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Margarete Hülsendeger

O problema do nosso tempo é que o futuro não é o que costumava ser.

Paul Valéry

Um restaurante pequeno, com mesas onde cabem no máximo quatro pessoas, sobre elas um arranjo floral simples, mas elegante. Em um canto pouco iluminado, um casal sorri enquanto o garçom serve a bebida. Estão tão imersos em seu mundo que não veem o vinho e nem sentem o sabor da comida. Olhos brilhantes, sorriso nos lábios, mãos agitadas, seguram com força o celular enquanto trocam mensagens com os amigos. Eles precisam dizer como o lugar é bonito e romântico, a moça faz uma foto do interior. Eles precisam contar que o prato escolhido é fantástico, o rapaz tira uma foto da comida. Mais risos. Mais mãos agitadas. Mais sinais de mensagens chegando. Comem olhando para o celular, o rapaz chega a enviar um coração vermelho para a moça. Ela sorri e rapidamente envia uma carinha jogando um beijo. A refeição termina entre risadinhas e mais toques rápidos no teclado do celular. Enquanto o rapaz paga (por mensagem no dia anterior ele disse que pagaria, afinal era aniversário da moça), ela ri alto. A moça sorridente mostra a tela do celular onde aparece um rosto torcido, em uma careta, de um amigo comum. Os dois riem divertidos. Saem do restaurante e caminham para o carro. Quando deixam o estacionamento a moça continua digitando distraída, contando certamente como a noite tinha sido maravilhosa. O rapaz dirige com uma mão e com a outra tenta responder a mensagem que acabara de chegar.

A cena pode ser um pouco exagerada, mas, com certeza, não está muito longe da verdade. Costumo dizer que as crianças nascidas neste século vêm ao mundo com um celular ou smartphone na mão, já conectadas ao wi fi. Basta passear pelo shopping em uma tarde de sábado ou de domingo e observar. Enxames de adolescentes com fones de ouvido caminham pelos corredores sem olhar para os lados e quando sentam nas mesas das praças de alimentação “conversam” virtualmente com amigos ausentes e até mesmo com os presentes. Crianças pequenas são transportadas em carrinhos carregando nas mãos tablets nos quais podem acessar jogos, músicas e filmes. Quer ter um almoço tranquilo em um restaurante? Entregue o celular ao seu filho, ele saberá o que fazer.

Há algum tempo, a Apple, sabedora das necessidades de seus potenciais clientes, vem avançando ainda mais nesse universo virtual. Há duas décadas anuncia-se uma tecnologia chamada wearable que traduzindo significa “que se pode vestir”. Segundo as notícias, em um único dia o Apple Watch vendeu 957 mil unidades nos Estados Unidos. O que faz esse novo aparelho? Ele registra movimentos – subir escadas, pegar uma criança no colo – e, o que é mais surrealista, ele não só envia sua frequência cardíaca para outra pessoa, como também a cutuca. A empresa, no seu site, anuncia o aparelho utilizando frases do tipo: “Usar o Apple Watch é uma experiência totalmente nova e mais pessoal que nunca” ou “Com o Apple Watch, você se comunica com as pessoas que gosta de maneira natural e divertida, enviando um desenho, toque ou até o seu coração”[1]. Aqui, é claro, o verbo “comunicar” assume um significado que nada tem a ver com qualquer tipo de conexão mais íntima; na verdade, hoje, comunicar-se significa interação física reduzida ao mínimo necessário.

O problema é que, segundo os especialistas, se trata de um movimento irreversível, ou seja, o ser humano está se tornando tão dependente de todos esses dispositivos que chegará um momento que não poderá mais prescindir deles. E os especialistas na área vão ainda mais longe, afirmando que a conexão homem-tecnologia será tão radical que os aparelhos se tornarão extensões dos nossos corpos, como se fossem próteses. Esse fenômeno, inclusive, tem um nome: “computação ubíqua”.

Mesmo que a expressão tenha sido cunhada nos anos 1990 por Mark Weiser, um dos diretores da empresa Xerox, até hoje não se sabe quais as consequências que essa tralha tecnológica provocará quando estiver integrada ao corpo. No entanto, já se sabe que haverá uma grande mudança cognitiva, pois todos esses aparelhos permitirão um compartilhamento de informações em um nível ainda mais radical do que atualmente experimentamos. Tuitar, bater papo, curtir e compartilhar farão parte das nossas vidas como comer e respirar. Aliás, prevê-se que o número de casos de depressão irá aumentar induzidos pela impossibilidade de adquirir esses novos aparelhos.

Enfim, o fato inconteste é que o futuro nos reserva um mundo diferente. Um mundo onde a dependência gerada pelas novas tecnologias provocará o surgimento de diferentes formas de se relacionar e de educar. A questão é: saberemos gerenciar, de forma saudável, esses novos comportamentos? Até onde levaremos essa necessidade de conexão e que preço estaremos dispostos a pagar por ela? De qualquer maneira, não quero concluir parecendo uma daquelas pessoas esquisitas que defende a volta a um mundo sem eletricidade ou computadores. Eu realmente acredito que a tecnologia esta aí para ajudar, e se existem problemas, eles não estão nela, mas no que fazemos com ela. Contudo, não posso deixar de me preocupar com a possibilidade de Einstein ter alguma razão quando considerou “chocantemente óbvio” o fato de a tecnologia haver excedido a nossa humanidade. Esperemos que ele tenha se equivocado nessa avaliação pessimista.


[1] Disponível em: <https://www.apple.com/br/watch/> Acesso em: 10 jul. 2015.

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Literária na PUC-RS

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestranda em Teoria Literária na PUC-RS

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