MATERIALIDADES SIMBÓLICAS E PAISAGEM CULTURAL: A PRESENÇA UCRANIANA NO MUNICÍPIO DE IVAÍ-PR

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MATERIALIDADES SIMBÓLICAS E PAISAGEM CULTURAL: A PRESENÇA UCRANIANA NO MUNICÍPIO DE IVAÍ-PR
Zaqueu Luiz Bobato[*]
Everson Adriel Rebinski**
Resumo
O artigo analisa a presença da cultura ucraniana no município de Ivaí-PR, destacando códigos culturais materializados que compõem a paisagem local. A partir da geografia cultural, com ênfase nas noções de paisagem e materialidades simbólicas, examina-se como a cultura dos imigrantes se manifesta no espaço por meio da arquitetura, da arte e dos símbolos religiosos. Utiliza-se a fotografia como recurso metodológico para registrar e interpretar elementos como a Paróquia Sagrado Coração de Jesus e o monumento da Pêssanka. Conclui-se que esses códigos revelam a permanência simbólica da cultura ucraniana e sua contribuição para a construção de uma paisagem cultural viva e significativa.
Palavras-chave: Cultura Ucraniana; Paisagem Cultural; Materialidades Simbólicas; Imigração e Espaço; Códigos Culturais.
MATERIALIDADES SIMBÓLICAS Y PAISAJE CULTURAL: LA PRESENCIA UCRANIANA EN EL MUNICIPIO DE IVAÍ-PR
Resumen
El artículo analiza la presencia de la cultura ucraniana en el municipio de Ivaí-PR, destacando los códigos culturales materializados que conforman el paisaje local. A partir de la geografía cultural, con énfasis en las nociones de paisaje y materialidades simbólicas, se examina cómo la cultura de los inmigrantes se manifiesta en el espacio por medio de la arquitectura, el arte y los símbolos religiosos. Se utiliza la fotografía como recurso metodológico para registrar e interpretar elementos como la Parroquia Sagrado Corazón de Jesús y el monumento de la Pêssanka. Se concluye que estos códigos revelan la permanencia simbólica de la cultura ucraniana y su contribución a la construcción de un paisaje cultural vivo y significativo.
Palabras clave: Cultura ucraniana; Paisaje cultural; Materialidades simbólicas; Inmigración y espacio; Códigos culturales.
Introdução
Este artigo tem como objetivo analisar a presença e a expressão da cultura ucraniana no município de Ivaí, no estado do Paraná, por meio da materialização de códigos culturais que se manifestam na paisagem urbana local. A presença de grupos imigrantes em determinados territórios costuma provocar transformações no espaço, resultantes da transposição de valores culturais, práticas simbólicas e modos de vida oriundos das terras de origem. Essas transformações são, muitas vezes, perceptíveis nas edificações, nos monumentos e nos elementos visuais que compõem a paisagem, revelando significados e identidades coletivas.
No caso específico dos imigrantes ucranianos, que passaram a se fixar no município de Ivaí a partir de 1907, observa-se a reprodução de elementos arquitetônicos e simbólicos que representam a tentativa de preservação de sua identidade cultural em solo brasileiro. Para tanto, a presente investigação parte da perspectiva da geografia cultural e dos estudos sobre paisagem cultural e materialidades simbólicas, com ênfase nos processos de territorialização e na construção de sentidos espaciais.
A fotografia é utilizada como recurso metodológico para a observação e análise de símbolos materializados no espaço, com destaque para a Paróquia Sagrado Coração de Jesus e o monumento da Pêssanka, localizados na Praça Taras Szewczenko.
Cultura e códigos materiais no espaço
Claval (1999) nos apresenta que a cultura pode ser concebida a partir de alguns critérios como: É a mediação entre o homem e a natureza; É a herança, resultado de um jogo de comunicação; Permite aos indivíduos e aos grupos se projetarem no futuro; É feita por palavras, articuladas por discursos e realizada na representação; É um fator essencial de diferenciação social; A paisagem é o objeto de trabalho da geografia cultural, através da marca cultural.
A partir da perspectiva de Claval (1999), compreende-se que a cultura não é um conceito estático, mas sim um processo dinâmico que se estabelece como mediação entre o ser humano e a natureza, sendo ao mesmo tempo herança e projeção. Ao concebê-la como um resultado de um jogo comunicativo, o autor destaca seu caráter simbólico e intersubjetivo, que se expressa por meio de palavras, discursos e representações. Tal concepção permite compreender a cultura como um elemento estruturante das ações humanas, orientando práticas e modos de viver e de transformar o espaço.
Nesse sentido, a paisagem — entendida como expressão visível das relações entre cultura e espaço — torna-se objeto central da geografia cultural, pois carrega marcas materiais e simbólicas que evidenciam a diferenciação social e a identidade dos grupos. Assim, ao analisar os códigos culturais materializados no território, é possível identificar a cultura como força produtiva do espaço e como instrumento de reprodução de valores coletivos e de pertencimento.
Os estudos de Brum Neto e Bezzi (2008, p. 255) destacam que:
(…) a cultura permeia a comunidade étnica na qual foi concebida, orientando suas ações e relações com o espaço, materializando neste suas particularidades, suas singularidades responsáveis pela individualidade dos lugares. Salienta-se que estas características pressupõem símbolos comuns, funcionando como mecanismos de reconhecimento entre os membros de um mesmo grupo social, ao mesmo tempo em que os diferenciam dos demais.
Os símbolos que Brum Neto e Bezzi (2008) se referem, são oque Claval (1999) denomina de códigos culturais que englobam desde a linguagem até as convenções mais particulares de cada cultura. Sendo assim, possibilitam a sobrevivência de um grupo cultural e resultam na organização de um determinado espaço que se torna peculiar via materialização dos códigos que compõem aquela cultura. Portanto:
(…) os códigos culturais constituem-se na simbologia responsável pela visibilidade da cultura e, também, pela sua transmissão. Encontram-se impressos nas diferentes paisagens, através do estilo das casas, vestuário típico, arte, gastronomia, música, religiosidade e festividades. Além desses, existem outros códigos que, embora não sejam visíveis, também são responsáveis pela materialização da cultura no espaço, como aportes culturais, com destaque para os valores, ideologias e convenções. Neste processo de codificação cultural, salienta-se a comunicação, oral e escrita, como um dos códigos essenciais para transmissão e projeção da cultura no tempo e no espaço (BRUM NETO; BEZZI, 2008, p. 256).
A cultura, enquanto conjunto de crenças e valores que orientam as ações de um grupo social, estabelece conexões diretas com a paisagem por meio de simbolismos, significados e códigos materiais e imateriais. Esses elementos são expressos por meio de manifestações religiosas, artísticas, arquitetônicas e cotidianas, configurando marcas identitárias no espaço. No município de Ivaí, essa relação pode ser observada a partir da presença ucraniana, cuja cultura se materializa no território desde o início do século XX.
Os imigrantes ucranianos, oriundos da província da Galícia — localizada no extremo leste do Império Austro-Húngaro — começaram a chegar ao Brasil por volta de 1894. Os principais destinos eram Brasil e Canadá, impulsionados por campanhas de agentes das companhias de navegação que promoviam as rotas transatlânticas com promessas atrativas (RAMOS; OLINTO, 2020). Como observa Calsavara (2022), os ucranianos embarcaram em uma jornada rumo ao desconhecido, tendo o Paraná como destino estratégico, tanto pela intenção governamental de ocupar fronteiras, quanto pela demanda por produção agrícola na região.
A instalação do grupo ucraniano no município de Ivaí ocorreu em 1907, conforme Koss (2013, p. 48):
A Colônia Federal de Ivay foi fundada no Paraná em 1907 a 200 km da capital Curitiba e 87 km de Ponta Grossa. A mesma estava vinculada ao município de Ipiranga e possuía dois núcleos populacionais, um denominado Calmon e outro São Roque. A partir deste período, este território que já era ocupado por índios e afrodescendentes, passou a ser denominado Colônia Federal Ivay. Permaneceu assim até 10 de junho de 1961. Nesta data ocorreu o desmembramento de Ipiranga e através da lei Estadual n.°4382, foi criado o município de Ivaí. Geograficamente ele está situado na região Sudeste do Paraná.
A presença ucraniana no território passou, então, a materializar seus valores e referências culturais, gerando significações na paisagem local por meio de códigos materiais. Um exemplo dessa codificação encontra-se na arquitetura religiosa e nos monumentos públicos, como ilustrado nas imagens a seguir.
Imagem 1: Paróquia Sagrado Coração de Jesus de Ivaí-PR.

Fonte: BOBATO, Zaqueu Luiz; REBINSKI, Everson Adriel (2025).
A fixação dos ucranianos no território passa a materializar sua cultura e seus valores, gerando significações na paisagem ivaiense por meio de códigos materiais, conforme se pode observar em diversos elementos arquitetônicos e simbólicos do município.
A Imagem 1 apresenta um plano geral da Praça Taras Szewczenko, onde se destacam dois importantes símbolos da presença ucraniana: a Pêssanka, em primeiro plano, e, ao fundo, a Paróquia Sagrado Coração de Jesus. A composição da imagem permite visualizar a articulação simbólica entre os dois elementos: a Pêssanka, símbolo tradicional ucraniano associado à fertilidade, renascimento e fé, e a igreja, cuja arquitetura evidencia a manutenção de elementos do rito bizantino, com suas cúpulas altas e arredondadas que remetem à espiritualidade e à herança religiosa da comunidade.
Imagem 2: Paróquia Sagrado Coração de Jesus de Ivaí-PR.

Fonte: BOBATO, Zaqueu Luiz; REBINSKI, Everson Adriel (2025).
A Imagem 2 foca na edificação da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, permitindo observar com maior precisão os elementos arquitetônicos que a constituem. Destacam-se as cúpulas metálicas em formato bulboso — típicas das igrejas orientais —, além das janelas em arco com vitrais coloridos e das portas emolduradas por linhas curvas, que remetem à estética tradicional das construções religiosas ucranianas. A presença desses traços demonstra o esforço de preservação cultural e a significação simbólica da fé como elemento estruturante da identidade étnica local.
Imagem 3: Monumento Pêssanka.

Fonte: BOBATO, Zaqueu Luiz; REBINSKI, Everson Adriel (2025).
A Imagem 3 traz em destaque o Monumento da Pêssanka, inaugurado em 2011 como parte das comemorações do centenário da paróquia. O monumento, estrategicamente posicionado na praça central, funciona como um marco visual e identitário da comunidade ucraniana. A decoração minuciosa do ovo — feita com motivos geométricos e florais — carrega significados que perpassam a religiosidade e alcançam os valores coletivos de fertilidade, prosperidade e continuidade cultural. Segundo a tradição, a Pêssanka também representa a vida e a ressurreição de Cristo, sendo um dos símbolos mais importantes do período pascal.
A persistência desses códigos materiais — arquitetura, monumentos, elementos decorativos e simbólicos — demonstra que a paisagem cultural de Ivaí é resultado direto do processo de territorialização da comunidade ucraniana. Brum Neto e Bezzi (2008, p. 255) explicam que para uma cultura sobreviver e se manter expressiva é necessário que:
(…) seja vivenciada por uma comunidade e que esta se mantenha unida numa base espacial. O espaço passa a ser composto por códigos distintivos que denunciam a origem étnica da ação humana que o modificou, e que, por sua vez, são repletos de paisagens culturais, as quais tornam a cultura visível no espaço, através da expressão da sua materialidade.
A materialidade dos códigos culturais manifesta-se de maneira significativa nas edificações apresentadas nas imagens (1, 2 e 3), revelando as significações atribuídas pelos imigrantes ucranianos ao território de Ivaí-PR. Ao ocuparem esse espaço, os sujeitos passaram a expressar, por meio de construções simbólicas, os valores, crenças e tradições de sua cultura de origem, reproduzindo-a no novo contexto territorial. Esses códigos — inscritos na arquitetura religiosa, nos monumentos e em outros elementos materiais — tornam-se marcas visíveis na paisagem, impregnadas de sentidos que testemunham a trajetória histórica do grupo.
A materialização dos códigos culturais, nesse contexto, não apenas qualifica esteticamente o espaço, mas o transforma em paisagem cultural, viva e carregada de simbolismo. Como apontam Brum Neto e Bezzi (2008) para que uma cultura permaneça expressiva é necessário que ela seja vivenciada por uma comunidade coesa em um território compartilhado. Dessa forma, os elementos construídos pelos imigrantes ucranianos não apenas identificam sua origem étnica, como também contribuem para a continuidade e visibilidade de sua cultura, reforçando laços de pertencimento e assegurando a permanência da identidade coletiva no tempo e no espaço.
Considerações finais
A cultura pode ser compreendida como um conjunto de crenças, valores, símbolos e práticas que orientam as ações de um grupo social, moldando sua forma de se relacionar com o espaço e de produzir significados sobre ele. Ao longo deste artigo, evidenciou-se que a cultura está profundamente conectada à paisagem, pois nela se projetam os códigos materiais e imateriais que expressam identidades, memórias e tradições.
No caso da presença ucraniana no município de Ivaí-PR, constatou-se que essa relação entre cultura e paisagem se manifesta de maneira concreta por meio da materialização dos códigos culturais. As igrejas, monumentos e elementos arquitetônicos analisados revelam a tentativa de reprodução simbólica da cultura de origem no novo território, constituindo paisagens culturais vivificadas por uma forte carga simbólica. Tais códigos, ao serem inscritos no espaço, tornam-se instrumentos de visibilidade e preservação da identidade étnica, como bem afirmam Brum Neto e Bezzi (2008).
Importa ressaltar, contudo, que a cultura não se limita apenas ao aspecto material. Ela compreende também um vasto campo de manifestações imateriais, como valores, crenças, modos de ser e de agir que, embora não visíveis, orientam e sustentam a construção dos elementos materiais. Este estudo, no entanto, optou por destacar as expressões tangíveis dessa cultura no território de fixação dos imigrantes, ressaltando como elas geraram significações específicas na paisagem local.
A expressão da materialidade, nesse sentido, não apenas imprime marcas no espaço, como também contribui para a manutenção da identidade cultural da comunidade, permitindo que ela se mantenha viva em sua base espacial historicamente constituída. Contudo, é preciso reconhecer que a cultura é dinâmica, feita pelos homens e permeada pelas transformações sociais. Como apontam Brum Neto e Bezzi (2008), os códigos culturais podem tanto afirmar sua representatividade ao resistirem às mudanças, quanto se adaptarem às novas realidades, reafirmando sua função como balizadores simbólicos e culturais.
Desse modo, conclui-se que a paisagem de Ivaí-PR é expressão viva da cultura ucraniana, e que sua leitura permite compreender não apenas a história de um povo, mas também a complexa relação entre memória, identidade e espaço.
Referências
BRUM NETO, Helena; BEZZI, Meri Lourdes. A MATERIALIZAÇÃO DA CULTURA NO ESPAÇO: OS CÓDIGOS CULTURAIS E OS PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO. GEOGRAFIA, Rio Claro, v. 33, n. 2, p. 253-267, mai./ago. 2008.
CLAVAL, Paul. A Geografia Cultural. Tradução: Luiz Fugazzola Pimenta; Margareth Afeche Pimenta. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1999.
CALSAVARA, Fábio. Como o Paraná ganhou a maior comunidade ucraniana no país e como sua cultura foi preservada. Gazeta do Povo, Curitiba-PR, 1 mar. 2022.
KOSS, Lucimara. Comércio & Sociedade: as múltiplas funções dos armazéns de Ivay/PR na primeira metade do século XX. Curitiba, 2013. 210 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2013.
RAMOS, Odinei Fabiano; OLINTO, Beatriz Anselmo. A dinâmica das identificações em Prudentópolis: fronteiras, movimentos e imaginários. In: RAMOS, Odinei Fabiano; OLINTO, Beatriz Anselmo (Orgs.). Prudentópolis: cultura, história e sociedade. Guarapuava-PR: Ed. da Unicentro, 2020.

[*] Professor Formador no curso de Geografia Licenciatura UAB da Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG. Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Paraná-UFPR. Mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG. Graduado em Geografia Licenciatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) campus Irati-PR. E-mail: zaqueudegeo@gmail.com

** Graduado em Geografia Licenciatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) campus Irati-PR. E-mail: eversonrebinski@yahoo.com.br






