O SOM DOS MORTOS
Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida.
Antônio Lobo Antunes

Por Margarete Hülsendeger
Há um tipo de morte que quase nunca vira assunto. Ela fica à margem da estrada, fora do nosso campo de visão, longe daquilo que costumamos ver transformado em literatura. Em Enterre seus mortos[1], Ana Paula Maia leva o leitor justamente para esse espaço incômodo e faz dele o centro de um romance duro, áspero e perturbador.
A morte aparece sem enfeites, sem distância e sem qualquer tentativa de tornar suportável aquilo que está sendo mostrado. Os corpos dos animais não passam pelo livro como simples imagem de fundo: eles fazem parte da rotina, do trabalho e da paisagem. E é essa naturalidade que incomoda.
Uma das passagens mais duras é a do ruído dos ossos sendo triturados no processo de reciclagem. Há algo de especialmente brutal nessa imagem, porque ela transforma a morte em som, matéria e procedimento. O romance não aposta no susto, sua força está nesse contato insistente com o que apodrece, sobra e precisa ser removido.
Esse desconforto aumenta quando a narrativa estende o mesmo tratamento ao corpo humano. É aí que está um dos aspectos mais fortes do livro: mostrar que, naquele universo, até os corpos das pessoas podem perder solenidade e ser tratados de modo quase tão impessoal quanto os dos animais. A fronteira entre uns e outros se estreita de um jeito perturbador e a morte deixa de ser cercada por distinções especiais e passa a ser também um problema prático, burocrático, rotineiro. O livro incomoda porque mostra um mundo em que até aquilo que costumamos tratar com respeito pode ser absorvido pela indiferença.
No centro desse cenário está Edgar Wilson, personagem recorrente na obra de Ana Paula Maia e talvez a figura mais difícil de definir no romance. Wilson convive com a morte de maneira tão próxima que, muitas vezes, parece endurecido por ela. Ainda assim, sua frieza nunca é completa. Quando tenta dar a dois corpos humanos um enterro, aparece nele uma forma discreta de empatia.
O mais duro é que essa tentativa esbarra na burocracia e na falta de apoio dos órgãos públicos. Sem transformar isso em discurso, o romance deixa ver que o abandono não está apenas nos corpos largados pelo caminho, mas também nas estruturas que deveriam lhes dar algum destino. A morte, aqui, não é só imagem de impacto nem apenas um dado da realidade material, ela revela descaso, precariedade e falência do cuidado.

Outro acerto do romance está em não simplificar seus personagens. Edgar Wilson não foi feito para conquistar o leitor de imediato, mas também não cabe numa leitura apressada, como se fosse apenas bruto, insensível ou esvaziado pelo trabalho que realiza. Há nele desgaste, pragmatismo e, ao mesmo tempo, algo que ainda resiste ao embrutecimento completo. Ana Paula Maia não tenta torná-lo transparente, e isso faz com que ele permaneça na memória depois do fim do livro.
A experiência de leitura, no meu caso, foi marcada muito mais pelo incômodo do que pelo prazer. A sensação de nojo diante de certas cenas me acompanhou por boa parte do romance. Ainda assim, seria injusto transformar essa reação em avaliação negativa. O fato de o livro provocar tanto diz muito sobre a qualidade da escrita. Ana Paula Maia escreve com firmeza e precisão. Não suaviza, não recua, não parece interessada em tornar a experiência mais palatável, por isso, o romance atinge com tanta força.
Enterre seus mortos é um livro que mexe com o leitor não por recorrer a efeitos fáceis, mas por insistir em olhar para aquilo que quase sempre preferimos deixar de lado. Ao tratar a morte como rotina, matéria e trabalho, Ana Paula Maia constrói uma narrativa incômoda, mas também muito consciente do que está fazendo. Em meio a esse ambiente tão árido, a presença ambígua de Edgar Wilson impede que tudo se reduza à brutalidade. Há ali algum resto de compaixão, ainda que cansado, torto e insuficiente. Não é uma leitura confortável, mas é forte, original e difícil de esquecer.
[1] MAIA, Ana Paula. Enterre seus mortos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.







