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A vontade de saber sobre sexualidade

A VONTADE DE SABER SOBRE SEXUALIDADE

Karine Mastella Lang[1]

I – Nós, vitorianos

No início do século XVII procurava-se manter em segredo atos da vida sexual, existia necessidade de um disfarce, a vida sexual era vergonhosa.

A sexualidade era exclusiva da família conjugal, era somente função de reproduzir. O casal (homem e mulher) era modelo, era verdade. Reservava-se o segredo da vida sexual dos cônjuges, escondiam-se os corpos.

Não era adequado falar sobre sexualidade. As crianças eram proibidas de falar sobre sexo, imposição de um silêncio para que não se falasse sobre sexualidade. Foucault, expressa a hipocrisia da sociedade naquela época, manifesta o sentido da repressão aplicado à sexualidade, trata-se como se fosse algo de “outro mundo”.

II – A Hipótese Repressiva

  1. A incitação aos discursos

Aduz Foucault, que o sexo era reprimido pois era necessário guardar forças para o trabalho, para a produção. Logo, tratava-se de uma manobra política, repressiva.

O autor traça uma linha temporal do século XVI ao século XVIII, do instante em que se proibiu falar de sexo, que só era permitido através da confissão na igreja, para um aceleramento discursivo no segundo período, ocasião em que se deu incitação institucional (política, econômica e técnica) sobre o tema.  Alega o surgimento de fenômenos populacionais por meio dos quais a conduta sexual tornou-se objeto de análise, tais como a natalidade, a morbidade, as doenças, a fecundidade, o estado saúde, a alimentação.

  1. A implantação perversa

É necessário pensar de que forma se deu os discursos atuais sobre o sexo, tema que ainda é tabu para muitas pessoas. Manifestadamente a igreja contribuiu para isso, uma vez que fazer sexo, pensar em sexo é pecado. Assim, as pessoas eram coagidas a confessar-se ao padre ao menos uma vez por mês, o que fazia com que tivessem receio de praticar algo que não fosse permitido, ou então, considerado pecado.

Necessita-se pensar em como o discurso do poder sobre a sexualidade impera até hoje, sendo hipócrita e ainda preconceituoso. Pensa-se em sexo somente para reprodução, entre homem e mulher. Não se fala em desejos em vontades, em amor.

A religião tem um grande poder sobre as pessoas, o ato de fazer sexo e o pensamento em sexo eram considerados pecados, por este motivo coagia muitas pessoas a não praticar, não pecar. Assim, por medo, o sexo era considerado apenas como função de reprodução, não poderiam as pessoas satisfazerem seus desejos sexuais com outras pessoas.

Sexo não era assunto que se discutia, era grosseria, obscenidade, falta de decência. Para as crianças não há malícia em falar de sexo, é um ato natural, humano. Muitas vezes, em diversos estudos, as crianças demonstravam-se mais abertas ao conhecimento, ao assunto sobre sexualidade do que os adultos.

O sexo passou a ser considerada patologia, era estudado por médicos, era assunto que envolvia justiça, medicina, política e crítica.

III – Scientia sexualis

Quanto a verdade sobre o sexo, o autor afirma existirem dois procedimentos: 1- ars erótica: A qual recai na própria prática sexual, como verdade extraída do próprio prazer, experiência; e 2 – scientia sexualis: Que foi desenvolvida em nossa sociedade, surge a partir dos procedimentos que se ordenam em função de um poder-saber rigorosamente oposto à arte da iniciação e ao segredo magistral: confissão, para dizer a verdade do sexo.

O problema da sexualidade não é falar, demonstrar, mas sim esconder, pois assim torna-se deplorável, não se pode manter sexo como segredo.

V – O dispositivo da sexualidade

Trata-se a sexualidade como dispositivo, de como a aliança imperava anteriormente e a partir do século XVII o saber-poder oriundo da sexualidade teve um papel fundamental na sujeição dos corpos.

  1. O que está em jogo

Com respeito ao sexo, o poder jamais estabelece relação que não seja de modo negativo. O poder seria aquilo que dita a lei no que diz respeito ao sexo, fica restrito a ser lícito ou ilícito. Sobre o sexo, o poder só faria funcionar uma lei de proibição, pois seu objetivo é que o sexo renuncie a si mesmo, utilizando como instrumento a ameaça de um castigo. Para isso, se afirma que não é permitido, impede que se diga e nega que exista.

  1. Método

O poder está em toda parte, não porquê englobe tudo, e sim porque provem de todos os lugares, é o nome dado a uma situação estratégica e complexa numa sociedade determinada, não é algo que se adquira, se exerce a partir de inúmeros pontos e em meio a situações desiguais. As relações de poder, são efeitos das desigualdades, são intencionais. A sexualidade está ligada as relações de poder.

  1. Domínio

A sexualidade aparece nas relações de poder, não é o elemento mais rígido, mas um dos mais dotados da maior instrumentalidade. A ideia de reduzir o sexo a sua função reprodutiva, sua forma heterossexual, adulta e a sua legitimidade matrimonial, não explica os múltiplos objetivos visados. Existem 4 grandes conjuntos estratégicos que desenvolvem dispositivos específicos de saber e poder a respeito do sexo: Histerização do corpo da mulher, pedagogização do sexo da criança, socialização das condutas de procriação e psiquiatrização do prazer perverso.

  1. Periodização

Deve se tentar seguir a cronologia desses procedimentos: as invenções, as mutações instrumentais, as remanescências. Essas datações não coincidem com o grande ciclo repressivo entre os séculos XVII e XX.

V – Direito de morte e poder sobre a vida

Liga-se a soberania entre a vida e a morte que transferiu para o dispositivo da sexualidade o controle dos corpos. Conceito de biopolítica e o lugar que os discursos normativos sobre a sexualidade têm dentro desse conceito de biopolítica, ou seja, governar a sexualidade é também um modo de governo das populações. Entende-se as dinâmicas políticas do poder a dinâmica da normalização de um determinado tipo de sexualidade. O autor comenta sobre a transferência de direitos de morte do poder, a majoração do direito à vida, a sua afirmação, mostrando essas informações em relação ao desenvolvimento do capitalismo, o que indica também que a sexualidade corresponde a um importante instrumento em seu mecanismo de poder. O direito sobre a vida e a morte é tido como fruto de uma derivação de um direito pátrio, de pai, ou seja, aquele que tem o direito de tirar a vida por tê-la dada.

 

REFERÊNCIA DE TEXTO: FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I A Vontade de Saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J.A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1998.

[1] Advogada, Graduada pela Universidade Católica de Pelotas – UCPel.

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