O VALOR DO RARO

Hoje em dia, as pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada. — Oscar Wilde

O que um livro raro pode despertar nas pessoas? Em Tudo pode ser roubado[1], Giovana Madalosso transforma essa pergunta em uma narrativa ágil, envolvente e cheia de camadas. À primeira vista, o romance parece contar apenas a história de uma garçonete que furta objetos valiosos. Aos poucos, porém, revela temas mais amplos, como desejo, obsessão, dinheiro, preconceito e as escolhas de quem tenta sobreviver à margem da sociedade.

A protagonista trabalha em um conhecido restaurante da Avenida Paulista e, nas horas vagas, aproveita encontros casuais para roubar roupas de grife e outros artigos de valor. Depois, vende boa parte deles a Sebastiana, mais conhecida como Tiana, dona da loja onde esses objetos circulam.

Tiana é uma mulher transexual, e sua presença acrescenta outra dimensão à história. Embora receba os objetos furtados sem conhecer sua procedência, ainda que desconfie dela, a personagem não se resume a essa função na trama. Por meio de sua trajetória, Madalosso expõe o preconceito e a exclusão enfrentados por quem não se encaixa nos padrões de gênero dominantes.

A história muda de rumo quando Biel, uma espécie de intermediário entre a protagonista e um colecionador identificado apenas por J, propõe o roubo de uma primeira edição de O Guarani, publicada em 1857. O livro havia sido comprado por Cícero, um professor de literatura, que se recusa a vendê-lo. A partir daí, o romance deixa de ser apenas uma narrativa sobre furtos ocasionais e passa a girar em torno do valor que se atribui aos livros.

A protagonista não entende como um exemplar que talvez custasse dez reais em um sebo pudesse valer uma fortuna para J. Seu estranhamento revela a diferença entre valor material, valor simbólico e desejo de posse. No caso de J, o conteúdo de O Guarani parece importar menos do que a raridade do objeto. Cícero, por sua vez, mantém com a obra uma relação ligada à leitura, à memória e ao afeto. Esse contraste fortalece o romance ao mostrar que a literatura pode ser amada de maneiras muito diferentes: algumas generosas, outras obsessivas.

O fato de a protagonista não ter nome também chama a atenção. Essa escolha reforça o anonimato necessário a alguém que vive de furtos e precisa circular sem deixar rastros, mas também sugere a invisibilidade de pessoas empurradas para as margens da sociedade. A ausência de identidade funciona, portanto, tanto como estratégia de sobrevivência quanto como sinal de fragilidade em um mundo no qual certas existências podem ser apagadas.

A escrita de Giovana Madalosso é direta, viva e cheia de ritmo. A história avança rapidamente, sem deixar de levantar questões importantes. Não há excesso de explicações e a autora confia na força das situações, dos diálogos e das ambiguidades de suas personagens. Em poucas páginas, vemos como tudo pode passar de mão em mão: dinheiro, objetos, corpos, afetos e até valores culturais.

Embora a trama se passe em São Paulo, a realidade apresentada poderia existir em qualquer grande cidade. A pressa, o anonimato, a desigualdade e as relações movidas pelo interesse não pertencem apenas à capital paulista. Fazem parte do cotidiano de muitas metrópoles.

Tudo pode ser roubado é um romance curto (192 p), inteligente e provocador. Giovana Madalosso constrói uma trama que ultrapassa a história de um furto e transforma um livro raro no centro de uma rede de desejos, preconceitos e obsessões. Ao criar Tiana, manter a protagonista sem nome e contrapor as relações de J e Cícero com a literatura, a autora amplia os temas explorados pela narrativa e mostra que, para sobreviver, muitas vezes são necessários estratégia, silêncio e resistência. O resultado é uma leitura rápida, porém inquietante, que convida à reflexão não apenas sobre o valor dos objetos, mas também sobre o preço pago por aqueles que tentam possuí-los, ocultá-los ou simplesmente se proteger.


[1] MADALOSSO, Giovana. Tudo pode ser roubado. São Paulo: Todavia, 2018.

Margarete Hülsendeger – Possui graduação em Licenciatura Plena em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1985), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2002-2004), Mestrado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2014-2015) e Doutorado em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016-2020). Foi professora titular na disciplina de Física em escolas de ensino particular. É escritora, com textos publicados em revistas e sites literários, capítulos de livros, publicando, em 2011, pela EDIPUCRS, obra intitulada “E Todavia se Move” e, pela mesma editora, em 2014, a obra “Um diálogo improvável: homens e mulheres que fizeram história”.

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