos, mas a música é como um hino à simplicidade e paz.
Não sei se houve carneiros e cabras pastando, solenes, em seus jardins; ou se plantaram e colheram com a mão a pimenta e o sal, licença poética.
O “silêncio das línguas cansadas” é algo que faz muita falta em tempos de gente que fala demais, mas nada de útil se aproveita; a “esperança de óculos” não resolve certas miopias; e o “tamanho da paz” às vezes é incomensurável ou inatingível, tantas são as guerras que o dia a dia nos impõe.
Será possível ter essa casa no campo sem sair do turbilhão que nos envolve?
Alguns conseguem isso praticando meditação, sua fé ou com “livros e discos”.
Não são fugas da realidade, mas um bálsamo que ajuda a enfrentá-la.
Jessé cantou uma canção de Mário Maranhão e Eunice Barbosa, intitulada “Solidão de Amigos”.
O que pode parecer uma contradição, em verdade é outra forma de superar as agruras da vida: pela amizade, mesmo que à distância. Voltando a Rodrix, é “ter a certeza dos amigos do peito”, mas, como diz a mesma canção, há mais além disso, inclusive no que se refere aos “limites do corpo”.
Creio que está no amor sincero a melhor forma de enfrentá-las e superá-las.
De tudo o que “Casa no Campo” afirma ser o ideal, só tenho os livros e discos e um filho de cuca legal.
As idas ao campo são raras, tantas são as “amarras” que me prendem à cidade. No entanto, elas não me impedem de sonhar e de torná-la segura, o que também não impede o meu navegar nos mares do espírito.
Eu também já compus uma música em que descrevo árvores verdejantes ao vento, rosas vermelhas num jardim, ondas quebrando no mar, nuvens brancas vagando lentamente, pássaros cantando suas simples harmonias e um grande céu azul sobre mim. Seria fácil viver assim!
A pessoa a quem digo isso me julga louco, pois eu vivo numa cidade onde a vida não é tão agradável e a única cor que se vê é o cinza. Explico, então, que tudo o que vejo é porque ela está ao meu lado, e mesmo quando as nuvens escondem o sol, ela brilha com seu amor e alegria.
Para mim, amor traduz uma felicidade que não se compra nem se vende. Ele está até no silêncio em que as línguas nem sempre estão cansadas, e o cansaço é um desejo de eternidade para muito além do tempo que alguns dizem durar.
Sim, o amor é minha casa no campo, na praia ou barco!








