SOBRE VALORES QUE NÃO TÊM PREÇO

Meu pai foi um brilhante administrador e um trabalhador incansável. Tudo o que construiu foi de forma honesta, tendo minha mãe e nós, cinco filhos, colaborando. Foi assim que concretizou o sonho da casa própria.
Para tanto, a palavra de ordem em casa era “economia”, salvo raríssimas exceções.
Tudo era o mais barato: o sapato, o tênis “Conga”, o uniforme escolar, que tinham que durar no mínimo um ano, ou até que fossem tão apertados que fosse impossível usar. O material escolar, exceto os livros das disciplinas, era comprado na loja do MEC, que ficava atrás do Palácio José Bonifácio, no Centro de Santos. Mesmo assim, alguns passavam de irmão para irmão.
A comida era feita em casa. Restaurante? Dá para contar nos dedos de uma das mãos as vezes que fomos. Meu pai aprendeu receita de massa de pizza e nos ensinou. As festas também eram em casa. Fazíamos tudo: bolo, doces e salgadinhos. As roupas, a maioria era minha mãe que costurava.
Eu fazia meus brinquedos no quartinho de casa, onde meu pai tinha várias ferramentas e insumos, pois os consertos era ele que fazia, comigo como ajudante.
No fim do ano, ele e minha mãe iam a São Paulo, na Rua 25 de Março e imediações, comprar presentes para o Natal e roupas. Como os filhos ficavam em casa, às vezes as roupas não serviam e viravam presentes para primos.
Havia duas regras que meu pai considerava sagradas, como único provedor: fartura à mesa e estudo.
Além disso, ele sempre nos incentivou a trabalhar desde cedo, num tempo em que não havia Estatuto da Criança e do Adolescente, e a gente já começava com “carteira assinada” e todas as responsabilidades pelo trabalho que se fazia. Eu e meus dois irmãos mais velhos começamos a trabalhar aos 14 ou 15 anos.
Estudei em escolas públicas até o atual Ensino Médio, num tempo em que era preciso prestar exame de admissão ou “vestibulinho” para cursar as melhores, que primavam por avaliações rigorosas e aprovação por mérito.
Essa forma de pensar e planejar passou a fazer parte de minha vida, e meu respeito por meus pais, por seu esforço em nos criar e pelos valores que nos passaram, que transcendem qualquer religião ou ideologia, são bens que trago comigo.
Passamos muitos anos, minha esposa e eu, também nos esforçando para ter uma vida mais tranquila. Embora nossa criação tenha ocorrido em escalas diferentes, a austeridade era comum. Por isso, sempre pensamos mil vezes antes de sair desse padrão.
Mas é assim que se constrói alguma coisa na vida: nunca comprando o que não pode, ostentando para os outros verem, ou esperando que alguém pague as nossas contas, por “direito” ou comodismo.
Os principais valores na vida raramente podem ser comprados com dinheiro. E, quando os valores resultam de favores ou submissões, viram dívidas, quase sempre impagáveis.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras








