RIR PARA ILUDIR, CANTAR PARA NÃO CHORAR, BEBER PARA ESQUECER…

[CUIDADO, ZEHZEIRA!]
RIR PARA ILUDIR, CANTAR PARA NÃO CHORAR, BEBER PARA ESQUECER…
Antes de mais nada, alguém diabos me ajuda a entender: Cyrus Nowrasteh seria um heterônimo do Ciro Nogueira?! Dark horse se referiria a um jumento que ascende politicamente relinchando suas asneiras em público, arrebatando corações embrutecidos e mentes estagnadas numa moral bem duvidosa, dando coice em tudo que preste e lavando dinheiro do crime? Eu juro que fiquei curioso com a história desse filme e pensei em consultar o roteiro. Mas aí eu vi que o roteiro é do Mário Frias. Curiosidade mórbida tem limite.
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O título que ora jorra suas pretensamente poéticas questões à rede, para olhares inquietos e adeptos do textão, provém da ancestralidade de alminha deste articulista mequetrefe: um samba de Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres. Parceria pesada: Paulo Benjamim de Oliveira, nosso professor, como dizia Monarco, eterno Cidadão Samba (quando destronava o amigo Cartola de Mangueira), comuna de diálogo com o poderio, foi o principal responsável pela articulação que viria a livrar da cana quem sambasse. Mano Heitor, mestre do Estácio e largas adjacências, cunhou uma expressão que hoje brota fácil na boca até de nada ou pouco ímpios mercadores, ao tratarem da região donde moro, com meu coração repleto de saudades vividas, sopradas ou sonhavindouras (hoje eu reacordei neologista, se liguem nos itálicos!): Pequena África.
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Trocando – ou queimando – o filme… Em entrevista para divulgar Eu não te ouço, que tem os rezadores de pneu como fonte de inspiração (!), seu diretor Caco Ciocler mandou esta pérola:“O meu desejo é que a esquerda veja esse filme [Eu não te ouço, que acaba de estrear] e pare de rir.”Parafraseando o eterno Caetano Veloso estaciona seu carro no Lebrão, a gente noticia, por aqui: Caco Ciocler lança seu filme com lacrão!
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RECALL FILOSÓFICO-LÉXICO-EXISTENCIAL DO ZEHZEIRA
Se você, recentemente, trocou:
- sentimento por afeto;
- malhar por treinar;
- amor por relacionamento;
- samba por pagonejo;
- revolução por empreendedorismo;
- existência por vivência;
- teatro por treta de internet;
- charge por meme;
- o me faz um cafuné! pelo quando sofro eu quero poder estar contando com o seu acolhimento na nossa relação…
Quem nunca?! Sim, você foi enganado(a) e comprou bagulho em vez de marijuana. Compareça imediatamente à recepção de si mesmo(a) e reivindique sua dignidade de volta.
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Falando agora (um pouco) sério: eivado daquela coisa bonita, porém absolutamente tediosa, também inepta, tampouco substanciosa quanto a produzir efeitos bacanas no tecidão social que é muito mais do que se vê por uma tela de tevê de plasma, no que podemos chamar de surto de bom-mocismo, o gente-nossa Caco Ciocler lacra mas não morde. Com todo o respeito.

O problema atual não reside no campo de uma incapacidade de ouvir o outro, quão menos de falar sobre si. É tudo o que mais se pratica! A comunicação não acontece, fato; mas é pelo excesso e predomínio, justo, do aspecto fático que preside hoje o campo comunicacional – uma escatológica hiperconexão, que os neoprimatas das bigtechs de TI nos impuseram e de que acreditamos participar por vontade própria, enquanto elas faturam nossa atenção com a venda de mais e mais bugigangas.
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Ou seja, o que se dissemina com isso é um falar tagarela, produzido por quem diz muito, sem parar; para um ouvido igualmente destreinado ao silêncio. Mas é na pausa que se gera o corte reflexivo. É na divisão do ritmo que se opera o samba. É no tempo exigido para processar o que se diz e sorver o que se escuta que se torce a porca do pensamento.
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Bom, eu sei: posso, preciso melhorar. Mas não me peçam pra calar meu palhacinho anterior não.
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Juro que compreendo o esforço de Lula por indicar um nome o mais alinhado possível pro STF, e tentando compor com a Corja, e após a decepção com indicações de perfil mais, digamos, representativo (Rosa Weber, Joaquim Barbosa…). Mas o momento é de escutar a militância, sim, e indicar uma mulher negra, de confiança e viés progressista de carteirinha até nos tais costumes (!). Para unir a base. Para responder com altivez à Corja, dobrando e comprando o barulho da própria aposta de presente e futuro. E, sobretudo, para ser justo com as duas histórias: a dele próprio, Lula; e a do país.
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Vai ser difícil, eu compreendo, mas bora colar? Mora na sabedoria desta autêntica receita de vó, contida nos versos-quimeras da Velha Guarda da Portela: Rir para iludir, cantar para não chorar, beber para esquecer? O mote é o que chamam agora de luto pelo fim de uma relação – famoso pé na bunda. Tratado na cana e na gogó e não com discurso contra o amor romântico. A esta altura você já sacou a sapiência dos coroas, num é?
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E por falar em coroas… Não, não é só por um vocabulário existencial mais tesudo pelo que se luta aqui. A gente também chama pra show! Dia 29 de maio, às 19h, tem o segundo episódio, encenado ao vivo, do álbum musical Cuidado, Zehzeira!, que nomeia também esta coluna. Vai ser no Centro de Referência da Música Carioca Arthur da Távola, na Tijuca, Rio de Janeiro (ingressos pelo Sympla). Caso não me leia a tempo, o disco está disponível nas piores plataformas do ramo – ou seja, todas as maiores plataformas de música (Spotify, Deezer, Amazon Music, YouTube…).
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O apogeu notificatório, a apologética do barulho e da aceleração permanente constituem outros sintomas-dados de uma vida dada como algo sempre em falta.
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E assim Paulo e Heitor encerravam mais uma cantoria: “Se algum dia, tiver de mim compaixão / Que alegria vai ser no meu coração / A sua volta é o meu sonho dourado / Eu viverei cantando e esquecerei o passado”. Com esperança no sonho dourado. E aquela ganinha de viver.
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Digressão casamenteira dos fatos aqui enlaçados: Lula, que era nosso ex preso e inelegível – ou seja, que não tinha como voltar –, voltou, aí está; e aí continuará. Basta de pânico com pesquisa eleitoral que hoje mais parece numerologia de Madame IA. Gira na roda: em outubro, venceremos!

E vamos sim dar aquela gastada, rindo durante mais quatro anos, mas rindo muito, daquela turma bebedora de detergente – tá me ouvindo, Caco?
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Hater, moazinho aqui?! Mó rata, jamé, meus considerados! Caco, meu querido, promessa: eu te ouço! Em que pese a má propaganda de verniz lacromoralizante, bora pro cinema ver o filme, minha gente? Impressões na próxima coluna. Palavra de Zehzeira.
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Um bom artista tem que ir aonde o (seu) povo está. Vamos então manter o foco: pra cima deles, Superbactéria!

Nota do Editor:
O Zeh Conta com 50 exemplares encalhados do Pequeno manual de preparo do solo, na bagatela de 50 pila cada. Colabore com um poeta, antes de sua aposentadoria por tempo de desgosto.
PEQUENO MANUAL DE PREPARO DO SOLO PARA UM CONSTRUCTO DE DESTROÇOS | Ed. Urutau, 2024 |







