O QUE FIZERAM COM CERTAS COISAS?
O QUE FIZERAM COM CERTAS COISAS?
Por Adilson Luiz Gonçalves
Vi muitas coisas mudarem ao longo de minha vida.
Hoje, ouço jovens afirmarem coisas como se as tivessem vivido. Eu as vivi e posso afirmar que, em minha ótica, nem tudo mudou para melhor.

Palavras e expressões tiveram seu significado alterado. Novas foram criadas como se as existentes não fossem suficientes. O pior é que algumas palavras, coisas, cores e lugares foram “apropriados” por alguns. Agora, quem quer que os use passou a ser identificado como parte dos grupos que se apropriaram delas, como se existisse um “usucapião” nesse âmbito. Isso não deixa de ser um preconceito.
Tal já existia em certas religiões e ideologias, que criaram cartilhas, livros “sagrados”, gestuais, sinais, códigos e normas de expressão e conduta para diferenciarem seus membros de outros grupos concorrentes, para torná-los divergentes.
Um dos aprendizados de minha vivência confirma o ditado: “As aparências enganam”.
Melanie Safka, ou simplesmente Melanie, é uma cantora que fez relativo sucesso entre os anos de 1960 e 70.
Eu só soube quem ela era recentemente, mas conhecia duas de suas músicas.
Ouvi “Brand new key” num episódio da série Chicago Hope, nos anos de 1990. O personagem de Adam Arkin, em coma, sonhou com uma patinadora ao som dessa música. Mas a que eu conheço há mais tempo é “Look what they’ve done to my song!” (“Olha o que eles fizeram com a minha canção”), gravada pela orquestra de Ray Conniff em seus melhores momentos.
Não era uma pergunta, mas uma exclamação, que a letra explica: “Eles mudaram minha canção!”.
No entanto, a frase que mais chama a atenção, por ser extremamente atual, é: “Olha o que eles fizeram com a minha mente! Eles a despedaçaram como um osso de frango!”
É mais ou menos o que tem acontecido há algumas décadas com as mentes de quem está sendo condicionado nesse contexto, sejam jovens ou mentes sem rumo, solo fértil para oportunistas e malucos carismáticos de plantão.
Quem se submete a essa lavagem cerebral, agora conhecida como imunização cognitiva, só pode usar certos vocabulários, símbolos, cores, ler livros e frequentar ambientes próprios, ou até se manifestar, se fizer parte ou for simpatizante do grupo que os considera de “domínio exclusivo”. Caso contrário, será acusado de um outro tipo de apropriação, indébita, considerada uma afronta ou até um crime, dependendo de quem julga ou tenta impor esse modelo institucionalmente, classificando quem não o aceita como “outros”.
Assim, o que era público passou a ser usado seletivamente, criando estereótipos e mal-entendidos.
É fato que esse tipo de apropriação é histórico. Desde a pré-história, grupos tinham formas de se identificarem e, dentro deles, também havia meios de distinção. Algumas culturas dividiam seus membros em castas. Há quem ainda o faça. Regimes autoritários marcavam fisicamente ou obrigavam os que consideravam de classes inferiores e escravos a usarem indumentária que os diferenciasse dos “puros”.
A civilização evoluiu na medida em que diferenças foram sendo superadas. Infelizmente, parece que vivemos tempos de retrocesso em que diferenças são cultivadas desde a infância e adolescência por oportunistas, vitimistas e mistificadores inescrupulosos. Distorcer fatos, mentir, iludir e disseminar ódio para alcançarem seus propósitos passou a ser um meio de vida.
Considerando esse cenário, o título deste texto também poderia ser: “O que fizeram com as coisas certas?”, se bem que sempre haverá quem considere certo apenas o que concorda ou foi condicionado a crer como verdade insofismável.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras








