CANCELAMENTO E SILÊNCIO: O PREÇO DO DEBATE QUE NÃO ACONTECE

CANCELAMENTO E SILÊNCIO: O PREÇO DO DEBATE QUE NÃO ACONTECE
Fundamentalistas dão um toque de arrogante intolerância e rígida indiferença para com aqueles que não compartilham suas visões de mundo.
Umberto Eco
Por Margarete Hülsendeger
Em 2019, a deputada federal Tabata Amaral foi duramente atacada nas redes sociais após votar a favor da reforma da Previdência. O cancelamento veio rápido: foi acusada de “traidora”, “vendida”, “agente da direita infiltrada” — tudo vindo de setores da esquerda, campo político ao qual ela se identificava. Seu posicionamento, ainda que fundamentado em argumentos técnicos e apresentado de forma clara, não foi debatido. Foi imediatamente descartado, e ela, simbolicamente excomungada de um espaço político onde antes era celebrada.
O caso de Tabata não é isolado. Um exemplo internacional emblemático ocorreu no Canadá, também em 2019, quando fotos antigas do primeiro-ministro Justin Trudeau – usando “blackface” durante uma festa temática árabe em 2001, quando ainda era professor em uma escola particular – vieram à tona. A repercussão foi imediata e brutal. Trudeau, que se posiciona como defensor das causas progressistas e da diversidade, foi acusado de hipocrisia e racismo. A reação pública quase comprometeu sua reeleição. O episódio levantou um dilema importante: até que ponto erros do passado — reconhecidos e assumidos — podem ou devem invalidar trajetórias políticas? No caso de Trudeau, houve espaço para pedido de desculpas e reflexão. Mas esse nem sempre é o desfecho mais comum.
Esses episódios revelam uma dinâmica recorrente: a cultura do cancelamento vem se tornando um mecanismo de controle ideológico e emocional, tanto à direita quanto à esquerda. Cada campo político, à sua maneira, instrumentaliza o cancelamento para excluir o dissenso e blindar sua narrativa.
A esquerda, tradicionalmente associada a pautas de justiça e inclusão, muitas vezes utiliza o cancelamento como uma forma de policiamento moral. Opiniões divergentes dentro do próprio campo são tratadas como heresias, e seus autores, como traidores. A exigência por coerência absoluta torna-se um fardo que poucos conseguem sustentar. Isso leva ao esvaziamento de debates internos e à construção de discursos homogêneos, incapazes de dialogar com a complexidade da sociedade.
A direita, por sua vez, embora critique com frequência a cultura do cancelamento — denunciando-a como censura e tirania do politicamente correto —, também a utiliza como arma. No Brasil, a filósofa Marcia Tiburi foi alvo de intensos ataques após se posicionar criticamente contra o bolsonarismo. Em suas próprias palavras: “Eu não podia ir mais na farmácia, no supermercado. Um dia eu caí na besteira de entrar no metrô em São Paulo. Fui atacada por um cara que gritava comigo: ‘eu tenho orgulho de ser fascista! Eu tenho orgulho de ser fascista’. Foi muito assustador”[1]. Sentindo-se ameaçada, Tiburi teve de deixar o país. O cancelamento, nesse caso, ultrapassou o campo simbólico e se traduziu em risco físico e psicológico real.
Outro caso emblemático foi o da jornalista Patricia Campos Mello, que sofreu ataques violentos de partidários do então presidente Jair Bolsonaro após publicar reportagens investigativas sobre o uso de fake news durante a campanha eleitoral de 2018. Os ataques foram misóginos, agressivos e públicos. Como relatado pela Global Investigative Journalism Network: “Quando o filho de Bolsonaro disse que ela estava oferecendo sexo em troca de informações sobre o seu pai, a mentira espalhou-se como fogo pelas fileiras dos teóricos da conspiração e dos apoiadores de direita da administração”[2]. O objetivo não era contestar a apuração jornalística, mas deslegitimar a profissional e desviar o foco do conteúdo revelado.
No Brasil, o cancelamento político ganhou força nos últimos anos como resultado de uma combinação de fatores: a intensificação da polarização ideológica, a ascensão das redes sociais e o peso crescente das vozes individuais na construção do discurso público. Em contextos de radicalização, divergências políticas passam a ser tratadas como ameaças, e não como parte legítima do debate democrático. O que antes era disputa de ideias torna-se ataque pessoal. Indivíduos e grupos são alvos de campanhas organizadas de descredibilização, boicotes e, em casos extremos, ameaças e intimidação⁶.
O resultado é preocupante. Quando a punição simbólica substitui o debate e a exclusão toma o lugar da escuta, o espaço democrático se reduz. O medo de ser mal interpretado, exposto ou rotulado leva à autocensura. Deputados moderam suas falas para não desagradar seus nichos eleitorais. Articulistas evitam temas delicados. Professores deixam de provocar o pensamento crítico em sala de aula, receosos de viralizar por motivos errados.

A lógica do cancelamento não admite dúvida ou ambivalência. Exige respostas rápidas, certezas absolutas e condenações sumárias, sem direito à defesa. Mas a democracia é justamente o oposto disso: é um espaço onde o desacordo não é apenas permitido, mas necessário. Onde o erro pode ser reconhecido e corrigido, sem necessariamente punir o indivíduo com a morte simbólica.
A distinção entre responsabilização e cancelamento é essencial. Um político deve ser cobrado por suas ações, assim como qualquer figura pública. No entanto, responsabilizar é diferente de eliminar. Criticar é diferente de destruir. Quando o debate se transforma em caça às bruxas, todos perdem — inclusive aqueles que aplaudem a fogueira.
Talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja apenas lidar com os erros dos outros, mas refletir sobre como reagimos a eles. Estamos dispostos a escutar antes de julgar? A permitir que alguém se arrependa, reflita e retorne ao diálogo? Ou preferimos a certeza confortável – e perigosa – de quem só reconhece a própria verdade?
Em tempos de polarização, o valor da dúvida cresce. Pensar devagar, ouvir com atenção e aceitar a complexidade pode parecer antiquado. Mas talvez seja justamente isso que nos falta: menos juízes e mais interlocutores. Menos fúria e mais escuta. E, sobretudo, menos cancelamentos — e mais conversas.
[1] Disponível em https://pt.org.br/vitima-de-ataques-e-ameacas-marcia-tiburi-deixa-o-pais/. Acesso em 15 abr. 2025.
[2] Disponível em https://gijn.org/pt-br/artigos/quando-o-jornalista-investigativo-vira-alvo-licoes-da-jornalista-brasileira-patricia-campos-mello/. Acesso em 15 abr. 2025.






