ENTRE O DEVANEIO E A CRUELDADE
ENTRE O DEVANEIO E A CRUELDADE
Pois a beleza não é senão o começo do terror que mal suportamos, e que tanto nos espanta porque serenamente despreza destruir-nos.
Rainer Maria Rilke
Por Margarete Hülsendeger

Escritora luso-angolana, Djaimilia Pereira de Almeida aborda em sua obra temas como memória, colonialismo e deslocamento. Em A visão das plantas[1], acompanha os últimos anos de Celestino, antigo capitão de um navio envolvido no tráfico de pessoas escravizadas. Já velho e isolado, ele retorna à casa da mãe e passa a dedicar-se ao cultivo de um jardim. A serenidade dessa rotina contrasta com um passado marcado por assassinatos, estupros e outras formas de violência.
A principal força do romance está nessa contradição. Celestino demonstra paciência e delicadeza ao cuidar das plantas, embora tenha cometido atos brutais contra outros seres humanos. A personagem provoca, assim, uma pergunta desconfortável: a capacidade de criar beleza pode alterar a maneira como julgamos alguém responsável por crimes terríveis?
Apesar da força desse conflito, tive dificuldade com a construção narrativa. A história não se desenvolve de maneira linear. O presente de Celestino no jardim mistura-se a lembranças, imagens e reflexões, muitas vezes sem transições claras. Em diversos momentos, precisei retornar às páginas anteriores para compreender em que momento da história estava ou a que episódio determinada passagem se referia.

Essa fragmentação pode ser interpretada como uma forma de reproduzir a memória instável de um homem velho, confuso e próximo da morte. Apesar disso, compreender essa possível intenção da autora não eliminou o esforço exigido pelo texto. A sucessão de cortes e devaneios tornou a leitura cansativa e, em certos momentos, quase desestimulante.
A linguagem poética ampliou essa dificuldade. As descrições do jardim, das plantas e das transformações da natureza são construídas com cuidado e beleza. No entanto, a quantidade de imagens líricas produziu certo distanciamento. Em algumas passagens, o lirismo reforça o contraste entre a serenidade do jardim e o horror do passado; em outras, torna menos claro aquilo que está sendo narrado.
Esse tom poético, contudo, nem sempre encobre o passado de Celestino. Em determinados momentos, sua crueldade surge de maneira direta. É o que ocorre na cena em que homens despejam cal sobre as pessoas aprisionadas no porão do navio. Celestino fecha a porta, enquanto os gemidos e pedidos de socorro dão lugar a “um silêncio que apaziguou os piratas”. Passagens como essa rompem o fluxo contemplativo e expõem sem disfarces a dimensão de seus atos brutais.
Logo após a exposição dessa crueldade, a referência à loucura acrescenta outra perspectiva à personagem. Em determinado trecho, afirma-se que “a loucura é o mais santo dos remédios” e que a casa não fora ocupada por um “facínora”, mas por “um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro”. O trecho não apaga os crimes já revelados, mas mostra como a velhice, o isolamento e a desordem da consciência interferem na maneira como Celestino nos é apresentado. A loucura não funciona como absolvição, apenas torna sua figura ainda mais ambígua.
O romance alterna, portanto, lembranças nebulosas, contemplação da natureza e cenas de violência concreta. Essa mudança de registro intensifica o choque entre o presente silencioso de Celestino e as atrocidades cometidas por ele. Ao mesmo tempo, a forma abrupta como essas passagens surgem aumenta a sensação de instabilidade e dificulta o acompanhamento da narrativa.
A visão das plantas apresenta uma questão moral poderosa e constrói uma personagem profundamente contraditória. Sua estrutura fragmentada e seu lirismo podem ser compreendidos como formas de representar a memória e a desorientação de Celestino. Para mim, porém, essas escolhas também tornaram a experiência de leitura exigente e, por vezes, confusa. O romance impressiona pelo choque entre beleza e crueldade, mas nem sempre oferece ao leitor um caminho claro para atravessá-lo.
[1] ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo, Todavia, 2021.








