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Poesia a um país abandonado à própria sorte

                                                                                                   Adelto Gonçalves (*)

                                                           I

            Para tentar traçar um quadro de um país abandonado à própria sorte, desde tempos imemoriais até este começo de século XXI, através da poesia, o crítico literário e ensaísta André Seffrin organizou Revolta e protesto na poesia brasileira (Editora Nova Fronteira, 2021), que reúne 142 poemas de 78 autores diversos, de Gregório de Matos Guerra (1636-1696) aos nossos dias. São poetas que procuram traduzir “as vozes de um povo que sempre buscou caminhos para se tornar menos refém dos perpétuos desgovernos em cujas engrenagens nos enredamos desde o mais remoto passado”, como se lê no texto de orelha.

            Além de incluir poemas satíricos, de humor corrosivo, a antologia, como se observa naquele texto, abrange “poetas que procuram entender um Brasil real e não aquele, falso, vendido pela propaganda”, ou seja, traz “poemas de revolta e protesto, que, sem perder de vista a evasão e o riso, também emitem sinais de resistência”.

            No texto de apresentação, Seffrin deixa claro que estes poemas são dirigidos a “políticos corruptos, magistrados ineptos, agentes públicos relapsos, a burocracia e outras patacoadas provincianas que ainda e sempre nos assediam”. E observa que este é o Brasil real e não o Brasil da mentira, ou seja, o do ufanismo do hino nacional do poeta Osório Duque Estrada (1870-1927), “deitado eternamente em berço esplêndido”. Em outras palavras: “(…) o país que temos desenhado neste livro é o que nos assiste, o das práticas políticas suspeitas, dos mais malfadados governos”, acrescenta.

De fato, desde os primórdios da época colonial, a magistratura nunca teve boa fama, como se depreende da primeira estrofe do soneto “As cousas do mundo”, de Matos Guerra: Neste mundo é mais rico, o que mais rapa: / Quem mais limpo se faz, tem mais carepa: / Com sua língua ao nobre o vil decepa: / O velhaco maior sempre tem capa (…). Aqui a palavra carepa, que significa escória, película de óxido de ferro, é usada como figura de linguagem para sujeira. Ou seja, o poeta quer dizer que o mais rico é sempre aquele que explora a mão de obra alheia e enriquece. E conclui que o velhaco maior sempre tem capa, ou seja, seria o magistrado, aquele que sempre usava uma manta.

            À guisa de explicação, deve-se dizer que os magistrados não eram malvistos apenas pela ralé. Pelo contrário. Há uma memória de dom Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), o primeiro conde de Linhares, à época ministro da Marinha e Ultramar, em que este acusa a magistratura na América portuguesa de ser, “além de numerosa, extremamente venal e dependente não só de governadores como de comerciantes e arrematantes de contratos”. Em outras palavras: seria rigorosa apenas quando julgava pretos, indígenas, miscigenados e brancos pobres.

            Portanto, os poetas só refletiam o que seria um entendimento geral entre a população, o que já aparece nas Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), quando Critilo, seu alter ego, repreende Silverino (que seria o arrematante de contratos Joaquim Silvério dos Reis Montenegro, o delator da conspiração de 1789): A sábia lei do reino quer e manda / Que os nossos devedores não se prendam:/  Responde agora tu, por que motivo / Concede o grande chefe, que tu prendas / A quantos miseráveis te deverem? Por que, meu Silverino? Porque largas / Porque mandas presentes, mais dinheiro (…).

Aliás, lembre-se que o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1742-1809) sempre desconfiou de que Silvério fosse “a origem daqueles mesmos horrorosos projetos de que agora se faz denunciante”, como se lê no códice 891 do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, fls. 1v-2. Acostumado a corromper autoridades, o delator acumulara altas dívidas com o Erário Régio e, quando acossado, teria imaginado que só com a separação em relação ao Reino poderia se livrar delas. Como os conspiradores demoravam para colocar a rebelião nas ruas, teria pulado para o outro lado. Sempre em troca do perdão das dívidas.

                                                       II

            No século XIX, à época da monarquia, tampouco esse estado de coisas ter-se-ia alterado, a valer-se dos versos da poetisa gaúcha Delfina Benigna da Cunha (1791-1857): Triste Brasil, até quando / Haveis d´estar iludido, / Até quando submetido / À vil ambição do mando? / Os ímpios te vão cavando / Abismos de dia, em dia. / Co´a másc´ra d´hipocricia? A seus fins buscam chegar; /E quem os quer escutar /Presta auxílio à tirania.

            O que muda, porém, é que, no século XIX, a épica fica para trás e o tom majestoso e mesmo religioso que contava as façanhas de um herói no Estado feudal é substituído pelo Romantismo em que a principal personagem é o anti-herói, já que não há espaço para as concepções míticas. E a poesia deixa de se basear na ação externa para se basear na contemplação ou na especulação, como observa Massaud Moisés (1928-2018) em A criação literária: poesia (Cultrix, 2003, p. 240).

            Um bom exemplo que se encontra nesta antologia é “O povo na cruz”, do paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), autor de mais de mil poemas publicados em folhetos versando sobre o cangaço, a vida no sertão, a pobreza e a seca e demais flagelos nacionais: Assim morre o brasileiro / Como bode exposto à chuva, / Tem por direito o imposto / E palmatória por luva, / Família só herda dele / Nome de órfão e viúva. / Morrendo um pobre diabo / Se acaso deixar dinheiro / Ainda deixando um filho / Este não é seu herdeiro / Só herda dele o juiz / O escrivão, o coveiro. (…) O rico matando o pobre, / Nem se recolhe à prisão, / Diz logo o advogado, / Matou com muita razão / Se passa um mês na cadeia, / Tem a gratificação.

                                                           III

Dos poetas contemporâneos, uma boa surpresa é o paraibano Orlando Tejo (1935-2018), cuja obra permanece desconhecida em grande parte, mas que guarda excelentes poemas de protesto contra o status quo que vem desde os tempos coloniais. Eis um trecho do poema que consta da antologia: Um país que crianças elimina, / Que não ouve o clamor dos esquecidos, / Onde nunca os humildes são ouvidos / E uma elite sem Deus é quem domina; / Que permite um estupro em cada esquina / E a certeza da dúvida infeliz; / Onde quem tem razão baixa a cerviz / E massacram-se o negro e a mulher, / Pode ser o país de quem quiser, / Mas não é, com certeza, o meu País (…).

Outro poema que lamenta a situação degradante a que o Brasil chegou nos últimos tempos é o “Soneto de um triste país”,  do baiano Ruy Espinheira Filho (1942), que alcança a perfeição como imagem do tempo que vivemos. Eis o trecho inicial: As mais belas canções, eis que as cantamos / em tempos de esperanças e alegrias, / eras de generosas fantasias… / E agora apenas nos envergonhamos / de um país que tão alto já sonhamos / e que hoje é como um poço de agonias, / transbordando dejetos de idiotias, / em que nós mesmos – nós! – o transformamos (…).  

De poetas mais jovens, que já exercitam o poema livre, sem rima e estrofação, há pelo três que se destacam, sem qualquer demérito aos demais que não são citados por falta de espaço. Do mineiro Ronaldo Cagiano (1961), leia-se o curto poema “Víbora”: Vibra / nessa hora / o chicote da verdade / embora / no suor dos que resistem / ainda é anêmica / a pólvora / que a(s)cenderá – o grito.

 Do também mineiro Iacyr Anderson Freitas (1963), o poema “A liberdade possível”: Não poderá ser livre / quem luta entre muralhas / e sofre ao defendê-las / de canhões e canalhas. / Nenhuma liberdade / foi feita para os guetos, / para os pobres de sempre, / mulatos, índios, pretos. / Logo, aqui se tem / o quilombo possível / (de quando a liberdade / teima em baixar de nível).

Ou ainda este “Speculum Patriae”, de Alexei Bueno (1963): Um povo feio, essencialmente feio, / Fora os meio imigrantes. Cada dia / Uma outra humilhação que se anuncia, / Um saque, um roubo, sem controle ou freio. / Uma hora de imbecis, de olho no alheio, / Cuja rapina é a única mestria, / Pretensamente os donos da alegria, / Da esperteza, da graça, e Deus no meio. / Um pátio dos milagres de devotos / De tudo, irracionais, analfabetos, / A orar, a praguejar, a cumprir votos, / À espera do que os salve, em meio a insetos, / A matar-se, a banhar-se nos esgotos / Das praias sem iguais, entre os dejetos.

Se alguma ausência se pode lamentar neste livro é a de Tomás Pinto Brandão (1664-1743) que, nascido no Porto, a exemplo de Tomás Antônio Gonzaga, pode ser também considerado brasileiro, pois à época éramos todos portugueses. Ainda jovem, Pinto Brandão conheceria em Lisboa o baiano Gregório de Matos Guerra, advogado desbocado que ficaria mais conhecido como “Boca do Inferno”, cuja amizade seria decisiva para o rumo desencontrado que tomaria sua vida. Juntos, seguiriam para a Bahia, onde Pinto Brandão assentaria praça na guarnição local. Foi igualmente anticlerical e feroz crítico das mazelas de governos corruptos, como se pode constatar em Verdades Pobres de Tomás Pinto Brandão – edição crítica e estudo, de Jair Rattner (Beau Bassin, Mauritius: Novas Edições Acadêmicas/International Book Service, 2018).

                                                           IV

        André Seffrin  nasceu em Júlio de Castilhos, Rio Grande do Sul, em 1965. Durante onze anos viveu no Paraná e em 1987 fixou residência no Rio de Janeiro. Ensaísta, organizador de dezenas de antologias e pesquisador independente, escreveu cerca de duas centenas de apresentações, prefácios e posfácios para edições de escritores brasileiros clássicos e contemporâneos. Autor de ensaios críticos e biográficos, alguns em edições de arte (Joaquim Tenreiro, Paulo Osorio Flores, Sérgio Rodrigues), foi também colaborador de jornais e revistas (Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, O Globo, Manchete, Gazeta Mercantil, EntreLivros etc.) e coordenou coleções de literatura para diversas editoras.

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Revolta e protesto na poesia brasileira: 142 poemas sobre o Brasil, de André Seffrin (org.). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 272 páginas, R$ 39,90, 2021. Site: www.novafronteira.com.br E-mail: atendimento@novafronteira.com.br

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(*) Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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Legenda da foto:

Foto: Divulgação

André Seffrin, crítico literário e ensaísta: obras que recuperaram o que há de melhor na poesia brasileira

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