Lições de uma experiência: como aprender História em um ambiente intercultural

Este artigo tem como objetivo refletir o processo de ensino e aprendizagem em História a partir da intervenção com estudantes do 7º ano do ensino fundamental de uma escola pública situada em Ituiutaba, MG, Brasil. Propõe-se apresentar a escola e seus sujeitos para conhecer a partir das observações realizadas durante o estágio. Também iremos discutir as possibilidades de alcançar jovens num ambiente plural. Constatamos tais aspectos a partir da observação, da produção de notas de campo e desenvolvimento de uma sequência didática.

Palavras chave: Ensino de História, multiculturalismo, História, Estágio Supervisionado.

ABSTRACT

This article will reflects on the process of history teaching through a intervention with students of the 7th grade of middle school of a public school in Ituiutaba, MG, Brazil. It is proposed to present the school and its subjects to comprehend who was observed during the intervention. We will also discuss the possibilities on how to stimulate students in a plural environment. The analysis was based from observations, the production of a camp diary and the development of a didatic sequence.

Keywords: History teaching, multiculturalism, History, Supervised internship.

Introdução

Entendemos a experiência não apenas como algo que passa por nós, mas que nos passa, nos atravessa e deixa marcas. Foi nessa perspectiva que vivenciamos o Estágio no curso de História da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia – FACIP/UFU. Neste artigo limitamos em refletir sobre o processo de ensino e de aprendizagem em História por parte de estudantes do sétimo ano do ensino fundamental de uma escola pública localizada na cidade de Ituiutaba, MG, Brasil.

Como metodologia de pesquisa foi inspiração etnográfica. Ao longo de 2015 observamos o espaço escolar e de forma mais específica as aulas de História. Em conjunto com a professora da escola campo de estágio elegemos a turma do sétimo ano. A partir daí produzimos e desenvolvemos uma sequência didática que foi analisada buscando sinais de como os estudantes aprendem História.

A escola e os sujeitos

A escola escolhida para desenvolvimento das regências foi a Escola Estadual Rotary em Ituiutaba – MG. A Professora da turma demonstrava muito respeito e atenção aos discentes. Quanto às atividades e exercícios, identificamos o uso de diferentes linguagens como complemento de conteúdo. A professora utilizou histórias em quadrinhos, pintura, mapas, filmes e documentários que podem mobilizar os estudantes no processo de ensinar e aprender História.  Essa questão nos permite relacionar com os ensinamentos de Mellouki e Gauthier (2004) ao afirmarem que o professor é como mestre herdeiro, que causa sinergia entre sua herança cultural com a do aluno.

Tal herança explicada pelos autores não pode passar de forma despercebida. Ela deve ser pensada, problematizada e refletida para que possa ser passada adiante. Ainda segundo Mellouki e Gauthier,

a herança pode tornar-se um peso morto que os vivos devem carregar, se ela não for, ao mesmo tempo, herança da capacidade de apreciá-la, de evocá-la, de aceitá-la ou de recusá-la. Toda herança é inaceitável, se não for ao mesmo tempo desenvolvimento da faculdade crítica. (MELLOUKI & GAUTHIER, 2004, p.557-558)

Considerar os saberes dos jovens durante o processo de ensinar se torna cada dia mais relevante, e necessário, para torná-los críticos sobre sua própria história. O aluno não é mais um espectador passivo de aulas expositivas. O professor deixou de ser a principal fonte de saber transmissora de História. Assim, pode-se perceber que existem outras maneiras de aplicar conhecimento além das aulas expositivas que pode ser considerada entediante por alguns alunos, dificultando seu aprendizado. Diferentes linguagens facilitam o entendimento do aluno.

Segundo o Projeto Político Pedagógico da escola, o PPP, os alunos que frequentam a escola são pertencentes às proximidades do bairro, mas também, alunos da zona rural, cidades vizinhas e crianças de famílias migratórias vindo, geralmente, do estado de Alagoas. A condição social das famílias da adjacência é classe baixa e são, em sua maioria, assalariados. De acordo com informações da própria escola, grande partes dos responsáveis pelos alunos moram de aluguel, vivem com mães solteiras ou com outros parentes.  Estas informações revelam que o espaço escolar é multicultural.

Para Peter Mclaren a palavra multiculturalismo e polissêmica, usada a partir dos anos de 1960, inicialmente pelos movimentos sociais, o termo reivindicava a críticas às diversas culturas, apropriada institucionalmente passou a ser utilizada como reconhecimento da diversidade porém, com o propósito da classe subalterna apropriar da cultura dominante, o autor denomina esse tipo de multiculturalismo como assimilacionista. Indo de encontro com essa proposta o autor defende o multiculturalismo revolucionário. Para o autor,

O multiculturalismo revolucionário reconhece que as estruturas objetivas nas quais vivemos, as relações determinadas que nos produzem estão todas refletidas em nossas experiências cotidianas […]. O multiculturalismo revolucionário é um multiculturalismo feminista-socialista que desafia os processos historicamente sedimentados, através dos quais identidades de raça, classe e gênero são produzidos dentro da sociedade capitalista (MCLAREN, 2000, p. 284).

Por meio das observações verifiquei que prevalece na escola o multiculturalismo assimilacionista, no qual as diferenças não são problematizadas e o currículo monocultural prevalece. Tais questões podem ser responsáveis pelo desinteresse no aprendizado escolar, considerado por muitos professores da escola como alunos que possuem dificuldade de aprendizado.

Tentando romper com essa perspectiva problematizando as diferenças que propomos trabalhar uma sequência didática abordando a História da África. Pensei numa sequência didática que trabalhasse com conceitos sobre sociedade, continente africano, localização geográfica e diversidade étnica e cultural. Os objetivos foram: identificar o mapa do continente africano conceituando continente e país; Repensar a imagem naturalizada que os jovens possuem da África e sua cultura, para que seja possível sua valorização e reconhecimento; desmistificar estereótipos que foram normatizados pelas ferramentas de mídia e senso comum causando uma nova visão; analisar a importância de estudar a história da África para esclarecer a herança que nos foi deixada; abordar os seguintes conceitos: cidadania, preconceito, racismo.

O desenvolvimento da sequência didática: algumas considerações

Buscamos, previamente, interagir com a turma para que fosse possível captar os saberes dos jovens durante a regência. Para mobilizar os estudantes optamos em usar imagens retiradas da internet para ser tema de um trabalho em grupo. Concordamos com Lautier (2011, p.44) ao afirmar que as imagens podem contribuir para o processo de ensinar e aprender história.

Na primeira aula pedimos para que os alunos fizessem cinco grupos. Cada grupo recebeu uma folha com quatro imagens, sendo que a primeira atividade seria a criação de uma legenda para uma delas. Três imagens representavam o continente africano e uma delas era a visão de Toronto, capital do Canadá. Escolhemos imagens da África que, geralmente, não vemos na mídia, internet ou materiais didáticos. Enquanto os alunos faziam a atividade, montamos o projetor multimídia para fazer a conferências das respostas.

Após recolhida as atividades, apenas um grupo associou uma das imagens ao continente africano.  Com auxílio do projetor multimídia, mostramos as imagens e seus respectivos lugares. Percebemos que os alunos ficam surpresos com a revelação, pois associavam o continente africano com miséria, pobreza, etc. Mesmo com bastante conversa, consegui concluir a aula após explicar que a África é muito além do que vemos nos meios de comunicação e que possui sua própria história.

Na segunda aula, realizamos a revisão da aula anterior e, em seguida, a leitura metódica de um texto que apresenta o continente africano antes da colonização pelos europeus. O objetivo é reforçar a afirmação de que a África tem história e que havia uma diversidade de culturas antes dos colonizadores.

Guido (2008) informa sobre a importância da leitura metódica que consiste em três fases. A primeira é a leitura exploratória que é o momento que a leitura será utilizada para descobrir o significado de possíveis palavras desconhecidas, datas importantes e até nomes de personagens. Depois desta, temos a leitura estrutural que é um momento mais rigoroso que consiste em buscar as ideias do autor do texto além de captar seus raciocínios. Por último temos a leitura interpretativa, que é a fase que há um diálogo entre o autor e o leitor baseando no que foi absorvido nas leituras anteriores.

Ao longo da segunda aula recorremos a uma atividade de interpretação, que cumpre com o caráter interdisciplinar. Ao interpretar o texto, o aluno se torna capaz de compreender o conteúdo da disciplina de história, fazendo que desenvolva suas capacidades de leitura e escrita.

Na terceira aula trabalhamos com conteúdos do livro didático, pois esse é o único material disponível para os alunos levarem para casa. Abordamos a temática sobre os Povos da África, recorremos ao projetor multimídia para apresentar mapas das civilizações que estavam no livro didático.

Considerações finais

Ao refletir sobre o espaço escolar é possível compreender as dificuldades de se reinventar a escola, na perspectiva de Candau (2014), que nos atenta às práticas socioeducativas. Ela nos esclarece que para o desenvolvimento de práticas educativas interculturais, a diferenciação pedagógica e os usos de diferentes fontes e linguagens, no cotidiano da sala de aula, são essenciais.

A diferenciação pedagógica é uma tentativa de romper com o modelo de ensino frontal de modo que todos os alunos possam participar e apreender mais conteúdo, sem priorizar um em detrimento a outros. Isso se dá a partir do momento que se reconhece a pluralidade da sala de aula e seus sujeitos.  Isso se daria a partir da criação de materiais pedagógicos, trabalhar com cooperação em sala de aula, e outros aspectos.

Outro aprendizado dessa experiência consistiu em compreender que a escola é um ambiente repleto de culturas e diferenças. Para McLaren (2000), o educador precisa estudar melhores formas de passar os conteúdos para que possa haver formas de ensinos eficientes. Para isso se torna interessante considerar que cada aluno tem suas particularidades A sala de aula deve ser um lugar de inclusão e inter-relação entre os agentes do aprendizado. Isto daria voz a quem um dia foi impedido te ter seu lugar na sociedade. Pensando assim, ouso afirmar que a escola passaria a ser um espaço plural e multicultural dos excluídos que podem estar nesta condição por raça, condição sexual, situação econômica, dentre outros fatores. Para a inclusão/inter-relação desses agentes seria necessário a desconstrução de visões eurocêntricas, de uma história que coloca a condição branca como modelo a ser seguido por todo “o resto”. Ao desestabilizar tal condição branca, avançaríamos na pedagogia crítica, que segundo McLaren (2000), tornaria a escola produtora de agentes de produção social, econômica e cultural, para desafiar essas classes dominantes.

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Referências Bibliográficas

 

GUIDO, Humberto. A arte de aprender, metodologia do trabalho escolar para a Educação Básica. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

CANDAU, Vera Maria et al. Educação intercultural: entre afirmações e desafios. In: MOREIRA, Antonio Flavio; CANDAU, Vera Maria (Org.). Currículos, disciplinas escolares e culturais. Petrópolis: Vozes, 2014. Cap. 1. p. 23-41.

FONSECA, Selva Guimarães. Didática e prática de ensino de história: experiências, reflexões e aprendizados. 13ª ed. rev. E ampl. Campinas, SP: Papirus, 2012.

LAUTIER, Nicole. Os Saberes Históricos em Situação Escolar: circulação, transformação e adaptação. Educ. Real., Porto Alegre, v. 36, n.1, p. 39-58, jan./abril, 2011. Disponível em: http://www.ufrgs.br/edu_realidade.

MCLAREN, Peter e GIROUX, Henry. Escrevendo das Margens: Geografia de identidade, Pedagogia e Poder. In: MCLAREN, Peter. Multiculturalismo RevolucionárioPedagogia do dissenso para o novo milênio. Porto Alegre: Artes Médicas do sul, 2000.

MELLOUKI, M’Hammed; GAUTHIER, Clermont. O professor e seu mandato de mediador, herdeiro, intérprete e crítico. Educ.Soc., Campinas, vol.25 n.87, p.537-571, maio/ago.2004.

Como ser citado:

MARTINS DA SILVA, D. A. Lições de uma experiência: como aprender História em um ambiente intercultural. P@rtes.

 


* Davi Aragão Martins da Silva é graduando do Curso de História da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal da Universidade Federal de Uberlândia – FACIP/UFU. daviaragaomartins@hotmail.com

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