JÁ PASSOU DE PORTUGUÊS

Noel Rosa compôs, em 1936, a música “Não tem tradução”, que começa culpando o cinema falado por afetar o vocabulário pátrio; entremeava com: “Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição / Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês”, e terminava com: “Amor lá no morro é amor pra chuchu! / As rimas do samba não são I love you. / E esse negócio de hello, hello boy e hello Johnny / só pode ser conversa de telefone”.
Recentemente, vi na rede mundial uma mulher alertando que praticamente todo vocabulário em inglês utilizado no meio empresarial tem tradução para o português.
Refleti um pouco sobre isso, pois em todo o evento que participo sempre ouço uma mistura de português com inglês. O motivo da reflexão é que me incomoda muito quando ouço pessoas em público misturando chinês ou árabe com português. Ficaria menos incomodado se falassem apenas chinês ou árabe, se bem que sempre haverá uma desconfiança sobre o que estão falando, sobretudo quando se trata de uma negociação, e ainda mais na atualidade. A recíproca deve ser verdadeira.
O latim já foi o principal idioma nas relações internacionais, seguido do francês e, atualmente, do inglês. Obviamente, essa prominência decorreu da dominação territorial e econômica da potência da vez, concorrentes ou hegemônicas.
No mundo globalizado, onde o Brasil está sempre correndo atrás da “cenoura”, a influência do idioma inglês em vários setores é notória, mas não é só aqui. Eventos internacionais geralmente incluem, além da língua do país nativo, o inglês, o francês e o espanhol. Em tese, isso é bem interessante, pois o “esperanto” resultante da mistura das três nos permite sermos entendidos tanto quanto possível. Também é fato que a ciência e a tecnologia, majoritariamente produzida em países desenvolvidos, são pródigas em criação de novas palavras e expressões, nem sempre traduzíveis. Além disso, o português falado no Brasil tem seus anglicismos e galicismos. Somos bastante “flexíveis” inclusive no caso de nomes próprios, ao contrário de português de Portugal, que os traduz: Charles vira Carlos, Elizabeth é Isabel, Rotterdam é Roterdão… Também temos isso por aqui, mas não de forma tão radical.
Até os orgulhosos franceses estão se rendendo a termos em inglês, por questões comerciais, científicas e tecnológicas. Isso é ótimo para os anglófonos, o que me faz admirar os que buscam aprender outros idiomas, em vez de desprezarem e desdenharem de quem não fala inglês.
Quando cursei um pós-graduação em Marselha, os cursos de graduação tinham opções para aprender árabe, chinês e russo, pois a França mantinha relações com ex-colônias e países comunistas, ainda em tempos de Guerra Fria. A França “exportava” engenheiros, aproveitando da especialização internacional de suas empresas em projetos e obras de infraestrutura, em múltiplos âmbitos.
Enfim, embora concorde que há tradução para as palavras em inglês, o fato do comércio exterior e a influência das grandes corporações internacionais dominarem o mundo nos faz ter que conviver e, na medida do possível, tirar proveito disso, que seja ao menos cultural, desde que sem a “mania de exibição” mencionada por Noel, típica de pessoas arrogantes e esnobes.
Ariano Suassuna, de quem sou grande admirador, considerava a língua portuguesa a mais linda do mundo. Em suas aulas espetáculo (não admitia que usassem a palavra “show”) ele questionava a arrogância de quem considerava ir à Disney uma prerrogativa de excelência, e a língua espanhola, que sempre colocava uma sílaba a mais nas palavras. Ele também entendia que os regionalismos e gírias não eram fatores de preconceito, mas inerentes à diversidade de expressão, num país tão rico de culturas e tão extenso, territorialmente.

Noel fez um contraponto entre o dinamismo de nossa língua e as influências culturais importadas: “A gíria que o nosso morro criou, / bem cedo a cidade aceitou e usou. / Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote, / e só querendo dançar o foxtrote.”. É diferente hoje, com o “country”, “rap”, “hip-hop” e “funk”? Bem, o “rock” também entra nessa lista. O problema está no que é bom, ruim ou péssimo, o que depende do gosto de quem não está submisso à massificação.
No Ensino Primário aprendi que era o idioma português o principal fator de união do país, ainda mais cercado de países e territórios ultramarinos de nações europeias, que falam inglês, francês, holandês e majoritariamente espanhol.
Por força da mídia e modismos importados da vez, muitos de nossos jovens têm “inventado um novo inglês”, como diz a música dos “Engenheiros do Hawaii”, além de mal conseguirem se expressar em português.
Nossa língua é um patrimônio cultural e deveria ser tratada com um pouco mais de carinho, sem as subversões e violências a que vem sendo submetida, por questões ideológicas ou simplificações deletérias.
É certo que Carlos Drummond de Andrade gostava de neologismos. No Ginásio, éramos incentivados a inventar palavras com definições plausíveis, mas “devagar com o andor, que o santo é de barro”, e o português não merece a iconoclastia praticada por alguns grupos.
Aliás, derradeiramente parafraseando Noel, corroborado por alguns linguistas e filólogos, nosso idioma é o “brasileiro, já passou de português”.
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras







