QUANDO A PACIÊNCIA VIRA PRISÃO
No dia em que for possível à mulher amar em sua força e não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma, mas para se encontrar, não para se renunciar, mas para se afirmar, nesse dia então o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal.
Simone de Beauvoir

Por Margarete Hülsendeger
Há violências que não se mantêm apenas pela força de quem agride. Também são alimentadas pelas palavras que cercam a vítima: os conselhos dados em voz baixa, as recomendações de calma e as frases que parecem prudentes, mas acabam funcionando como grades. Muitas mulheres, antes mesmo de conseguirem nomear a própria dor, ouvem que devem ter paciência, preservar a família, pensar nos filhos e esperar que tudo melhore. Assim, aos poucos, aquilo que poderia ser acolhimento se transforma em permanência forçada.
A violência contra a mulher raramente se apresenta sozinha. Ela costuma vir acompanhada de medo, dependência financeira, vergonha, culpa e receio de que sua palavra seja desacreditada. Quando essa mulher tenta falar, muitas vezes a própria família, que deveria ser abrigo, transforma-se em tribunal. Em vez de perguntar se ela está segura, pergunta se ela tem certeza. Relativiza a agressão, minimiza o medo e recomenda que ela espere mais um pouco, como se ela já não tivesse esperado demais.
A maternidade, por sua vez, muitas vezes se transforma em instrumento de chantagem. O agressor sabe onde a mulher é mais vulnerável e pode ameaçar tirar os filhos dela, colocar as crianças contra a mãe, disputar a guarda ou destruir sua imagem materna. Muitas mulheres permanecem não porque aceitam a violência nem porque são fracas, mas porque têm medo de perder os filhos, de não conseguir sustentá-los ou de vê-los expostos a uma dor ainda maior. A sociedade cobra que a mãe proteja as crianças, mas nem sempre oferece as condições reais para que ela saia com elas em segurança.
A fé também aparece nesse cenário de forma ambígua. Quando vivida como cuidado, torna-se consolo, casa e coragem. Recorda à mulher que sua vida tem valor e que nenhuma relação deveria exigir sua destruição. Mas, quando distorcida, pode empurrá-la de volta ao lugar da dor, confundindo perdão com permanência, casamento com cativeiro e submissão com apagamento.
Foi nesse sentido que ganhou visibilidade a pregação da pastora Helena Raquel, durante o Congresso dos Gideões, em Camboriú, Santa Catarina. Segundo reportagem da BBC News, ela tratou da violência sexual e doméstica em comunidades evangélicas com base no capítulo 19 do livro de Juízes[1]. O episódio importa aqui menos pela figura da pastora e mais pelo que revela: ainda é necessário dizer, inclusive dentro de espaços religiosos, que nenhuma mulher deve permanecer em uma relação abusiva em nome de Deus, da família ou dos filhos.

O problema, portanto, não está na família, nos filhos ou na fé, mas no uso dessas dimensões como instrumentos de controle. Família deveria proteger; filhos não deveriam ser usados como ameaça; fé deveria libertar, não silenciar. Quando qualquer uma dessas forças passa a justificar o sofrimento de uma mulher, alguma coisa se perdeu pelo caminho.
É preciso desconfiar dos discursos que tratam o silêncio como prudência e a resistência como desobediência. Muitas vezes, pede-se que a mulher preserve a imagem do casamento, da família ou da comunidade, enquanto pouco se pergunta sobre aquilo que já foi destruído nela. Nesse processo, sua paz, sua autoestima, sua saúde emocional e, em muitos casos, sua segurança física vão sendo sacrificadas em nome de uma aparência de normalidade que beneficia mais o agressor do que a vítima.
Uma mulher em situação de abuso não precisa de frases prontas. Precisa ser ouvida sem julgamento, acolhida sem a cobrança de uma coragem impossível e amparada com apoio concreto, orientação segura e proteção. Precisa saber que sair de uma relação violenta não é fracasso espiritual, familiar ou materno. É sobrevivência.
Em vez de perguntar por que ela não foi embora, talvez seja preciso olhar para tudo o que foi colocado diante da porta: os conselhos, as ameaças, os medos, a culpa e as falsas virtudes. Muitas vezes, a mulher não permanece apenas por causa do agressor, mas porque ao redor dele existe uma rede que o protege enquanto chama de paciência o abandono que ela sofre.
Quando todos pedem que ela aguente, é preciso perguntar quem, de fato, está sendo preservado.
[1] Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp9p0x17zevo. Acesso em 09 jun 2026.








