ANTES DA DELEGACIA, O RISO
Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas. Audre Lorde

Há violências que não chegam fazendo barulho. Elas se insinuam no cotidiano, quase imperceptíveis, e muitas vezes passam despercebidas, até mesmo por quem as sofre.
Elas aparecem numa frase dita “sem maldade”, em comentários sobre o corpo de uma mulher, em abordagens insistentes na rua ou em piadas que a constrangem diante dos outros. Com frequência, vêm disfarçadas de brincadeira, de intimidade ou até de elogio. Quando a mulher reclama, ouve que está exagerando. Quando demonstra incômodo ou denuncia o constrangimento, dizem que deveria se sentir lisonjeada e a chamam de chata, difícil ou mal-humorada.
Aos poucos, ela aprende que falar pode ter um custo. Começa, então, a se perguntar se aquelas frases realmente tinham algo de errado ou se o problema estaria nela, na sua sensibilidade ou em sua maneira de interpretar a situação. Esse deslocamento da culpa é silencioso. Ele ensina que o desconforto deve ser engolido, que o incômodo deve ser relativizado e que os limites podem ser desrespeitados. Assim, o que parece pequeno se acumula e ajuda a construir o silêncio.
Esse silêncio, por sua vez, é alimentado diariamente por situações que muitas pessoas insistem em tratar como irrelevantes. Mas não é irrelevante quando uma mulher muda de roupa para evitar comentários, atravessa a rua para se afastar de um grupo de homens, ri sem graça para evitar conflito ou mede cada palavra antes de dizer que se sentiu desrespeitada.

É nesse contexto que o medo de denunciar precisa ser compreendido. Antes de chegar à delegacia, muitas mulheres já enfrentaram um longo percurso emocional e social, marcado por dúvidas, inseguranças e experiências anteriores de descrédito. A porta da delegacia, portanto, não é o primeiro obstáculo. Antes dela, existem outras barreiras difíceis de atravessar: a vergonha, a culpa, a dependência financeira, o medo de represálias e o julgamento alheio.
Há mulheres que temem não ser acreditadas. Outras receiam que a violência dentro de casa se agrave. Há quem dependa economicamente do agressor, tenha filhos, não conte com o apoio da família ou já tenha ouvido tantas vezes que “isso é coisa de casal” que começa a duvidar da própria dor. Diante disso, denunciar não significa apenas relatar um fato. Significa se expor, reviver o abuso, responder a perguntas, lidar com burocracias, enfrentar incertezas e temer o que poderá acontecer depois. Em alguns casos, significa também procurar ajuda em um ambiente institucional que nem sempre oferece o acolhimento adequado.
Existe, portanto, uma contradição: a sociedade cobra que a mulher denuncie, mas nem sempre oferece condições para que ela se sinta protegida ao fazê-lo. Pergunta-se: “Por que ela não falou antes?”, mas raramente se pergunta quantas vezes ela tentou falar e foi desacreditada, ignorada ou silenciada. O medo de denunciar não é sinal de fraqueza, mas pode ser o resultado de uma trajetória marcada pela insegurança e pela constante desvalorização de seus sentimentos e de sua palavra. Nessas circunstâncias, o silêncio pode funcionar como uma forma de proteção diante de um ambiente que nem sempre acolhe.
Isso não implica desencorajar a denúncia, mas reconhecer que denunciar precisa ser um caminho possível, seguro e digno. Não basta dizer “procure ajuda” se a mulher continua cercada pelo medo, pela culpa e pelo desamparo. Por essa razão, é importante ampliar e fortalecer as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e os demais serviços destinados às vítimas de violência. Esses espaços devem oferecer escuta qualificada, orientação clara e atendimento sensível, sem olhares acusadores, julgamentos implícitos ou perguntas que responsabilizem a mulher pela agressão sofrida. Uma estrutura preparada pode fazer a diferença para que mais vítimas se sintam seguras para pedir ajuda e denunciar.
Também é essencial levar a sério as formas de violência naturalizadas no cotidiano. A piada machista não é apenas uma piada quando contribui para o silenciamento. A abordagem invasiva não é elogio quando gera medo, assim como o comentário constrangedor não é brincadeira quando reforça a ideia de que o corpo feminino está disponível ao julgamento. Combater a violência contra a mulher exige interromper essas atitudes, acolher quem demonstra medo e acreditar na palavra de quem relata uma agressão, mesmo quando ela ainda não sabe nomeá-la.
Nenhuma mulher deveria precisar chegar ao limite para ser levada a sério. E talvez a pergunta que fique não seja apenas por que tantas mulheres têm medo de denunciar, mas o que temos feito, todos os dias, para que elas possam confiar na própria voz antes mesmo de precisarem bater à porta de uma delegacia.









