VOO DA JUVENTUDE

Uma jovem acabara de completar seus 18 anos.
Legalmente, é quando assumimos a responsabilidade plena por nossos atos. É quando estamos teoricamente livres para “voar”!
Seria seu momento de autoafirmação, de busca de caminhos próprios, de alçar voo em busca de seus sonhos! Porém, desde cedo seu círculo de amizades lhe apresentou a falsa liberdade das drogas.
Quando notaram, ela já estava sonhando com a próxima dose e não com o futuro.
Disseram que ela iniciou essa viagem como forma de chamar a atenção dos pais.
Rapidamente, como uma bola de neve descendo uma encosta, a dependência química tomou posse de seu corpo e mente. As discussões familiares multiplicaram-se e ficaram intoleráveis.
Faltou diálogo? Faltou amor?
Além dos diretamente envolvidos, dificilmente alguém poderá dizer como uma pessoa que aparentemente tem tudo pode sentir tanto vazio a ponto de deixar o vício e a alienação entrarem em sua vida.
O que era para chamar a atenção dos pais, depois foi para atingi-los.
Assim, o imponderável assumiu o controle. Previsível era, somente, a próxima afronta.
Subitamente, houve um período de aparente tranquilidade, como se as nuvens daquela tormenta dessem lugar a um céu de esperança.
A vontade de alçar voo para o futuro parecia tomar o lugar da alienação, do escândalo e do delírio.
Seria a bonança ou só o olho do furacão?
Porém, os “amigos” sempre estavam por perto, à espreita.
Era uma noite qualquer quando ela chegou em casa.
Já eram altas horas quando ela resolveu sair novamente, para conversar com os “amigos” que ainda estavam na rua, órfãos de uma paternidade ausente.
Ela retornou e, calmamente, beijou a mãe, pediu para que ela desse um beijo no pai e, em silêncio, lançou-se pela janela do apartamento, num voo que durou não mais que alguns segundos.
Seus sonhos e pesadelos foram sepultados sem que nenhum de seus “amigos” estivesse presente para pranteá-la.
Parece a música “Pais e filhos” do Legião Urbana, não? Mas é uma história, embora com alguns retoques.
Nossos jovens e suas famílias continuam pagando caro, às vezes, com a própria vida, pela falta do amor que educa e sabe dizer não, pela ilusão de que bastam vontades feitas, por não explicar “a grande fúria do mundo” para tentar evitar que ela faça novas vítimas.
Nem o melhor presente compensa o não estar presente!
A falta de atenção e de ação é a seara dos falsos amigos, militantes do narcotráfico, do hedonismo e de ideais alienantes, que quem defende ou isenta é cúmplice.
Enquanto esse “plano de voo” continuar sendo traçado pelo crime e pela falta de responsabilidade familiar, muitas vidas continuarão sofrendo atentados, sequestros e, no limite, perecendo nesses voos de Ícaro, ou de kamikaze, teleguiados pelo vício e, quase sempre, só de ida.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras








