Camila Braz Viscardi é graduada em História pela Universidade da Região da Campanha (Urcamp), especialista em Mídias na Educação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professora da rede estadual de educação do Rio Grande do Sul. Contato: camilabb@gmail.com

Camila Braz Viscardi

RESUMO
O presente artigo tem como propósito fazer um resgate histórico das Histórias em Quadrinhos através de uma breve pesquisa bibliográfica. O objetivo do trabalho é percorrer as principais obras que marcaram a trajetória desse gênero de publicação abordando sua importância como fonte de estudo da História, de forma a evidenciar, que as HQ’s devem ser encaradas não apenas como complementação estética, o que ocorre na maioria dos livros didáticos, mas como objeto de estudo que viabiliza a confluência da linguagem e da imagem na formação de saberes históricos.
PALAVRAS CHAVES: História em Quadrinhos. Ensino de História. HQ como objeto histórico

ABSTRACT
This article aims to make a historical restoration of Comics through a brief literature review. The objective is to go through the major works that have marked the course of this kind of publication addressing its importance as a source of study of history, in order to show that the comics should be seen not only as an aesthetic complement, which occurs in most textbooks, but books as an object of study that enables the confluence of language and image in the formation of historical knowledge.
KEYWORDS: Comic. Teaching of History. HQ as a historical object

1. INTRODUÇÃO

Incontestavelmente os quadrinhos ainda hoje, representam um meio de comunicação de massa de amplo apelo popular, que vem ganhando cada vez mais espaço tanto como recurso didático quanto como na elaboração de questões do Enem e de vestibulares, em várias em áreas do conhecimento.
O sucesso dos quadrinhos pode ser evidenciado na retomada recente desse gênero por muitos diretores de cinema que apostaram no resgate dos super-heróis da era de ouro das HQ’s em superproduções, além disso, muitos jovens quadrinhistas têm utilizado as redes sociais como forma de divulgar seus trabalhos alcançando um grande número de seguidores.
A popularidade, no entanto, paradoxalmente se contrapõe a desvalorização desse recurso didático fora as aulas de Língua Portuguesa, por ser muitas vezes encarada, apenas como ferramenta para o estudo de gramática e de intepretação.
O presente artigo se propõe a traçar um breve histórico das HQ’s evidenciando a fase de críticas e a recente aproximação do gênero como ferramenta didática.

2. A HISTÓRIA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Antes de entender o contexto em que esse gênero de publicação nasceu e evolui, convém definir o que é propriamente História em Quadrinhos?
Muitas vezes, o termo HQ ou comics é empregado erroneamente para designar outras manifestações artísticas como a charge e o cartoon . Conforme Braga Júnior “as histórias em quadrinhos são produções midiáticas vinculadas ao mundo do entretenimento e da expressão artística. São publicações impressas ou digitalizadas, que narram, através de uma sequência de imagens desenhadas, situações das mais diversas”. (BRAGA JÚNIOR, 2012, p. 16)
A respeito do começo dos quadrinhos, sua origem é incerta, mas os pesquisadores parecem concordar que o emprego de imagens pelos contadores de história remonta os primórdios da humanidade.
A arte sequencial teria origem nas pinturas rupestres que representavam o cotidiano do homem pré-histórico, portanto, inclusive precedendo a própria comunicação escrita.
Sob esse ponto de vista, a História revela muitos outros exemplos, seja nos murais das pirâmides egípcias, nos vasos dos artistas gregos, nas tapeçarias e iluminuras da Idade Média ou nos afrescos renascentistas.
O formato de HQ moderno possui origem imprecisa, já que norte-americanos, ingleses, franceses, suíços, alemães, espanhóis e até mesmo brasileiros brigam pelo seu pioneirismo. Entretanto, todos parecem concordar que o gênero como conhecemos hoje surgiu entre o final do século XIX e o início do século XX, sendo publicado em diversos periódicos e se espalhando rapidamente pelo mundo.
Desse modo, os quadrinhos surgem “amparados numa rivalidade entre grupos jornalísticos” (CIRNE, 1972, p. 12) e voltados, paradoxalmente, para o público adulto norte-americano, formado majoritariamente por imigrantes pobres e semianalfabetos.
Como define o professor e pesquisador Dr. Waldomiro Vergueiro, atual coordenador do Observatório de História em Quadrinhos da USP: Despontando inicialmente nas páginas dominicais [...]- as célebres tiras-,[...] disseminaram a visão de mundo norte-americana, colaborando, juntamente com o cinema, para a globalização dos valores e cultura daquele país. (VERGUEIRO, 2004, p. 10)
No Brasil, esse gênero literário teve como percursor o desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini. Segundo Palhares “em 30 de janeiro de 1869 nascia à história em quadrinhos “As Aventuras de Nhô Quim” ou “Impressões de uma viagem à Corte”.” (PALHARES, 2008, p.07)
A HQ fora publicada pela revista Vida Fluminense, do Rio de Janeiro, antecedendo a publicação norte-americana do “Yellow Kid” (Garoto Amarelo), de Richard Outcaut, em 1895, que na maioria das vezes apontada pelos pesquisadores estrangeiros como a HQ pioneira.
Os livros norte-americanos nem tem dúvida: a primeira História em quadrinhos é o Yellow Kid (…). Mas a Inglaterra apresenta as páginas desenhadas por Gilbert Dalziel em 1884, como prova que os quadrinhos são uma invenção inglesa. Os alemães podem afirmar que os dois primeiros heróis dos quadrinhos surgiram em 1865 na Alemanha: foram Max e Moritz, de Wilhelm Busch. Mas, por outro lado, os espanhóis podem falar dos quadrinhos de Goya, do início do séc. XIX. No Brasil, orgulhamo-nos do ítalo brasileiro, Angelo Agostini que inventou os quadrinhos em 1884. (CAMPOS apud PESSOA, 2010, p.02)
Em síntese, ambas as publicações começaram a ser veiculadas em preto e branco, no entanto, Yellow Kid foi o pioneiro do uso das cores, a publicação brasileira lembrava o padrão europeu da “narrativa figurada”, sem balões e com textos ao pé de cada quadrinho, enquanto a publicação de Richard Outcaut inicialmente só trazia mensagens soltas, sobretudo, dentro das vestes do menino, mais tarde, foi a pioneira no uso dos balões.
No Brasil, as HQ’s se popularizaram em 1905, com o surgimento da revista infantil Tico-Tico que passara a publicar histórias em quadrinhos, tanto de artistas nacionais quanto plágios de personagens já consagrados em publicações estrangeiras.
A editora Brasil-América Limitada (EBAL), fundada por Adolfo Aizen, conseguiria se tornar uma rival de peso, apostando em grandes tiragens e numa maior “respeitabilidade” das HQ’s em resposta a crescente desconfiança de alguns setores da sociedade com a quadrinhização de romances clássicos e biografias de grandes “vultos da pátria” como Marechal Rondon, Osvaldo Cruz, Santos Dumont, José Bonifácio e outros, além de diversos quadrinhos de maior apelo popular.
Foi a partir dessa época, que os gibis com personagens essencialmente nacionais começaram a ter como concorrência os quadrinhos americanos que passavam a ser traduzidos e publicados no país.
O Brasil seria palco de um verdadeiro duelo entre editoras personificadas nas imagens de Aizen e Roberto Marinho, trazendo como resultado a difusão de uma grande variedade de publicações e personagens tanto estrangeiros traduzidos quanto nacionais, além promover uma melhora em relação à qualidade dos gibis.
No final dos anos 30, nos EUA, nascia o gênero que iria consagrar as HQ’s, com o surgimento dos super-heróis. Iniciava-se a chamada “Era de Ouro” que segundo Krakhecke “teve inicio em 1938 com o aparecimento de Superman, e leva esse nome, pois foi a época que os quadrinhos do gênero atingiram vendagens astronômicas.” (KRAKHECKE, 2009. p. 54)
Mas, foi com a Segunda Guerra Mundial que os quadrinhos norte-americanos ganharam popularidade no mundo todo com o engajamento fictício dos heróis no conflito, tornando essa visão maniqueísta uma excelente forma de propaganda desse gênero de publicação, ao mesmo tempo em que se tornavam também potenciais armas ideológicas que serviam tanto para elevar a moral dos soldados quanto à do povo.
Publicações da época traziam os super-heróis lutando diretamente contra os nazistas e os japoneses e em muitas edições chegaram, inclusive, a combater caricaturas do próprio Adolf Hitler.
A Segunda Guerra Mundial iria marcar também o conteúdo das narrativas dos personagens infantis, como os da Disney que apareciam tanto nas HQ’s quanto em desenhos animados e em cartazes de guerra, fazendo propaganda contra os regimes totalitários e promovendo a compra de títulos de guerra.
Está fase ficaria marcada pela extrema violência dos quadrinhos e pelo nascimento de dois personagens emblemáticos: o herói Super Homem e a primeira heroína, Mulher Maravilha, ambos viriam a se tornar verdadeiros ícones americanos com vestes que lembravam a bandeira americana.
Com o pós-guerra e a bipolaridade, as HQ’s paradoxalmente tiveram suas tiragens ampliadas ganhando cada vez mais fãs e causando um verdadeiro boom de vendas, sobretudo com as publicações das editoras Marvel (dona do Homem Aranha e dos X-Men) e DC Comics (proprietária do Super Homem e do Batman).
Ao mesmo tempo, os quadrinhos passam a sofrer um combate implacável por parte de muitos psicólogos e educadores que julgavam as HQ’s como “inimigas do ensino e do aprendizado” (RAMA E VERGUEIRO, 2008, p.16), alguns países até mesmo estabeleceram leis que restringiam à publicação de quadrinhos.
Segundo Vergueiro (2006) o preconceito pode ser explicado pela influência negativa do livro “Seduction of the Innocent” (A sedução dos inocentes), do psiquiatra alemão Frederic Wertham, que lançado nos Estados Unidos, se tornou a visão dominante de sua época.
Os frágeis argumentos de Wertham ganharam um amplo espaço na mídia e tiveram um forte impacto na sociedade da época. Basicamente o livro e as inúmeras publicações sobre este em jornais e revistas sustentavam a ideia que os quadrinhos poderiam provocar anomalias de comportamento, já que incitavam a delinquência através da violência e o homossexualismo.
O autor pregava que a leitura das histórias em quadrinhos: afastava as crianças dos objetivos “mais nobres” – como o conhecimento do “mundo dos livros” e o estudo de “assuntos sérios” –, que causava prejuízos ao rendimento escolar e poderia, inclusive, gerar consequências ainda mais aterradoras, como o embotamento do raciocínio lógico, a dificuldade para a apreensão de ideias abstratas e o mergulho em um ambiente imaginativo prejudicial ao relacionamento social e afetivo de seus leitores. (RAMA E VERGUEIRO, 2008, p.16)
Os quadrinhos tiveram que sofrer mudanças para agradar os pais mais conservadores. Muitos personagens simplesmente desapareceram e outros se tornaram menos agressivos. A imagem que os super-heróis não matam, perpetuada até hoje, vai surgir nesse momento como uma forma de restringir a antiga violência.
Nos EUA, cumprindo uma determinação do Congresso as HQ’s receberam um código de ética uma espécie de autocensura que proibia a vinculação de violência extrema e sexo e obrigava as editoras a estampar na capa um selo de aprovação.
Para chamar a atenção do público e manter as altas tiragens, os quadrinhos vão se adequar a ideologia da época, passando os vilões a aparecer vestidos com a estrela vermelha, a foice e o martelo, símbolos icônicos do comunismo que foram amplamente combatidos durante os anos de ápice da Guerra Fria.
Nesse cenário de restrições e desconfianças, alguns autores com o argentino Quino e o norte-americano Charles M. Schulz apostam em publicações aparentemente inocentes que exploram o universo infantil como no caso da menina Mafalda e do garoto Charlie Brown, respectivamente, e sob essa ótica mostrar as grandes contradições do mundo adulto.
Especialmente no Brasil e na Argentina, esse fora um período bastante próspero para HQ’s, mesmo com a forte censura do regime militar. No país, o semanário Pasquim editado entre 1969 e 1991, ganhará popularidade com humor debochado e descontraído, sobretudo após a promulgação do repressivo ato AI-5 de 1968, onde toda a produção jornalística e cultural foi ferozmente censurada no país.
Muitos cartunistas conquistaram seu espaço nos anos de chumbo ligados, sobretudo, à crítica política, dentre estes estavam Ziraldo, Millôr Fernandes, Laerte, Glauco, Angeli, Henfil, entre muitos outros.
Passada a época da “moralização” com a elaboração, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, de um código de ética para os quadrinhos, as HQ’s se tornaram definitivamente um produto cultural lucrativo, segundo Gonçalo Júnior (2004), em 1960, só no mercado brasileiro, contava com 15 milhões de HQ’s vendidas por mês – 180 milhões por ano.
Nos anos finais do século XX, os mangás, os quadrinhos japoneses, cujos personagens possuem os característicos olhos grandes, surpreenderam o público com HQ’s cheias de ação, emplacando sucessos duplos com sua versão para desenho animado como em Dragon Ball e Naruto.
No Brasil, desenhistas como Maurício de Souza criador da Turma da Mônica e Ziraldo com a Turma do Pererê e Menino Maluquinho, dominam o público infantil se aventurando também no mercado paradidático.
Ultimamente, muitas histórias em quadrinhos da considerada “época de ouro e de prata” norte-americana estão sendo resgatadas pelo cinema, em superproduções que muitas vezes são sucesso de bilheteria como em Watchmen, Thor, Quarteto Fantástico, Homem Aranha, Batman, Homem de Ferro, dentre muitos outros, levando novas gerações a conhecer e a apreciar a chamada “nona arte”.
As histórias em quadrinhos mudaram muito nessas últimas décadas, moldando-se ao gosto do público foram introduzidas publicações com personagens femininas tanto heroínas quanto vilãs (Elektra, Mulher-Gato, Tempestade e outras), além de muitos heróis negros (Luke Cage, Pantera Negra, Falcão, entre outros).
Os quadrinhos, além disso, levantaram o debate às diferenças com em X-Men que tem como líder um personagem tetraplégico (professor Xavier) e em O Demolidor com um super-herói deficiente visual, recentemente, foi abordado também o tema homossexualidade com o personagem Lanterna Verde.
A aproximação recente entre o mundo dos super-heróis e dos homens fez com que o advento e a concorrência de outras mídias como a televisão e a Internet, não impedissem as HQ’s de conquistar um amplo número de seguidores por todo o mundo.
A Internet, inclusive, tem revelado muitos novos cartunistas que divulgam seus trabalhos em blogs e em redes sociais e alcançam um grande número de seguidores, como Alexandre Beck, Allan Sieber, Arnaldo Branco, Carlos Ruas, Willian Leite, Rafael Sica, etc.
Outros como os gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá tem se aventurado, também, na adaptação de romances (graphic novel) como a obra O Alienista, de Machado de Assis, que foi premiada em 2008 com o Prêmio Jabuti de Melhor livro didático e paradidático de ensino fundamental e médio.
Em síntese, os quadrinhos são um verdadeiro reflexo da sociedade e do momento histórico vivido e por isso, devem ser encarados como uma ferramenta pedagógica densa e de fácil aceitação e compreensão por parte dos alunos.

REFERÊNCIAS
BRAGA JÚNIOR, A. X. Quadrinhos independentes: usando imagens para contar muito mais que história. História, imagem e narrativas, no 14, abril 2012.
CALAZANS, F. M. de A. História em quadrinhos na escola. São Paulo: Paulus, 2004.
CARVALHO, DJota. A educação está no gibi. Campinas: Papirus, 2006.
CIRNE, M. A explosão criativa dos quadrinhos. Petrópolis: Vozes, 1972.
ECO, U. Mafalda ou a Recusa. In: Toda Mafalda. 7. ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2003
EISNER, W. Quadrinhos e arte sequencial. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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KRAKHECKE, Carlos André. IN TESIS: Representações da Guerra Fria na História em Quadrinhos Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen (1979-1987). Porto Alegre: PUCRS, 2009. Disponível em Acesso em 28 de setembro de 2013.
MENDONÇA, Márcia Rodrigues de Souza. Um gênero quadro a quadro: a história em quadrinhos. In: DIONÍSIO, A. P.; A. R. Machado e BEZERRA, M. A. Gêneros textuais & ensino. 5. ed. Rio de Janeiro: Lucena, 2007.
PALHARES, M. C.. História em Quadrinhos: uma ferramenta pedagógica para o ensino de história. Disponível em: Acesso em 28 de setembro de 2013.
PESSOA, Alberto Ricardo. Histórias em Quadrinhos: Um meio intermediático. Biblioteca Online das Ciências da Comunicação. São Paulo, s.v, s.n, p.1-15, 2008 Acesso em 08 de novembro de 2013.
QUINO. Toda Mafalda. 1ª Ed. São Paulo: Marins Fontes, 1993.
RAMA, A.; VERGUEIRO, W. Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. 3ª Ed. São Paulo: Contexto, 2006.
SILVA, D. da . Quadrinhos para Quadrados. Porto Alegre; Bels, 1979.
SILVA, J, N. HQ nos Livros Didáticos. Org: LUYTEN, Sonia Maria Bibe. História em Quadrinhos: Leitura Crítica. São Paulo: Paulinas, 1985.
VILELA, T. Os quadrinhos na aula de história. In; RAMA, Â. e VERGUEIRO, W. (orgs.). Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula. 3ª Ed. São Paulo: Contexto, 2006
VERGUEIRO, W. Uso das HQ no ensino In:_____(Org), Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004.

Como citar:

BRAZ, C. V. VILÕES E HERÓIS: A HISTÓRIA ATRAVÉS DOS QUADRINHOS. Partes(São Paulo), maio 2014

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