O SINTÉTICO NATURALIZADO: CRESCER E TORNAR-SE ANSIOSO NA SOCIEDADE NEOLIBERAL

O SINTÉTICO NATURALIZADO: CRESCER E TORNAR-SE ANSIOSO NA SOCIEDADE NEOLIBERAL

Thiago Monteiro Lopes*1

Resumo: A ansiedade constitui um mecanismo natural de adaptação humana, mas seu crescimento contemporâneo tem sido relacionado às transformações decorrentes da racionalidade neoliberal. Este trabalho analisa como a lógica da sociedade do desempenho manifesta-se desde a infância, contribuindo para a constituição prematura do sofrimento psíquico. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter explicativo, fundamentada em autores como Harvey, Foucault, Bourdieu e Han, além da análise de estudos científicos e de dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). Conclui-se que a ansiedade contemporânea está associada não apenas ao mercado de trabalho, mas também a processos de constituição subjetiva iniciados na infância.

Palavras-chave: ansiedade; neoliberalismo; sociedade do desempenho; infância.

Abstract: Anxiety constitutes a natural mechanism of human adaptation; however, its contemporary rise has been associated with the transformations resulting from neoliberal rationality. This study analyzes how the logic of the performance society manifests itself from childhood onward, contributing to the premature development of psychological distress. This is a bibliographic study with a qualitative approach and an explanatory nature, grounded in the works of authors such as Harvey, Foucault, Bourdieu, and Han, as well as in the analysis of scientific studies and data from the National School Health Survey (PeNSE). The findings indicate that contemporary anxiety is associated not only with the labor market but also with processes of subject formation that begin in childhood.

Keywords: anxiety; neoliberalism; performance society; childhood.

1   Introdução

O medo trouxe o ser humano até os dias de hoje, no entanto, o exagero transfigurou essa defesa em automutilação, obstáculo, paralisação. Parafraseando William Blake (1790), o caminho dos excessos já levou ao palácio da sabedoria, mas, hoje, na maioria das vezes, resulta em imobilidade, em suspensão. O ser humano, encharcado de cenários, quem sabe realizáveis, tranca a escolha, pois uma decisão implica em muitas renúncias. Além disso, emaranhando-se para outro campo, nota-se uma profunda alegação que corrobora esse problema. Apoiando-se no ponto que é difícil tomar partido e ter um veredicto, discursos de autoempreendedorismo e de responsabilização individual difundem a ideia de que o sucesso e o fracasso dependem exclusivamente do indivíduo. Isso acomete um peso que, talvez, possa ser comparado aos mitos gregos de Sísifo e de Atlas. O primeiro destinado a rolar eternamente uma pedra e o segundo, a sustentar o peso dos céus sob os ombros.

A partir disso, faz-se necessário um estudo que contribua para a compreensão e para a atenuação desse problema, pois o Brasil, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (2017), apresentou a maior prevalência de transtornos de ansiedade entre os países analisados, com 9,3% da população (aproximadamente 18,6 milhões de pessoas) convivendo com essas questões. Além disso, afunilando mais o objeto deste estudo, é possível observar a persistência de elevados indicadores de sofrimento psíquico entre estudantes dos ensinos fundamental II e médio nas edições de 2019 e 2024 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). Tal estudo foi realizado pelo IBGE em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação.

Sob essa perspectiva, a pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicada em 2017, não apresenta recortes por faixa etária. No entanto, ao analisar os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), torna-se possível delimitar um aspecto relevante para esta investigação. Conforme destacam as autoras Célia Regina de Andrade, Joviana Quintes Avanci e Raquel de Vasconcellos Carvalhaes de Oliveira, no artigo Experiências adversas na infância, características sociodemográficas e sintomas de depressão em adolescentes de um município do Rio de Janeiro, Brasil, “Experiências adversas na infância são potenciais estressores que afetam a saúde e o bem-estar infanto-juvenil com repercussões até a vida adulta, aumentando a chance de desfechos negativos para a saúde física e mental, inclusive morte precoce” (Andrade; Avanci; Oliveira, 2022, p.2).

Nesse contexto, se o Brasil apresenta uma das maiores prevalências de transtornos de ansiedade entre os países analisados pela OMS e se experiências adversas vivenciadas na infância podem repercutir ao longo de toda a vida, a permanência dos indicadores de ansiedade entre estudantes da educação básica, evidenciado pela PeNSE, torna-se um dado particularmente preocupante. Isso porque tais crianças e adolescentes não enfrentam apenas a possibilidade de desenvolver transtornos decorrentes das exigências da vida adulta, como instabilidade financeira, excesso de desempenho ou burnout, mas, desde os primeiros anos de desenvolvimento, encontram-se já inseridos em um cenário marcado por cobranças, metas e discursos que enfatizam a produtividade, o desempenho e a responsabilização individual sobre a vida.

Sob essa lógica, institui-se como necessária a revisão dos porquês, a análise dos trajetos e a superação do discurso neoliberal, que visa a melhor versão de si mesmo. O autor Byung-Chul Han (2015), no livro A sociedade do cansaço, analisa essa máxima da modernidade, visto que destaca o trabalhador livre, que independe dos senhores de escravos ou feudais e se torna proprietário de si mesmo, ou seja, culpado pela prosperidade ou pela escassez própria. Han descreve esse fenômeno como uma forma de autoexploração que se confunde com liberdade, cujo adoecimento psíquico é o preço dessa liberdade paradoxal. Logo, o futuro trabalhador, imerso em uma conjuntura de inúmeras possibilidades e responsável único por seu destino, sucumbe à ansiedade precoce, já nos primeiros metros de sua corrida.

Embora o autor citado concentre sua análise no sujeito adulto, os mecanismos descritos por ele parecem manifestar-se cada vez mais cedo, alcançando crianças e adolescentes por meio da escola, das redes sociais, das expectativas familiares e da cultura da alta performance. Nesse sentido, esta pesquisa parte da hipótese de que a lógica neoliberal da sociedade do desempenho, analisada por Han a partir da experiência adulta, manifesta-se prematuramente, o que influencia a constituição subjetiva de crianças e de adolescentes e contribui para o crescimento de transtornos de ansiedade nesse público.

2   Metodologia

O presente artigo trata-se de uma reflexão acerca das transformações instauradas na sociedade, principalmente no público infantil e adolescente, permeadas pelo neoliberalismo. As análises foram possíveis devido à pesquisa explicativa, realizada por meio de referências bibliográficas — obras literárias, pesquisas científicas, livros teóricos e dados estatísticos — acerca da temática. Neste sentido, através de uma abordagem qualitativa, os dados foram observados e, por meio de análises acerca do cenário brasileiro contemporâneo, comprova-se a necessidade de alerta sobre o assunto.

Ao longo da construção da pesquisa, foram realizados alguns procedimentos, sendo eles: nome do autor, nome do curso, tema, resumo, explicações sobre o neoliberalismo e a sociedade do desempenho, relações entre essa lógica mercadológica e a ansiedade, metodologia e considerações finais, além das referências bibliográficas, ao final da pesquisa.

3   Neoliberalismo e a sociedade do desempenho

Existe, sem dúvidas, um cansaço extremo nas sociedades atuais. Porém, não é um cansaço apenas do excesso de trabalho, visto que se trabalha mais hoje do que um servo camponês na Idade Média: há, neste caso, uma fadiga que abrange mais campos. O mundo sempre passou por grandes transformações: do frio ao fogo, do artesanal ao mecanizado, do carvão ao motor de combustão; a eletricidade; a internet. E o homem, consequência de seu tempo, vê-se em meio a essas mudanças. Ademais, caminhando junto da história do homem, concomita a justificativa soberana da vida: a sobrevivência. Esse pretexto, ao longo dos anos, legitimou, até mesmo, as maiores barbáries existentes. No entanto, nessa conservação anterior, havia mais coletividade. À época do fogo, os grupos eram assíduos, robustos; à fase do mecanizado, eram agudos, pujantes; à era da combustão, foram organizados, resistentes; ao tempo da luz, esperançosos; ao século da internet, desunidos e competitivos.

Perpassadas as primeiras tecnologias, a queda da Bastilha e o Estado de Bem-Estar Social em algumas linhas, é preciso concentrar-se na ótica do neoliberalismo. Após o absolutismo de apenas um (Monarquia), passamos aos benefícios de alguns (Liberalismo); posteriormente, ampliaram-se os direitos sociais com o Estado de Bem-Estar Social, até desembocarmos na lógica da competição individual própria do neoliberalismo. Esse novo liberalismo estrutura-se a partir de um conjunto de premissas políticas, econômicas e sociais orientadas pela primazia do mercado, pela competitividade, pela redução da intervenção estatal e pela valorização da eficiência do setor privado. Nessa perspectiva, David Harvey (2008) compreende o neoliberalismo como um processo de reorganização econômica acompanhado de profundas transformações políticas e sociais, em que a lógica mercadológica passa a orientar as instituições e as relações sociais.

O neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor promovido liberando-se as liberdades e capacidades empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura institucional caracterizada por sólidos direitos à propriedade privada, livres mercados e livre comércio. O papel do Estado é criar e preservar uma estrutura institucional apropriada a essas práticas; o Estado tem de garantir, por exemplo, a qualidade e a integridade do dinheiro. Deve também estabelecer as estruturas e funções militares, de defesa, de polícia e legais requeridas para garantir direitos de propriedade individuais e para assegurar, se necessário pela força, o funcionamento apropriado dos mercados (Harvey, 2008, p. 2).

Dessa forma, posto a competitividade, perde-se a coletividade, pois, diferentemente do esporte em que, em muitos casos, existe o jogo limpo, ou seja, o fair-play, na sociedade, com a premissa da sobrevivência, desaparece o espírito esportivo. Se alguém ganha um lugar ao pódio, outro perde. Além disso, esse que ganha serve de exemplo aos outros e, de alguma forma, exerce um certo poder sobre os demais. Essa força, portanto, gera ansiedade, pois se ele conseguiu, por que motivo eu não consigo? O que ele teve a mais? Onde ele estava mais preparado? O que eu não consegui enxergar? Será que estou trabalhando pouco? Preciso dormir menos? Aproveitar melhor o meu tempo? Como posso pensar fora da caixa? De que modo devo me portar para destravar o meu mindset? Essas e outras perguntas rodeiam e penetram a cabeça de um trabalhador moderno, causando, então, o agravamento da ansiedade.

Surge, assim, a lógica da sociedade do desempenho. Aliado a isso, há outras premissas que precisam ser debatidas: o aumento da privatização, a uberização dos serviços, a intervenção mínima do Estado. Todos esses princípios não são ao acaso, todos eles são construídos para o aumento do lucro, logo, aumenta-se a vantagem do mercado. Nesse sentido, Harvey (2008) sustenta que o neoliberalismo configura uma reforma fundamentada na primazia do mercado. Além disso, algo que é inevitável à discussão é a definição do que se chama de “capital humano”. No curso Nascimento da biopolítica, lecionado por Michel Foucault, no Collège de France, em Paris, o autor explicita essa definição e suas consequências. Para a consumação do Neoliberalismo, Foucault afirma que é necessário

Formar capital humano, formar, portanto, essas espécies de competência-máquina que vão produzir renda, ou que vão ser remuneradas por renda, quer dizer o quê? Quer dizer, é claro, fazer o que se chama de investimentos educacionais (FOUCAULT, 2008, p. 315).

Por quê? Porque é necessária a transformação do homo œconomicus enquanto sujeito de troca para o homo œconomicus que objetiva tornar-se empresário de si mesmo e, para isso, os investimentos educacionais tornam-se primordiais. Surge, assim, a proliferação de cursos de gestão de tempo, de “como destravar o seu mindset”, de investimentos financeiros, de “como vencer na vida”, de como atualizar constantemente o próprio capital humano. Essa mesma lógica, que já se mostrou geradora de grande ansiedade, sustenta ainda o crescimento do mercado editorial de autoajuda, confirmando o que Byung-Chul Han (2015, p.7-8) descreve como “excesso de positividade”. A sociedade neoliberal, portanto, suga o trabalhador ao extremo em nome de sua constante evolução; depois, vende-lhe livros sobre como ser feliz; e, por fim, quando nem isso é suficiente, restam-lhe os fármacos controlados.

Visto isso, essa lógica de autogestão e competição perpétua manifesta-se em mecanismos concretos e mensuráveis dentro do próprio mundo do trabalho. Como descreve Bourdieu (1998),

Assim se instaura o reino absoluto da flexibilidade, com os recrutamentos por intermédio de contratos de duração determinada ou as interinidades e os “planos sociais” de treinamento, e a instauração, no próprio seio da empresa da concorrência entre filiais autônomas, entre equipes, obrigadas à polivalência, e, enfim, entre indivíduos, através da individualização da relação salarial: fixação de objetivos individuais; prática de entrevistas individuais de avaliação; altas individualizadas dos salários ou atribuição de promoções em função da competência e do mérito individuais; carreiras individualizadas; estratégias de “responsabilização” tendendo a garantir a auto-exploração de certos quadros que, sendo simples assalariados sob forte dependência hierárquica, são ao mesmo tempo considerados responsáveis por suas vendas, seus produtos, sua sucursal, sua loja, etc. (…) eis algumas técnicas de submissão racional que, ao exigir o sobreinvestimento no trabalho, e não apenas nos postos de responsabilidade, e o trabalho de urgência, concorrem para enfraquecer ou abolir as referências e as solidariedades coletivas. (BOURDIEU, 1998, p. 139)

O que Bourdieu descreve em termos de práticas organizacionais concretas, Han interpreta em sua dimensão existencial e psíquica: essa autoexploração não seria tão eficaz se não operasse sob a promessa de liberdade. “O explorador é, ao mesmo tempo, o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos” (Han, 2015, p. 30). Não há mais um patrão a ser responsabilizado, nenhuma classe dominante visível a se rebelar contra; há apenas o próprio sujeito, cobrando de si mesmo o desempenho que o mercado exige, e absorvendo sozinho o fracasso quando esse desempenho não se cumpre.

É nesse ponto que reside o adoecimento típico de nosso tempo. Se a sociedade disciplinar produzia neuróticos e criminosos — sujeitos que transgrediam a norma externa —, a sociedade do desempenho produz depressivos, ansiosos e esgotados ao extremo — sujeitos que fracassam diante e por causa de si mesmos. Como sintetiza o autor, “os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal” (Han, 2015, p. 30). A exaustão, portanto, não é mais sintoma de excesso de trabalho, mas de excesso de si.

Todavia, Han direciona sua análise ao sujeito adulto — ao trabalhador, ao “empresário de si mesmo” já formado, inserido no mercado e, de certo modo, consciente, ainda que dolorosamente, das regras do jogo que o adoecem. Cabe, então, uma pergunta que o autor não responde: o que ocorre quando essa mesma lógica de autoexploração encontra não um adulto já constituído, mas uma criança em pleno processo de formação subjetiva e neurológica? É a essa pergunta que o subtítulo 3.2 se dedica, no entanto, antes, é preciso se situar sobre a questão da ansiedade no mundo e, principalmente, no Brasil.

3.1   Do natural ao sintético

Como já mencionado, a ansiedade é um alerta natural, porém a relação desse sinal, no século XXI, com o ser humano precisa de vigilância e cautela. Algumas atitudes do dia a dia acabam por realçar esse vínculo. Quando não existiam, por exemplo, empresas de produção de conteúdo e entretenimento às pampas, alguém que queria e podia ver um filme deslocava-se até a locadora, alugava pela capa, ou por uma pequena descrição na contracapa, assistia ao conteúdo uma, duas, três ou mais vezes, e o filme, ruim ou não, prendia sua atenção. A mesma coisa acontecia, tendo outra amostra, a um disco novo. O foco, novamente, fazia-se presente. Mais uma demonstração era o ato de ouvir música por meio da rádio, pois a atitude de ligar para a emissora, pedir uma canção e esperar até o momento em que ela iria tocar demandava muita fixação.

No entanto, adiantando a fita para o agora, nota-se, sem dificuldade alguma, uma queda na concentração em geral. Por quê? Faça o mesmo exercício proposto nesse primeiro parágrafo. A locadora, o disco e a rádio metamorfosearam-se em algumas — ou várias — assinaturas mensais. As infinitas possibilidades dificultam, barram as escolhas. Quantas horas se passam do momento em que alguém se senta à frente da televisão, para tentar assistir a um filme, até o instante em que, finalmente, escolhe algo? Quanto tempo é gasto para a “setinha” passar de um filme a outro? O mesmo movimento realizado no “feed infinito” é feito nessa nova locadora. E, assim, o tempo voa, hipnotizado.

Essa mesma transformação alcançou as prateleiras. Uma ida à loja ou ao mercado, limitada ao que se tinha e por aquilo que os olhos viam, virou um rolar de opções, avaliações, descontos que expiram rapidamente. O mesmo ocorreu com o afeto, aquela espera do acaso, um encontro casual, os quais tornaram-se opções, avaliações e relações que acabam antes de começar. O mesmo mecanismo se repete: a multiplicação das possibilidades, ao invés de libertar, aprisiona. Esse estado encontra nome na psicologia: o paradoxo da escolha, conceito desenvolvido por Barry Schwartz (2007) — quanto mais opções, maior a ansiedade da decisão e maior o arrependimento que antecede a própria escolha, como se o simples ato de optar já fosse, em si, uma perda antecipada de tudo aquilo que não foi escolhido. O poema Na noite terrível (Pessoa, 1944) evidencia, de maneira literária, o proposto por Schawartz:

  • Se em certa altura
  • Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; Se em certo momento
  • Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim; Se em certa conversa
  • Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro –
  • Se tudo isso tivesse sido assim,
  • Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
  • Seria insensivelmente levado a ser outro também. (Pessoa, 1944)

E, com certeza, esse é o verdadeiro cadáver, se morto no século passado, já é mais que pó no presente. Porque, “Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei. / Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar? /Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver” (Pessoa, 1944). Portanto, o encharque de possibilidades, aliada à opção de que não se pode errar, gera grande ansiedade.

Essa mesma lógica é retratada, com ironia, por Carlos Drummond de Andrade, no conto Bom tempo, sem tempo. Nele, um povoado sofre alternadamente com secas e enchentes, até que um mágico intervém e lhes concede um clima perfeitamente ameno. Não tinha, portanto, nem seca, nem cheia, apenas tempo bom o ano inteiro. Ao invés de alívio, porém, os moradores mergulham em desorientação, pois, sem os extremos que antes os obrigavam a agir (fugir, resistir, contar histórias de sobrevivência), não sabem mais o que fazer diante de tantas condições boas ao mesmo tempo (Andrade, 2006). O excesso de bem-estar, nesse caso, revela-se tão paralisante quanto o excesso de escassez — e é justamente esse o mecanismo psicológico por trás da ansiedade contemporânea: não é mais a falta de opções, mas sim o excesso delas.

Sendo assim, constitui-se necessário um debate acerca do disposto. Além dos números de pessoas com o transtorno serem alarmantes, como será exposto à frente, a lógica instaurada pelos aplicativos de relacionamento, entretenimento e consumo tende a perpetuar uma dinâmica em que a promessa de satisfação é constantemente renovada, porém não é esgotada. Ainda que o consumo possa, em alguns casos, culminar na aquisição de um produto, o funcionamento dessas plataformas está centrado na oferta contínua de novas possibilidades, estimulando a permanência do usuário em um ciclo ininterrupto de busca, de comparação e de expectativa. Nessa lógica, o valor não reside na realização da escolha, mas na manutenção incessante do desejo e do engajamento. Por isso, dificilmente tal dinâmica encontrará um ponto de saturação na sociedade neoliberal, uma vez que essas plataformas são estruturadas para maximizar o tempo de permanência, a atenção e, consequentemente, o lucro, subordinando a experiência do indivíduo aos interesses do mercado e contribuindo, por fim, com a intensificação do sofrimento psíquico.

Visto isso, é preciso organizar os dados para que se possa ter uma ideia sobre a gravidade do problema. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2017), a saúde mental é um estado de bem-estar da mente que permite ao ser humano lidar com problemas emergentes da vida em geral, efetivar seu pleno desenvolvimento potencial e trabalhar para contribuir com a sua comunidade. Ainda neste mesmo aspecto, a OMS classifica dois grupos de fatores que contribuem para o transtorno: as causas individuais e as sociais. Compete à individualidade a necessidade de ter habilidades emocionais, de não abusar do uso de substâncias e, ainda que não haja controle sobre essa questão, o órgão responsabiliza a genética como fator contribuinte. Por outro lado, as fontes sociais são a pobreza, a violência, a desigualdade e a degradação ambiental. Em consequência disso, visto que o trabalho aponta a sociedade neoliberal como constituinte dos principais eixos estruturantes do aumento dos quadros de ansiedade, é preciso focar nos fatores sociais, ainda que, de certo modo, os aspectos individuais, com exceção da genética, que é um assunto delicado e perigoso, também atuam no âmbito social.

Corroborando esse cenário, o Informe de Previdência Social (v. 37, n. 7), publicado pelo Ministério da Previdência Social em julho de 2025, evidencia o avanço dos benefícios por incapacidade concedidos em decorrência de transtornos mentais e comportamentais. Os dados revelam que as concessões passaram de 188.138 benefícios em 2021 para 559.983 em 2025, crescimento de aproximadamente 197,7% (Brasil, 2025). Além do aumento absoluto, o estudo demonstra que os transtornos mentais passaram a representar parcela cada vez maior do conjunto dos benefícios por incapacidade, indicando que o adoecimento psíquico deixou de constituir um fenômeno pontual para assumir crescente relevância no contexto previdenciário brasileiro.

Entretanto, esses dados parecem revelar apenas uma parcela do problema, pois, como mencionado anteriormente, questões como o aumento da privatização, a uberização dos serviços e a intervenção mínima estatal — premissas da lógica neoliberal — agravam esse problema. Se o crescimento dos benefícios por incapacidade decorrentes de transtornos mentais e comportamentais já evidencia o agravamento do adoecimento psíquico entre trabalhadores protegidos pelo sistema previdenciário, é razoável questionar qual seria a dimensão desse fenômeno entre aqueles que permanecem à margem dessa proteção.

Essa expansão da pejotização, da uberização e de outras formas de trabalho marcadas pela informalidade e pela flexibilização dos vínculos empregatícios desloca uma grande parcela da força de trabalho para relações em que o adoecimento não resulta em afastamento oficial, tampouco em registro estatístico. Em uma lógica na qual o indivíduo é constantemente incentivado a comportar-se como empresário de si mesmo, interromper o trabalho é um grande fracasso pessoal. Assim, os números apresentados pelo Ministério da Previdência Social, embora preocupantes, representam a superfície visível de um adoecimento que se infiltra não por acaso, mas sim como consequência de uma razão arquitetada pelo pensamento neoliberal nos alicerces da vida social.

Nessa perspectiva, o sofrimento psíquico deixa de ser compreendido como um fenômeno exclusivamente natural do indivíduo para revelar-se, cada vez mais, como um produto sintético de uma racionalidade social que fabrica ambientes, relações e formas de existência favoráveis ao adoecimento. Em pesquisa desenvolvida com trabalhadores residentes em comunidades urbanas brasileiras, Prestes et al. (2026) demonstraram que a prevalência de transtornos mentais comuns alcançou 22,7% entre trabalhadores informais, enquanto entre aqueles inseridos em vínculos formais esse percentual foi de apenas 7,8%, indicando uma incidência aproximadamente três vezes maior no primeiro grupo.

O estudo evidencia, ainda, que a informalidade esteve associada a menores rendimentos e à maior insegurança por conta das relações mais instáveis, condições que se mostraram diretamente relacionadas ao agravamento do sofrimento psíquico. Diante desses achados, os autores concluem que as formas precárias de inserção no mercado de trabalho desempenham papel central na determinação social da saúde mental. Assim, a ansiedade contemporânea não pode ser reduzida à esfera das predisposições individuais ou das escolhas pessoais; ela emerge, antes, como manifestação de um juízo, paulatinamente arbitrário, que transforma a instabilidade em regra e naturaliza o adoecimento como um efeito esperado da lógica que transforma a sobrevivência, já citada, em competição permanente.

Essa leitura aproxima-se da análise de Foucault (2008) acerca da governamentalidade neoliberal, segundo a qual o poder contemporâneo atua produzindo sujeitos que passam a gerir a si mesmos conforme a lógica do mercado. Nessa perspectiva, a ansiedade deixa de ser apenas uma resposta biológica para tornar-se também um efeito das tecnologias de governo que organizam a vida contemporânea segundo o pensamento neoliberal.

À insegurança produzida pelas relações sociais e econômicas, soma-se uma dimensão existencial, uma outra fonte de ansiedade: a incerteza do futuro do planeta. O fenômeno, descrito pela Associação Americana de Psicologia (2017), consiste no medo crônico e persistente diante da degradação ambiental. A ansiedade contemporânea já não decorre apenas da experiência concreta do perigo, mas da antecipação contínua de cenários futuros. Entre crianças e adolescentes, essa dinâmica torna-se ainda mais intensa, pois, como observam Lass-Hennemann et al. (2024), as mudanças climáticas prolongam a percepção de incerteza justamente durante uma fase do desenvolvimento em que as expectativas sobre o futuro desempenham papel fundamental na construção da segurança emocional.

Portanto, crianças e adolescentes constituem grupo particularmente vulnerável a esses efeitos, uma vez que a exposição precoce a alterações ambientais compromete não apenas o bem-estar presente, mas o próprio desenvolvimento cognitivo e a saúde mental futura desses indivíduos. Não se trata, por conseguinte, de um adulto que se torna ansioso diante de um mundo em transformação, mas de uma criança que cresce dentro dessa mudança, com a estrutura psíquica e cognitiva ainda em formação, absorvendo, desde cedo, a instabilidade como condição normal de existência. Se, neste capítulo, buscou-se demonstrar que parte significativa da ansiedade contemporânea deixa de decorrer de mecanismos biológicos ou individuais para ser produzida por condições sociais, econômicas e ambientais, resta compreender o que pode suceder quando essa produção se torna permanente, quando ela deixa de ser percebida como artificial e passa a ser vivida como algo natural. Em outras palavras, quando o sintético se naturaliza.

3.2   O sintético naturalizado

Voltando um pouco aos clássicos, é preciso, sempre, falarmos de Platão. Precisamente, aqui, sobre o Mito da Caverna. As sombras, nas paredes da caverna, produziram verdadeiras imagens naturalizadas. A luz, natural, quando adentra a história, destrói o sintético daquele que conseguiu enxergar. Truman, sinteticamente inventado, quando percebe a manipulação, foge e escapa à porta do estúdio. Walter Benjamin, na obra Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura, afirma que “Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela” (Benjamim, 1996, p. 224-225). O conformismo, nesse âmbito, relaciona-se com o poder, ou seja, as formas dominantes de cada tempo, que quer, a todo custo, apoderar-se da tradição do que fora e pode ser construído, para que, assim, sem grandes dificuldades, consiga reescrevê-la a seu favor, transformando-a em algo que legitime a ordem vigente e desative seu potencial de crítica ou ruptura, mantendo, portanto, o pensamento acomodado ao poder estabelecido.

Uma fábula difundida como experimento ilustra bem esse mecanismo. Em um grupo de macacos, quando um deles tentava alcançar um cacho de bananas no alto de uma escada, todos os outros eram surpreendidos por um jato de água fria. Com o tempo, os próprios integrantes do grupo passaram a impedir uns aos outros de subir, temendo o castigo coletivo. Ao longo da narrativa, cada macaco é substituído por um novo membro que, rapidamente, tenta apanhar as bananas, mas acaba por levar uma surra. Por fim, os macacos são trocados até que nem um deles jamais tenha sentido o jato de água e, ainda assim, todos continuam a impedir a subida à escada, sem saber motivo algum. Verdadeira ou não enquanto experimento, a fábula sintetiza o fenômeno que este subtítulo pretende investigar: medos e comportamentos que se perpetuam não porque alguém os vivenciou, mas porque foram herdados como se fossem naturais, dados incontestáveis, ou seja, o sintético que foi naturalizado, e as consequências disso, que são perigosas.

Ainda que apócrifa, a fábula dos macacos encontra respaldo em um fenômeno cientificamente comprovado e replicado há décadas na psicologia social: o conformismo. Em 1951, Solomon Asch conduziu uma série de experimentos que se tornaram clássicos na área, expondo participantes a uma tarefa de identificação.

Entre três linhas de tamanhos distintas, os integrantes precisaram responder qual correspondia a de referência. Sem que os sujeitos soubessem, os demais integrantes do grupo eram atores instruídos a fornecer respostas visivelmente erradas. Cerca de 75% dos participantes conformaram-se com o erro da maioria ao menos uma vez, e aproximadamente um terço das respostas totais acompanhou a opinião incorreta do grupo, mesmo diante de uma resposta objetivamente evidente (Asch, 1951). Diferentemente da fábula dos macacos, aqui não há punição alguma; não é o medo do castigo que leva o indivíduo a abandonar sua própria percepção, mas a simples presença da maioria, o singelo elementar, o costumeiro, rotineiro, o constante fascínio por pertencer a um grupo, a uma tradição conhecida. Se mesmo um julgamento perceptivo, sem grandes complexidades, pode ser corrompido pela pressão social, quanto mais um julgamento sobre o próprio valor, sobre o próprio fracasso, sobre a própria adequação ao mundo, exatamente o terreno em que a sociedade do desempenho opera.

Visto isso, crescer nesse meio transmuta-se em verdadeira sobrevivência, pois, além do externo ser excessivamente obscuro e difuso; o interno forja-se confuso, uma imprecisão generalizada. Esse lado interno, assim sendo, almeja o reconhecimento e deságua, encontra acalanto em fluências rasas, de fáceis explicações e soluções, encontra afago, similaridade; inventa, artificialmente, conforto na conformidade. Existe aqui uma linha tênue, pois o consolo que emana dessa identificação não significa paz, mas, ironicamente, disputa. Mesmo que o meu semelhante concorde e, na minha bolha, conviva comigo, eu preciso, sempre, ser melhor do que ele. Nesse sentido, dificilmente alguém voltaria, como no diálogo escrito por Platão, para tentar libertar aqueles que estão acorrentados, não mais acreditando em sombras físicas, mas em penumbras de telas e discursos, uma ilusão sintética e instável, que visa a vantagem.

Logo, quem sai da caverna transforma a saída em capital humano, ou seja, o indivíduo não retorna para ajudar o outro a sair da escuridão, ele vende cursos de como sair de lá em cinco passos, ele descobre a verdadeira luz e monetiza o segredo. Enquanto o filósofo platônico retorna à caverna, pois o conhecimento adquire novo sentido quando compartilhado, o sujeito atual é continuamente incentivado a transformar as conquistas em diferencial individual. Libertar o outro deixa de ser um dever; pode, inclusive, ser fraqueza, perda de espaço e de oportunidade. A concorrência dissolve a emancipação coletiva, que luta contra a vantagem de um sobre os outros, pela performance individual, a qual escancara e exalta os privilégios de um sobre todos.

Visto isso, é preciso discutir por que, hoje, esse mecanismo de naturalização do sintético atinge a infância com uma intensidade sem precedentes históricos. A adversidade não é, propriamente, uma novidade, pois as gerações anteriores também a conheceram, talvez até em maior grau, sendo difícil mensurar com certeza, mas a lógica que hoje a estrutura ainda não estava instaurada: os smartphones, as redes sociais e o capitalismo de vigilância (Zuboff, 2021) não organizavam a vida cotidiana como atualmente, ainda não operavam sobre as grandes vontades construídas, convertendo cada gesto infantil em dado a ser extraído, processado e revendido. Os pais trabalhavam menos horas fora de casa, e as babás, quando existiam, não eram eletrônicas nem projetadas deliberadamente para viciar, ou seja, se a lógica neoliberal já existia, ela estava em curso para ser instaurada e não, ainda, consumada.

Não se trata aqui de afirmar que as exposições de outrora fossem menores, isso, como já dito, é complexo, pois a memória suaviza o passado. O que muda, portanto, não é a intensidade, mas o lugar em que ela se concretiza. As adversidades encontravam suas bordas sem tantas dificuldades, tendo algumas possibilidades. As de hoje, por construção, perderam a linha do horizonte, estão dispersas em todos os seus pontos de fuga, que não convergem mais ao centro. Elas estão em tudo e os exemplos são inúmeros: a tela nunca desliga, a notificação não tem hora, o serviço tomou o lar, o lazer é performance, o viver é status, o ser humano é produto altamente rentável e enganado. Vê-se a mesma lógica da caverna, mas, atualizada, com sombras mais sedutoras e paredes mais próximas do rosto.

Cabe aqui mais uma ressalva. Ao tentar discorrer sobre essa linha, esse trabalho corre o risco de cometer o mesmo engano do Dr. Simão Bacamarte, de Machado de Assis, em O Alienista. “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente” (Assis, 1882, p.260). Não se está, aqui, a falar da loucura. Nenhuma leitura apressada deve confundir ansiedade com insanidade. Fala-se, portanto, da mente humana: território ainda tão pouco conhecido quanto aquele continente que o alienista imaginava poder mapear, demarcar, curar com precisão científica. As tentativas de traçar bordas exatas sobre antes e depois, o adulto e a criança, entre tornar-se e crescer, esbarra, inevitavelmente, em questões dos sentidos da vida. Foi e ainda é algo sem nome, algo que Camões não substantivou, algo que falta palavras e entendimentos e “Que dias há que n’alma me tem posto / um não sei quê, que nasce não sei de onde, / vem não sei como, e dói não sei porquê” (Camões, 2006, p. 85)

No entanto, é preciso falar do que se sabe, ainda que pouco e, talvez, provisoriamente. Pois a falta de nome não autoriza o silêncio completo. E o que a ciência, com todas as suas limitações diante desse “não sei quê”, já conseguiu observar é que as adversidades vividas na primeira infância reverberam, de modo mensurável, ao longo de toda a vida adulta. Não se trata mais de metáfora, nem de verso: trata-se de tecido, de sinapse. Uma revisão sistemática conduzida por Mitchell, Roddy e Connaughton (2025), publicada no periódico Brain Imaging and Behavior, analisou que adultos expostos a adversidades na primeira infância – todos sem qualquer diagnóstico psiquiátrico identificado – passaram por uma redução significativa na integridade da substância branca cerebral, especificamente nos tratos ligados à regulação emocional, à memória e ao processamento de ameaças.

Essa descoberta ganha contornos ainda mais graves quando se observa o tempo de maturação de determinadas estruturas cerebrais. Os autores destacam que fatores associados à regulação emocional completam sua formação apenas por volta da terceira década de vida. Isso significa que, durante toda a infância e boa parte da adolescência, essas estruturas permanecem em construção, e é justamente essa condição inacabada que torna essa parcela populacional mais vulnerável a adversidades. O adulto que sofre um evento estressante, por mais grave que seja, sofre com um cérebro já erguido; a criança que sofre o mesmo evento — ou, pior, sofre de modo contínuo e ininterrupto, como discutido anteriormente — sofre com um cérebro ainda em obras, absorvendo o estresse não como experiência a ser processada e só depois armazenada, mas como material de construção da própria estrutura.

Visto isso, torna-se necessário compreender a dimensão coletiva desse fenômeno. Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (IBGE, 2019, 2024) revelam que o sofrimento psíquico entre adolescentes brasileiros não constitui um evento isolado ou passageiro, mas uma realidade que se reproduz ao longo do tempo. Em 2019, 50,6% dos estudantes afirmaram preocupar-se excessivamente, 31,4% relataram sentir tristeza na maior parte do tempo e 21,4% declararam acreditar que a vida não valia a pena. As desigualdades entre os grupos também se mostraram expressivas: entre as meninas, 41% relataram tristeza frequente, percentual superior ao dobro do observado entre os meninos (16,7%), enquanto a percepção negativa da própria saúde mental apresentou prevalência mais de três vezes maior no sexo feminino.

Cinco anos depois, a edição de 2024 da pesquisa demonstra que esses indicadores permanecem em patamares igualmente elevados, mantendo aproximadamente  metade  dos  adolescentes  convivendo  com  preocupação recorrente, cerca de um terço relatando tristeza frequente e aproximadamente um em cada cinco afirmando que a vida não vale a pena. Soma-se a isso a inclusão de um novo indicador, segundo o qual aproximadamente um terço dos estudantes declarou ter sentido vontade de machucar-se propositalmente nos doze meses anteriores à pesquisa. A principal implicação desses resultados, entretanto, não reside apenas na manutenção dos percentuais. Como a PeNSE não acompanha os mesmos indivíduos ao longo do tempo, mas investiga, a cada edição, uma nova amostra de estudantes, os adolescentes entrevistados em 2019 provavelmente já concluíram a educação básica e, hoje, encontram-se inseridos no ensino superior ou no mercado de trabalho, seja em vínculos formais regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou em modalidades marcadas pela flexibilização e pela precarização das relações laborais, como a chamada uberização.

Enquanto isso, uma nova geração ocupa as salas de aula e apresenta indicadores de sofrimento psíquico semelhantes aos observados cinco anos antes. Esse movimento permite compreender que o problema ultrapassa a adaptação ao mercado de trabalho propriamente dito. Se Byung-Chul Han analisa a ansiedade como uma consequência da sociedade do desempenho vivenciada pelo trabalhador adulto, os dados da PeNSE sugerem que esse trabalhador já chega ao mercado carregando marcas psíquicas constituídas durante a infância e a adolescência. Assim, ao invés de produzir o adoecimento apenas no momento da inserção profissional, a lógica neoliberal antecipa esse processo, formando sujeitos que ingressam no mundo do trabalho já atravessados por exigências de desempenho, responsabilização individual e autoexploração. A permanência desses indicadores em diferentes gerações de estudantes reforça, portanto, a hipótese central desta pesquisa: mais do que um problema individual, o sofrimento psíquico configura-se como um fenômeno estrutural, continuamente reproduzido pelas condições sociais em que crianças e adolescentes são formados.

É, precisamente, essa distinção que este trabalho persegue desde o início: não a diferença entre um sofrimento maior e um sofrimento menor, mas a diferença entre um sofrimento que acontece a alguém já formado e um sofrimento que forma, ele mesmo, esse alguém. Tornar-se ansioso é atravessar uma tempestade com um teto já construído sobre a cabeça, ainda que esse teto goteje, mesmo que ele rache. Crescer ansioso é erguer as paredes durante o mal tempo, e, quando afinal se está de pé, descobrir que a casa, da base ao topo, está encharcada. Não é uma diferença de intensidade subjetiva, mas de natureza das coisas. O adulto enfrenta o desempenho com uma estrutura consolidada. A criança se molda a partir do que se pede, do que se sofre, do estresse que existe em constância. É moldada tijolo por tijolo, sinapse por sinapse, antes mesmo de ter nome para o que sente.

4   Considerações finais

Diante de uma encruzilhada, os outros caminhos que fogem às presentes estradas precisam ser abertos. O problema está explícito, os casos permanecem elevados, outras crianças estão vindo. O caminho precisa ser recalculado, quiçá reatualizado desde o princípio. Pois, sem a premissa e nem a vontade de prever o futuro, as mentiras contadas caem, as promessas falsas marcam e as respostas veem. Entretanto, de pouco vale o conforto, pois, nesse mundo automatizado e ligeiro, o mero piscar de olhos resulta no arcaico, no tempo esmagado e consumido que já nasce ultrapassado. O homem, diante do abismo do que pode ser, escolhe o aceno da concordância e, mesmo assim, não deixa de ser distinto, pois, como foi descoberto lá atrás, pelo filósofo grego, Heráclito, é impossível entrar em um mesmo rio duas vezes, porque tudo muda o tempo todo, ininterruptamente.

Porém, relembrando Drummond (Andrade, 2006), citado acima, com o tempo perfeito, equilibrado, bom para tudo, diante do qual o povoado sentiu falta das dificuldades que faziam o contar das histórias de heróis, ou do Admirável Mundo Novo (Huxley, 2025, p.286)., sintético, mas perfeito, em que o Selvagem preferira o sofrimento ao soma, algo surge: o homem parece incapaz de habitar, por muito tempo, em um mundo sem atrito. Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra (Nietzsche, Prólogo, § 5), já havia anunciado essa recusa através da figura do “último homem” — aquele que inventou a felicidade, que já não deseja nem arrisca, que apenas pisca satisfeito diante de sua própria mesquinhez. Esse homem não representa o ápice da humanidade, mas seu ponto mais baixo. Pois é no risco, na superação dele mesmo, na dor da escolha, que o humano se reconhece como tal.

Lendo Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, encontra-se o mesmo impulso: diante do Palácio de Cristal (Dostoiévski, 2009, p. 38-39) — símbolo de uma existência inteiramente racional, calculada e previsível —, o homem do subsolo argumenta que a espécie humana preferiria o sofrimento, a dúvida e até a própria autodestruição a uma vida sem espaço para a livre vontade. Só na irracionalidade, no capricho, no deliberado erro, é que o homem se reconhece como sujeito, e não como tecla tocada pela razão alheia. Zamiátin, décadas depois, dramatizaria a mesma tese em Nós (Zamiátin, 2017, p. 56).: em uma sociedade de vidro, matematicamente perfeita, na qual os cidadãos são números, não nomes, o protagonista desenvolve os sonhos, a imaginação e, simbolicamente, uma “alma”, tratada pelo Estado como doença a ser extirpada e, justamente essa imperfeição irracional, é o que o torna, pela primeira vez, humano.

Refletindo sobre A igreja do diabo, de Machado de Assis, que fez do pecado a nova virtude e, mesmo assim, viu seus fiéis retornarem às escondidas à antiga bondade que lhes fora proibida, vê-se que o homem, mesmo liberto de toda culpa, ainda busca, secretamente, um motivo para se sentir pecador (Assis, 2007, p. 185-191). Ou tantos outros exemplos, próprios ou emprestados da cultura mais recente, como quando o Agent Smith, em Matrix, revela que a primeira versão da simulação fora um mundo perfeito, sem dor nem conflito — mas que a espécie humana inteira o rejeitou, sendo necessário reprogramar a realidade com miséria e imperfeição para que fosse, enfim, aceita como real (Matrix, 1999).

Diante de tantos ecos, do dilema do que pode ser, impõe-se um conflito: em cada uma dessas histórias, há um sistema imposto de fora — um Mágico, um Estado, um Diabo, uma simulação — e há sempre algo, no homem, que se ergue contra ele, ainda que o preço seja o sofrimento, a dúvida ou a queda. O homem, ao que parece, não suporta a ausência de atrito; precisa de algo a negar para sentir-se, enfim, livre.

Professor de Língua Portuguesa. Graduado em Letras – Português e Literaturas da Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Alfenas. E-mail: monteiro.thiago82@gmail.com

Sucede, porém, que, na sociedade do desempenho, esse atrito não se apaga, mas se converge para si. Não há Mágico para linchar, não há Diabo a renegar, não há Estado Único a desmascarar, porque, como visto, o explorador e o explorado tornaram-se a mesma pessoa. A vontade de resistir, de instaurar o contrário, de dizer não — que Dostoiévski via como o último reduto da liberdade humana — não se extinguiu, mas perdeu o inimigo externo contra quem se voltar. E, sem alvo, volta-se para dentro. Talvez seja esta a definição mais exata da ansiedade contemporânea: não a falta de sentido, mas o excesso de uma revolta que já não sabe mais contra quem lutar e que, por isso, luta contra si.

Resta, então, perguntar quem herdará essa guerra de inimigos invisíveis: o adulto, que ao menos viveu um tempo em que o atrito ainda tinha rosto, em que era possível apontar um Mágico, um Diabo, um sistema a derrubar, ou a criança, que nasce já dentro da guerra, sem nunca ter conhecido outro estado de coisas, sem ter sequer a lembrança de um inimigo externo para nomear. Se o adulto aprendeu, com o tempo, a lutar contra si mesmo, a criança de hoje já nasce travando essa luta, antes mesmo de saber que existe uma batalha, antes mesmo de saber que existe um “si mesmo” para ser lutado contra.

E, no entanto, é justamente nessa condição inacabada da criança que mora uma fresta de esperança. Como lembra Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.” (Rosa, 1986, p. 15). Se a criança ainda menos não está pronta e ainda mais não foi terminada, é também porque, ainda assim, ela pode ser diferente do que a sociedade

do desempenho já decidiu, de antemão, o que ela deveria ser. A tarefa, portanto, não é blindar a infância contra todo atrito — o medo, lembremos, sempre foi o que trouxe o homem até aqui —, mas devolver a esse desenvolvimento um inimigo que se possa nomear, discutir, enfrentar em conjunto, para que a luta, travada sozinha e por dentro, volte a ser travada como sempre foi, para ser mais suportável: ao lado de alguém, contra algo, e não contra si mesma. É esse o convite que esta pesquisa, ao se debruçar sobre a ansiedade precoce na sociedade neoliberal, pretende deixar: que essa grande travessia de veredas gigantes encontre seu inimigo externo e deixe o interno com as complexidades próprias dele, pois não é preciso vencer a ansiedade, mas é necessário, urgentemente, devolver a ela um rosto extrínseco, que deve ser destruído para que outro tome o seu lugar novamente.

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1 Professor de Língua Portuguesa. Graduado em Letras – Português e Literaturas da Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Alfenas. E-mail: monteiro.thiago82@gmail.com

Como citar este artigo:

LOPES, Thiago Monteiro. O sintético naturalizado: crescer e tornar-se ansioso na sociedade neoliberal. P@rtes.

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